“O Brasil só será verdadeiramente democrático se acabar com o racismo”, disse a ministra Rachel Barros, em Itabira

Empena da Casa da Igualdade Racial homenageia Dona Rosinha, como exemplo de força comunitária e ancestralidade

Fotos: Carlos Cruz

Primeira unidade mineira do programa federal Mais Igualdade, a Casa da Igualdade Racial reforça o projeto Itabira Antirracista, amplia a rede nacional de enfrentamento ao racismo

Com homenagens póstumas às lideranças quilombolas e matriarcas da comunidade Morro de Santo Antônio, Rosemary Alvares de Souza, a Dona Rosinha, e Maria Gregório Ventura, a Dona Tita, falecidas recentemente, a Prefeitura de Itabira e o Ministério da Igualdade Racial inauguraram, nesta terça-feira (30), a primeira Casa da Igualdade Racial em Minas Gerais – e a quinta de uma série já instalada no país.

Elas tiveram seus retratos pintados nas empenas da Casa da Cidadania Margarida Silva Costa, que compartilha espaço com a nova Casa, na praça Acrísio de Alvarenga, centro de Itabira.

Ministra Rachel Barros compara a Casa da Igualdade Racial às unidades básicas do SUS, reforçando seu papel como porta de entrada para políticas públicas antirracistas

Presente na cerimônia de inauguração, a ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, afirmou que o novo espaço simboliza acolhimento, resistência e transformação social.

“A Casa da Igualdade Racial vem exatamente com esse sentido. Um espaço para que vocês se sintam acolhidos, para que vocês entrem e sintam: esse espaço também é meu”, disse ela, dirigindo-se ao público presente na inauguração.

Ela reforçou que políticas públicas só se tornam efetivas quando chegam aos territórios. “Porque a gente só avança num Brasil verdadeiramente democrático se acabar com o racismo. O racismo é uma chaga que não se resolve só com lei, mas com serviço, com atuação concreta”, afirmou.

A Casa da Igualdade Racial integra a Casa da Cidadania Margarida Silva Costa, localizada na praça Acrísio de Alvarenga, no centro de Itabira
“A Casa é acolhimento e resistência”

A Casa integra o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir), funcionando como uma “unidade básica” de atendimento e articulação das políticas públicas voltadas para a população negra.

Cortejo tradicional de matriz afro-brasileira presente na inauguração da Casa da Igualdade Racial em Itabira: cultura popular e ancestralidade negra

A ministra fez uma analogia direta com o Sistema Único de Saúde (SUS), explicando que, assim como as unidades básicas de saúde são a porta de entrada para o atendimento integral, a Casa da Igualdade Racial será a porta de entrada para os serviços de promoção da igualdade racial.

“Assim como o SUS tem suas unidades básicas espalhadas pelo país, nós queremos que a Casa da Igualdade Racial esteja presente em todos os municípios, garantindo que a população negra encontre acolhimento, orientação e acesso às políticas públicas”, acrescentou.

Estudantes da Escola Municipal Inês Torres homenagearam a atriz Taís Araújo, referência de representatividade negra na televisão e no cinema brasileiro

A ministra lembrou que o edital para novas casas está aberto até 15 de julho. E reforçou que o objetivo é ampliar a rede em todo o território nacional. “Nenhuma pessoa negra nesse país deve ter os seus sonhos limitados. Todo mundo tem valor neste Brasil.”

Barros também acrescentou que a Casa é espaço de atendimento jurídico, psicológico e social, além de fomentar cultura, educação e inclusão econômica. “Estamos trabalhando dia a dia para construir um futuro melhor para todas as crianças e para um Brasil em que possamos nos orgulhar de dizer que erradicamos o racismo.”

Tambores rufam em homenagem às matriarcas quilombolas Dona Rosinha e Dona Tita, do Morro de Santo Antônio, na inauguração da Casa da Igualdade Racial
“Itabira precisa se reinventar”

O prefeito Marco Antônio Lage (PSB) afirmou que a cidade, marcada pela mineração e por décadas de exploração de suas riquezas, precisa se reinventar cultural e socialmente para enfrentar os desafios do presente e construir um futuro mais justo.

“A mudança cultural mais importante para este tempo de Itabira é criar a cultura de uma cidade antirracista. É por isso que estamos trabalhando muito na educação, para incluir esse povo preto, que representa 73% da nossa população, em nossas políticas públicas e garantir que ninguém seja deixado para trás.”

Marco Antônio Lage reforça o compromisso com políticas públicas voltadas para a igualdade racial, por uma Itabira Antirracista

Ele lembrou que a Casa da Cidadania foi o ponto de partida para o programa Cidade Quilombola, que hoje assegura serviços públicos e a instalação de memoriais nas comunidades quilombolas do Morro Santo Antônio e Capoeirão, reconhecendo a história e a resistência da população negra local.

“Essa Casa da Igualdade Racial é um instrumento que vamos utilizar plenamente para que Itabira seja referência de reparação e inclusão. É um espaço que consolida o que já estamos fazendo e abre caminho para novas políticas.”

O prefeito também destacou o legado das matriarcas quilombolas recentemente falecidas, que se tornaram símbolos da luta e da memória coletiva.

