Pesquisadoras da Unifei dissecam a poluição por pó de minério e queimadas. E advertem: respirar o ar de Itabira faz mal à saúde

Fotos: Carlos Cruz

Pesquisas científicas revelam que a poeira respirada em Itabira contém metais pesados, acumulativos no organismo, com maior presença nas partículas mais grossas (PM10), que afetam as vias aéreas superiores, e também nas mais finas (PM2,5), capazes de penetrar profundamente nos pulmões e provocar danos cardiovasculares

A Semana do Ar, promovida pela Prefeitura de Itabira por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Defesa Animal, encerrou-se nesta segunda-feira (24) no auditório da Unifei, no Distrito Industrial Maria Cassemira Andrade. O encontro reuniu especialistas e estudantes, em número reduzido, mas atentos às explicações.

Ao final, uma estudante resumiu a inquietação que é de todos os itabiranos: “Como fazer para melhorar a qualidade do ar em Itabira?”.

Não houve uma resposta única e direta, mas ao longo do bate-papo foram apontados caminhos, alguns já iniciados, como a ampliação da arborização urbana, o combate às queimadas, além da urgente melhoria do monitoramento e o controle da qualidade do ar.

Para isso, a mineradora Vale, principal agente poluidor, precisa também assumir suas obrigações com mais responsabilidade para com a saúde da população, ampliando as medidas mitigadoras para reduzir a poeira na cidade.

E também informando quais são as medidas adotadas e ampliadas, principalmente com o advento da mineração e pilhas a seco, que geram mais poeira fina.

Além disso, a Prefeitura já dispõe de política definida e notificação coletiva para identificar proprietários de lotes que limpam terrenos com queimadas, que podem agora ser autuados e multados, assim como os piromaníacos, que, quando identificados, devem ser processados na forma da lei.

Da esquerda para diretia, Carlos “Cabeça”, Elaine Mendes, Ana Carolina, Rose‑Marie e Gláucio Marques, no encerramento da Semana do Ar, na Unifei
“Quase toda a tabela periódica”

O engenheiro florestal e professor da Unifei, Gláucio Marcelino Marques, que coordenou o debate, sintetizou o diagnóstico sobre o material contido nos particulados suspensos com ironia científica: “No ar de Itabira está quase toda a tabela periódica”.

O comentário surgiu após a professora Rose‑Marie Belardi, doutora em Química pela UFMG e docente da Unifei, apresentar resultado parcial de pesquisa que realizou em parceria com a USP, analisando a composição da poeira da cidade.

“Encontramos metais pesados como ferro, manganês, vanádio, níquel, chumbo, arsênio, cádmio e cromo. São elementos que se acumulam no organismo e podem causar doenças graves”, afirmou.

Ela fez um reparo importante. “A presença desses metais varia conforme o tamanho das partículas. Nas mais finas (PM2,5), que penetram profundamente nos pulmões, a concentração é menor, mas podem alcançar a corrente sanguínea e provocar danos cardiovasculares. Nas mais grossas (PM10), que ficam retidas nas vias respiratórias superiores, a presença é mais significativa, causando danos respiratórios.”

Essa constatação, porém, não chega a ser novidade. É que pesquisa anterior realizada pela Unifei em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) já havia identificado metais pesados na poeira de Itabira, comprovando a relação entre a concentração de material particulado em suspensão e o aumento nas internações por doenças respiratórias.

Calor e poluição, uma combinação que pode ser letal
Estudantes da Unifei, em número pequeno, mas atentos, acompanharam as discussões sobre poluentes que afetam a qualidade de vida em Itabira

A professora Ana Carolina Vasques Freitas, física formada pela Unesp e doutora em Meteorologia pelo Inpe, apresentou a perspectiva climática. “Ondas de calor formam uma cúpula de ar quente sobre a cidade, retendo os poluentes. O efeito combinado pode ser devastador para o sistema cardiovascular”, disse.

Ela lembrou que estudos já correlacionaram esses episódios com picos de internações por infarto e AVC em Itabira. “Não é apenas a mineração. A usina de ferro-gusa instalada no distrito industrial vizinho também aqui da Unifei também contribui para agravar a poluição”, acrescentou.

Ana Carolina destacou ainda que, com a ocorrência do El Niño, os efeitos podem ser ainda mais severos em Itabira.

Acontece que o fenômeno intensifica as ondas de calor e, associado à retenção de poluentes, pode gerar um cenário devastador para a saúde pública, ampliando os riscos de doenças cardiovasculares e respiratórias.

Queimadas e incêndios florestais

O gestor do Instituto Bromélia, Carlos “Cabeça” Andrade Moura, responsável pela coordenação e contratação da Brigada Florestal de Itabira em convênio com a Prefeitura, apresentou dados do ano passado,

“Em 2025, foram quase cem ocorrências de queimadas e incêndios florstais, com centenas de hectares queimados. Praticamente 100% dos incêndios são causados por ação humana.”

Ele destacou que o número elevado de ocorrências evidencia a gravidade do problema e a necessidade de resposta organizada. “A Brigada Florestal, criada em convênio com a Prefeitura, passou a atuar diretamente no combate a esses incêndios, enfrentando situações de grande risco para conter as chamas e reduzir os danos ambientais”, acentuou.

