Prefeito de Itabira propõe criação de comitê latino-americano de minerais críticos em congresso no Peru
Marco Antônio Lage com líderes internacionais no WMC2026
Fotos: Divulgação/ Amig Brasil
Presidente da AMIG Brasil defende integração regional de países latinos-americanos para fortalecer marcos regulatórios e agregar valor à cadeia produtiva da mineração
O prefeito de Itabira (MG) e presidente da Associação Brasileira de Municípios Mineradores (Amig Brasil), Marco Antônio Lage (PSB), abriu sua participação no 27º Congresso Mundial de Mineração (WMC 2026), realizado em Lima, no Peru, com uma proposta que ganhou rápida adesão: a criação de um comitê latino-americano para unificar marcos regulatórios e orientar uma política mineral conjunta na região.
Em meio à corrida global por minerais críticos, insumos essenciais para a transição energética e novas tecnologias, Lage destacou que a América Latina precisa atuar de forma coordenada para transformar sua potência geológica em desenvolvimento econômico e social.
“Estamos diante de uma discussão estratégica sobre terras raras e minerais críticos, fundamentais para a transição energética. A Amig Brasil apoia a indústria mineral e reconhece a importância dos investimentos, mas defende uma mineração mais justa, sustentável e inclusiva, não apenas no discurso, mas na prática”, afirmou.
Debate internacional

Convidado para integrar a mesa-redonda Rumo a uma Mineração do Futuro: Cadeias de Valor Resilientes, Sustentáveis e Competitivas em Minerais Críticos, o presidente da Amig Brasil reforçou que gargalos regulatórios, ambientais e tributários são comuns a países como Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Peru e Brasil.
A proposta do comitê unificado recebeu apoio imediato do ministro de Energia e Minas do Peru, Waldir Eloy, que classificou a iniciativa como inovadora.
Organizado pelo Instituto de Ingenieros de Minas del Perú (IIMP), o congresso reuniu autoridades, especialistas e representantes da indústria para discutir sustentabilidade, segurança no fornecimento de minerais e atração de investimentos.
Valor agregado como prioridade
Um dos pontos centrais da fala de Lage foi a necessidade de romper com o modelo de exportação de commodities sem beneficiamento.
“O Brasil, por exemplo, é uma potência geológica, assim como o Peru, mas essa riqueza não se traduz em benefícios sociais proporcionais. Hoje, grande parte do beneficiamento ocorre fora do país. Precisamos mudar essa lógica e agregar valor aos nossos produtos”, destacou, citando a China como exemplo a ser seguido.
Segundo ele, o comitê proposto servirá como base para políticas industriais que ampliem o conhecimento geológico e incentivem inovação, industrialização e geração de tecnologia na região.
Entraves estruturais e urgência de reformas
Lage também chamou atenção para os desafios internos do Brasil, como o código minerário de 1967, a fragilidade da fiscalização e distorções tributárias.
“Hoje, o Brasil não cobra imposto de exportação sobre minerais, o que estimula a venda de commodities sem valor agregado. Isso ocorre por causa da Lei Kandir, de 1996, que isentou as empresas exportadoras do pagamento do ICMS”, pontuou.
Ele lembrou que, em 2025, o país exportou cerca de 431 milhões de toneladas de produtos minerais, movimentando US$ 46 bilhões, mas com baixa retenção de valor para União, estados e municípios.
Legado para os territórios
O prefeito de Itabira reforçou que a mineração precisa deixar benefícios concretos para as comunidades locais.
“A nossa história, no Brasil, mostra que ofertamos nossas riquezas, mas não colhemos os benefícios sociais. A pergunta que fica é: o que permanece para os territórios após a mineração?”, questionou.
Ao citar o caso de Itabira, berço da mineração da Vale e hoje diante do esgotamento de suas reservas, Lage alertou que essa realidade deve servir de lição para toda a América Latina.
“Nossa riqueza precisa gerar mais legado para as futuras gerações e para nossas comunidades”, disse.
Itabira é, seguramente, o melhor exemplo a não ser seguido de cidade minerada há mais de 84 anos e que vive o crepúsculo da atividade mineral sem ter agregado valor ao minério de ferro.
Sustentabilidade e coordenação continental
Para o presidente da Amig Brasil, a América Latina concentra reservas estratégicas para a transição energética global e precisa atuar de forma coordenada para garantir que essa riqueza beneficie seus povos.
“Queremos investimentos da China, dos Estados Unidos, da Europa, mas com condições que garantam agregação de valor, inclusão social e proteção ambiental”, afirmou.
Ao encerrar sua participação, Lage alertou para os riscos de decisões precipitadas diante da urgência global por minerais críticos.
“Vivemos um momento de urgência, mas essa urgência não pode se tornar uma armadilha que impeça a estruturação de um modelo mais justo e sustentável. Por isso, o comitê cuja criação foi aprovada aqui se torna tão relevante”, concluiu.








