Queimadas e incêndios florestais ameaçam a saúde em Itabira, que precisa de mais árvores
Fotos: Reprodução/ Instituto Bromélia
A cidade convive com o avanço do fogo e a falta de arborização, em meio ao desafio de ampliar áreas verdes sem transformar a vegetação em combustível para novas queimadas
No encerramento da Semana do Ar, nesta segunda-feira (24) no auditório da Unifei, no Distrito Industrial Maria Casemira Andrade Lage, os participantes foram unânimes em apontar que as queimadas e os incêndios florestais, somados à poeira da Vale, degradam a qualidade do ar e provocam ou agravam doenças respiratórias
O gestor das brigadas do Instituto Bromélia, Carlos “Cabeça” Andrade Moura, assegurou que praticamente todas as queimadas e incêndios florestais registrados em Itabira têm origem humana. Ou sejam, são ilegais e ou criminosos.
“Não é fogo espontâneo. São atos criminosos ou fruto de negligência. O preço é alto, com a população respirando fumaça e com a perda da biodiversidade.”
Números são preocupantes

Ele apresentou números desde o início das atividades da Brigada do Instituto Bromélia, em 2024.
Segundo ele, no primeiro ano foram de 28 a 30 atendimentos, com cerca de 900 hectares queimados. Em 2025, os atendimentos subiram para 98, mas a área destruída caiu para 450 a 480 hectares. Já em 2026, até agosto, foram cerca de 35 ocorrências, com 95 hectares atingidos.
Cabeça lembrou ainda um dos últimos incêndios, na região do Laboreaux, que bateu recorde ao consumir cerca de 17 hectares de vegetação nativa em um único evento.
Para mudar esse quadro, ele frisou que a conscientização da população é fundamental. Daí que é preciso orientar e autuar quem insiste em colocar fogo para limpar terrenos, além de penalizar os piromaníacos, quando indentificados, aqueles que ateiam fogo pelo prazer de ver o mato queimar.
Sem esse enfrentamento, a populacao vai continuar sobrendo com a poluição do ar com as queimadas e incêndios florestais e o meio ambiente com a perda da biodiversidade.
Arborização, risco de incêndios e conscientização da população

O engenheiro florestal e professor da Unifei, Gláucio Marcelino Marques, que coordenou o debate na roda de conversa da Semana do Ar 2026 em Itabira, provocou a reflexão ao questionar como evitar que o plantio de novas árvores se transforme em combustível para queimadas e incêndios florestais.
Carlos “Cabeça” respondeu que o risco existe, mas pode ser controlado com manejo adequado: poda, limpeza, irrigação e cuidado constante. “Quanto mais árvores, mais sombra e umidade, o que ajuda a reduzir o perigo”, salientou.
Mas ele ressaltou também que é papel de cada cidadão cuidar do manejo e ajudar na vigilância, para impedir a ação criminosa dos piromaníacos.
“A população ajuda ao não provocar queimadas, preservar as mudas plantadas e assumir responsabilidade coletiva. Sem esse compromisso, o esforço de arborização se perde e pode até se transformar em risco adicional”, acrescentou a secretária municipal de Meio Ambiente, Elaine Mendes.
Gláucio reforçou que a arborização urbana é essencial para melhorar a qualidade do ar e reduzir o calor, mas precisa vir acompanhada de educação ambiental e de políticas públicas que garantam manutenção e fiscalização.
Autuação imediata e crime ambiental

Assim, desde julho deste ano, moradores flagrados queimando mato ou resíduos podem ser multados sem aviso prévio. Nos casos mais graves, como incêndios florestais, os responsáveis respondem criminalmente com base na Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998).
O artigo 41 tipifica como crime provocar incêndio em mata ou floresta, com pena de dois a quatro anos de prisão e multa. O artigo 54 prevê punições para quem causar poluição que resulte em danos à saúde humana, incluindo a fumaça tóxica das queimadas.
Itabira mais Verde, desafio urgente
A secretária municipal de Meio Ambiente, Elaine Mendes, anunciou que o programa Itabira Mais Verde terá seu primeiro inventário de arborização ainda este ano.
A medida é fundamental, pois sem dados confiáveis e auditados não há como avaliar a eficácia do programa, lançado recentemente pela Prefeitura para tirar Itabira da lista das cidades brasileiras com menor cobertura verde em área urbana, segundo o IBGE.
É preciso saber onde estão as árvores, onde faltam e como cuidar delas, envolvendo a população nessa tarefa, já que é a principal beneficiada.
Nesse esforço, torna-se também indispensável cobrar a participação da mineradora Vale, principal agente poluidor da cidade e detentora de uma dívida histórica com Itabira. Isso pelo fato de a empresa não ter cumprido integralmente as condicionantes da LOC 2000 que previam a implantação de cortinas verdes entre as minas, a ferrovia e a área urbana.
Some-se a isso o fracasso do projeto Verde Novo, lançado pela Vale em meados da década de 1980, após o Ministério Público instaurar inquérito que resultou em Ação Civil Pública para apurar sua responsabilidade pela emissão de poeira na cidade.
Essa ação ainda não foi julgada, mas houve um acordo ambiental, firmado em 1993, também não cumprido pela mineradora, o que abre a possibilidade de retomada do processo a qualquer momento, seja por iniciativa do Ministério Público ou da Procuradoria Jurídica da Prefeitura.
“Precisamos virar essa página. Sem arborização não há como enfrentar a poluição e o calor extremos”, ressaltou Elaine Mendes, ao destacar a importância do inventário e da mobilização comunitária para o sucesso do programa Itabira Mais Verde.
O novo programa não repete as promessas mirabolantes e inexequíveis do projeto Verde Novo, que veio a ser o primeiro caso de greenwashing da Vale, antes mesmo de essa prática de marketing ambiental sem base na realidade ganhar nome e ampla reprovação pública.
Que o Itabira Mais Verdeseja exequível e que a população colabore, preservando as mudas plantadas para que possam cumprir sua função ambiental e também para amenizar as ondas de calor extremo que já está aí e tende a aumentar daqui para frente.

Arborização e justiça climática
A professora Ana Carolina Vasques Freitas, da Unifei, destacou que a arborização urbana é também uma questão de justiça social.
Elaine Mendes acrescentou que a vulnerabilidade ambiental está diretamente ligada à vulnerabilidade social, citando inclusive situações de racismo ambiental, em que comunidades mais pobres e periféricas sofrem de forma desproporcional os impactos da poluição e da falta de áreas verdes.
Segundo Ana Carolina, é nos bairros mais vulneráveis que o impacto das ondas de calor extremo se torna mais severo. Daí que devem ser priorizados com o plantio de árvores que podem reduzir significativamente a temperatura, criar sombra e melhorar a qualidade de vida.
Ela lembrou que o fenômeno do super El Niño já está em curso e tende a se agravar nos próximos anos, tornando ainda mais urgente a ampliação da cobertura verde em áreas urbanas.
Para Ana Carolina, arborizar é proteger a população mais exposta e vulnerável, garantindo as condições mínimas de enfrentamento às mudanças climáticas que já se fazem sentir em Itabira.
Serviço
Denunciar quem promove queimadas em lotes e incêndios florestais é um ato de responsabilidade coletiva.
Para isso, a população pode ligar para o 190 (Polícia Militar), 193 (Corpo de Bombeiros) ou para (31) 3839-2137 (Semapa).