Queimadas são recorrentes na cidade e agravam ainda mais a qualidade do ar
Arborização e desigualdade

A secretária de Meio Ambiente, Elaine Mendes, reconheceu que Itabira precisa superar a “arborofobia”, um sentimento de aversão à arborização que ainda persiste na cidade.

O histórico ambiental na cidade ajuda a entender essa resistência. É que, em meados da década de 1980, após a promulgação da Lei da Ação Civil Pública (Lei 7.347/1985) pelo presidente José Sarney, o Ministério Público de Minas Gerais, por meio do então promotor José Adilson Marques Bevilácqua, moveu a primeira e única ação contra a poluição do ar em Itabira.

Essa ação ainda não foi concluída, mas paralisada mediante um acordo com condiconantes que, a exemplo da LOC 2000, não foram integralmente cumpridas pela mineradora Vale.

Como reação à essa ação, a Vale lançou o projeto Verde Novo, com a promessa de plantar 1 milhão de árvores na cidade, como meio para diminuir a poeira. E saiu perfurando passeios, sem a permissão dos proprietários e sem criar parcerias, plantando mudas raquíticas, vindas da reserva de Linhares (ES) que não foram para frente.

Com isso, o projeto não foi apresentou os resultados esperados e a cidade de Itabira continua sendo uma das menos arborizadas do país, conforme registro do IBGE.

Esse fracasso deixou marcas profundas entre os itabiranos, reforçando a falta de confiança em programas de arborização e alimentando a chamada “arborofobia”.

Elaine anunciou que o programa Itabira Mais Verde terá seu primeiro inventário de arborização urbana ainda este ano, buscando reverter esse quadro histórico. “Não é só plantar árvore. É preciso plano de manejo, irrigação e monitoramento. Arborização urbana é medida mitigadora essencial para filtrar poluentes.”

A professora Ana Carolina reforçou e fez uma constatação, que precisa ser observada para não repetir a discriminação. “É justamente nos bairros mais pobres e adensados, onde a poluição e o calor são mais intensos, que há menos árvores. É onde mais precisa de cobertura vegetal, mas é onde não há.”

Estudos epidemiológicos e saúde pública

Foi lembrado que é preciso dar continuidade ao estudo epidemiológico sobre doenças respiratórias realizado pela equipe da USP, liderada pelo professor Paulo Saldiva, no início deste século.

Esse estudo foi uma das condicionantes da LOC de 2000 — e, como muitas outras, não foi integralmente cumprida.

A pesquisa concluiu que os resultados não eram ainda definitivos. E apontou a necessidade de aprofundar a investigação diante do número elevado de casos de doenças cardiorrespiratórias em Itabira.

Essas doenças já oneram o sistema público de saúde, com internações hospitalares frequentes e atendimentos ambulatoriais recorrentes.

O quadro reforça a importância de retomar e atualizar os estudos, para que se possa medir com precisão os impactos da poluição atmosférica sobre a saúde da população itabirana.

E também para orientar políticas públicas de mitigação – além de compensações ambientais e até mesmo financeiras ao erário municipal.

O exemplo canadense e o contraste com Vitória

A professora Ana Carolina lembrou que a Vale pode fazer muito mais para conter a poeira fugitiva de suas minas em Itabira. “A empresa tem tecnologia e recursos para reduzir significativamente a emissão de particulados.”

Ana citou o exemplo de Sudbury, no Canadá, onde a mineradora também opera sob legislação mais restritiva e foi obrigada a adotar medidas eficazes de controle da poluição. Para ela, esse caso mostra que, quando há exigência legal e fiscalização rigorosa, a empresa consegue reduzir impactos ambientais de forma consistente.

Aqui, a Vale pode fazer muito mais, mas só avançará só for cobrada com mais veemência, o que até então não tem acontecido por parte das autoridades municipais.

O contraste é também evidente quando se compara com as medidas mitigadoras da poeira aplicadas no porto de Tubarão, em Vitória, no Espírito Santo, onde a Vale está investindo R$ 4,6 bilhões para conter o “pó preto”.

Em Itabira, nada semelhante foi feito, ou pelo menos não está sendo feito com o mesmo rigor e busca de resultados. A diferença expõe a desigualdade de tratamento entre cidades afetadas pela mesma empresa, mesmo com Itabira já vivendo o crepúsculo da mineração.

Licenciamento ambiental vencido

Um ponto crucial também foi lembrado: a licença ambiental da Vale em Itabira está vencida desde 2016.

Cabe às autoridades municipais, prefeito, secretária de Meio Ambiente, vereadores, Codema, pressionarem a Semad para dar prosseguimento ao licenciamento, não sem antes renovar a anuência municipal.

É que em dez anos ocorreram mudanças significativas na mineração, como o surgimento de novas pilhas de estéril e a concentração de minério a seco, que aumentam a emissão de poeira mais fina.

É preciso insistir também para que esse processo de renovação seja precedido de audiência pública, a exemplo da realizada em 1988, que serviu de base para as condicionantes da LOC de 2000.

 

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