Mural em homenagem a Dona Tita, matriarca do Morro de Santo Antônio, celebra sua força e ancestralidade

“São histórias do Brasil, de Minas e dos quilombos de Itabira. O Brasil tem uma grande dívida impagável com a população negra, e essa Casa é um passo para ajudar a reparar essa dívida. Ela é também uma homenagem viva às nossas matriarcas, que nos ensinaram a resistir e a lutar por dignidade.”

Na coletiva de imprensa, Lage reforçou que a apropriação da Casa pela comunidade é fundamental para garantir sua permanência e efetividade.

“A Casa da Igualdade Racial tem que ser imediatamente apropriada pela cidadania, pela população negra. E dela ninguém mais vai tirar. Este espaço é da comunidade, e é a comunidade que vai dar vida a ele, ocupando, participando e transformando.”

“Só a luta muda a vida”
O itabirano Clédison Júnior, do Sinapir, foi um dos articuladores da Casa em Itabira, fortalecendo a articulação nacional pela igualdade racial

O itabirano Clédison Júnior, secretário nacional de Gestão do Sinapir, não conteve a emoção ao falar durante a inauguração da Casa da Igualdade Racial em sua cidade natal.

Para ele, o momento carrega um simbolismo profundo, que mistura memória, reparação e esperança. “Itabira não é qualquer cidade. Essas riquezas foram extraídas por mãos negras. É nosso compromisso assegurar justiça racial, reparação e democracia para o nosso povo.”

Com sentimento de pertencimento, Clédison reforçou que a Casa deve ser ocupada pela comunidade, tornando-se um espaço vivo e pulsante.

“Nós queremos que esses espaços sejam os mais afetivos, o mais acolhedores e os mais rebeldes. Porque só a luta muda a vida. É a luta que nos trouxe até aqui, e é a luta que vai garantir que este espaço seja de fato transformador.”

Na coletiva de imprensa, o secretário lembrou que Itabira reúne todas as razões para receber a Casa, destacando a força da população negra local e sua contribuição histórica para o país.

“Uma cidade com mais de 70% de população negra, que contribuiu por décadas com a mineração e o desenvolvimento nacional, merece ser referência em reparação e justiça racial. Este é um reconhecimento que vem tarde, mas vem com a força da nossa história e da nossa resistência.”

Clédison concluiu seu pronunciamento lembrando que a inauguração não é apenas um ato administrativo, mas um gesto de reparação e dignidade.

“Hoje, Itabira escreve uma nova página. Uma página que honra os que vieram antes de nós e abre caminho para que nossas crianças cresçam em uma cidade que reconhece sua negritude como força, e não como limite.”

 “Itabira é terra de resistência”
Raquell Guimarães, embaixadora dos ODS, participa da inauguração da Casa da Igualdade Racial, destacando o sonho coletivo por uma cidade mais justa e inclusiva, antirracista

A primeira-dama de Itabira e embaixadora dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU, em Minas Gerais, Raquell Guimarães, fez uma crítica contundente à exploração mineral.

“Itabira é um território explorado pela mineração, que recebe tão pouco, mas que recebe agora um espaço como marca incessante pela busca por justiça social. Aqui é terra de Sá Maria, de Dona Rosinha e de Dona Tita. Terra de um povo preto resistente e explorado.”

Ela reforçou que a Casa será espaço de acolhimento e justiça, ajudando a consolidar o projeto Itabira Antirracista. “Este espaço será apropriado pela comunidade negra e ninguém mais vai tirar.”

Contexto histórico e simbólico
Público prestigia a inauguração da Casa da Igualdade Racial em Itabira, acompanhando as apresentações culturais, pronunciamentos e homenagens celebrando a ancestralidade e a resistência negra

A inauguração da Casa da Igualdade Racial em Itabira insere-se em um movimento nacional de fortalecimento das políticas de promoção da igualdade e fim do racismo. O equipamento integra o Sinapir, criado para articular estados e municípios em torno de ações conjuntas contra todas formas de discriminação racial.

O evento também dialoga com o Plano Juventude Negra Viva, política federal voltada para enfrentar a violência letal e as vulnerabilidades sociais que atingem jovens negros.

Ao instalar a Casa em Itabira, o governo federal sinaliza a importância de levar políticas estruturantes para municípios médios e pequenos, não apenas para capitais e grandes centros.

As homenagens póstumas a Dona Rosinha e Dona Tita reforçam a dimensão simbólica da inauguração. Dona Tita, matriarca quilombola, teve sua trajetória registrada em filme e celebrada em seu centenário.

Dona Rosinha, descoberta como escritora pela consagrada autora Conceição Evaristo, transformou suas “escrevições” em livro que se tornou o mais vendido no Festival Literário Internacional de Itabira, na edição do ano passado.

Ambas representam a memória viva da resistência quilombola e da cultura negra no município de Itabira.

É assim que, a inauguração da Casa da Igualdade Racial em Itabira simboliza a continuidade de uma luta histórica iniciada nos anos 1980 com o Movimento Negro Unificado.

Ao unir homenagens às matriarcas quilombolas e políticas públicas de inclusão, o município se coloca como referência em Minas Gerais na construção de uma cidade antirracista e na consolidação de um Brasil mais justo e democrático.

 

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