Mercado de recicláveis e parcerias podem abrir novas perspectivas para coleta seletiva em Itabira

Foto: Átila Lemos/
Reprodução

Com novas tecnologias, apoio político e alianças estratégicas a cadeia da reciclagem fortalece, gera renda para catadores; e retorna a promessa da Central de Tratamento de Resíduos, ainda não cumprida

A coleta seletiva em Itabira, que já foi referência nacional, perdeu força desde a pandemia, quando o serviço foi suspenso em 2020 e retomado apenas em 2021, mas possui grande potencial de reaproveitamento de materiais.

Dados da Itaurb apontam que a Central de Triagem, instalada no bairro Nova Vista, poderia processar até 3,7 mil toneladas por ano, mas atualmente opera com apenas 21% dessa capacidade, segundo o presidente da empresa municipal, Leonardo Gonçalves, ao fazer o balanço do serviço público na reunião do Codema, na quinta-feira (14).

Daí que é preciso, além de modernizar e avançar com novas estruturas, investir mais também em campanhas permanentes de educação ambiental e na necessidade de fiscalização mais rigorosa, principalmente no comércio e na indústria, para o descarte correto de resíduos.

“Sem disciplina e sem hábito correto, a coleta seletiva não se sustenta. É preciso que a população entenda que separar os resíduos é responsabilidade de todos”, disse o presidente da Itaurb, sem deixar de reconhecer que há melhorias possíveis de ocorrerem no serviço de coleta de resíduos urbanos.

Contêineres e o fim do trabalho insalubre
Contêineres de 1 mil litros para resíduos orgânicos e recicláveis foram distribuídos em 64 pontos no bairro Campestre (Foto: Carlos Cruz)

Entre essas melhorias, Gonçalves citou a implantação piloto de contêineres no bairro Campestre, em junho de 2024, com 124 equipamentos de 1 mil litros, distribuídos em 64 pontos  – e deverá ser expandida para outros bairros.

O sistema representa uma mudança importante, já adotada em várias cidades brasileiras e internacionais, pois elimina o trabalho insalubre e perigoso dos garis pendurados na traseira dos caminhões coletores, reduzindo riscos de acidentes e melhorando as condições de trabalho.

Além disso, os contêineres herméticos evitam vazamentos, controlam odores e reduzem a proliferação de pragas urbanas, trazendo benefícios diretos para a saúde pública e para a estética da cidade.

A coleta mecanizada, em substituição ao recolhimento porta a porta, também aumenta a eficiência operacional, reduz o tempo de serviço e os custos de manutenção. Isso enquanto a separação em contêineres específicos para recicláveis e orgânicos facilita o reaproveitamento e amplia a taxa de reciclagem.

O presidente da Itaurb enfatizou, contudo, que para o sistema ter sucesso é indispensável a participação ativa da população, tanto na segregação correta dos resíduos domiciliares quanto na preservação dos contêineres contra vandalismo ou mau uso.

“Se a comunidade não colaborar, todo o investimento perde sentido. É preciso que cada morador faça a sua parte, cuidando dos equipamentos e separando corretamente os materiais”, reforçou.

Com os contêineres, proposta é gradativamente substituir a coleta de porta em porta, com o trabalho insalubre e perigoso dos coletores (Foto: Ascom/PMI)
Parceria com a Biosolvit

Um dos avanços recentes foi a chegada da Biosolvit, fábrica instalada em Itabira que combina reciclagem química e inovação tecnológica.

A empresa desenvolveu um processo patenteado que transforma resíduos PET em uma resina biodegradável e não tóxica, aplicada em áreas mineradas descobertas para reduzir a emissão de poeira e melhorar a qualidade do ar.

Diferentemente da reciclagem tradicional, que exige PET cristal e limpo, a tecnologia da Biosolvit permite utilizar PET colorido, bandejas e outros materiais de baixa reciclabilidade, ampliando a renda dos catadores.

A presidente da Ascarmarita, Lucimar Gomes da Silva, destacou na mesma reunião do Codema que essa parceria representa uma mudança importante para os catadores.

“Materiais que antes não tinham valor agora podem ser reaproveitados. Isso significa mais renda e mais dignidade para quem vive da reciclagem”, disse.

Ela lembrou ainda que o volume de material comercializado pela associação cresceu 114% entre julho e dezembro de 2024, consolidando o papel da entidade na cadeia de reciclagem, ressaltando também que é grande o potencial de crescimento para esse importante segmento.

Unidade da Biosolvit instalada em Itabira produz resina biodegradável a partir de plástico reciclado, gera renda para catadores e contribui para diminuir a poeira de minério na cidade, com aplicação em áreas mineradas sem revegetação (Foto: Carlos Cruz)
Universidades, empresas e hospitais

Para isso, a Ascarmarita mantém parcerias com instituições de ensino superior, como a Universidade Federal de Itajubá, campus de Itabira, que desenvolve projetos de extensão e metodologias participativas, oferecendo apoio técnico, capacitação e bolsas para estudantes.

Hospitais locais, como o Carlos Chagas e o Nossa Senhora das Dores, fornecem papelão não contaminado, já separado, facilitando a coleta e agregando valor ao material.

Empresas privadas também contribuem com recursos financeiros e equipamentos, fortalecendo a rede de apoio. Mais parcerias podem ser incrementadas também com as redes de supermercados.

A novela da Central de Tratamento de Resíduos
Antiga Fazenda Palestina, local onde Vale e Prefeitura prometem instalar o novo Distrito Industrial, juntamente com uma Central de Reciclagem e Reaproveitamento de Resíduos (Foto: Carlos Cruz)

A chamada Central de Tratamento de Resíduos, citada pelo presidente da Itaurb na reunião do Codema, é uma promessa que se arrasta há mais de duas décadas.

Surgiu como condicionante da Licença de Operação Corretiva (LOC), aprovada pelo órgão ambiental estadual em 2000, mas nunca foi cumprida pela Vale.

Uma década e meia depois, voltou a ser apresentada como contrapartida social e ambiental pelo empréstimo subsidiado obtido pela mineradora junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para readequar as usinas Cauê e Conceição I e construir a Conceição II, inaugurando o terceiro ciclo da mineração em Itabira. Também não saiu do papel.

O projeto retornou agora no programa estratégico Itabira Sustentável, da atual administração municipal, como promessa de instalação no futuro Distrito Industrial da Fazenda Palestina. Entretanto, até então, a central e o novo distrito ainda não passaram da fase de intenção.

A proposta inicial da Central de Resíduos foi da própria Vale, apresentada como forma de compensação ambiental pela então gerente-geral de Meio Ambiente, Isaura Pinho, no início deste século.

O modelo por ela apresentado foi inspirado no Centro de Tratamento e Valorização de Resíduos (CTVR) de Camaçari (BA), instalado em área próxima ao polo petroquímico.

Integra ainda a CTVR uma usina de biogás, compostagem, carbonização, reciclagem de entulho e logística reversa, funcionando como destino para resíduos urbanos e industriais.

À época, a Vale levou um grupo de empresários e políticos itabiranos para conhecer a usina baiana, que seria referência para a de Itabira.

O objetivo com essa central de tratamento de resíduos é oferecer destino adequado para inservíveis industriais e urbanos, transformando resíduos em insumos reaproveitáveis e energia limpa, além de atender condicionantes de licenciamento e contrapartidas de grandes projetos minerários já ocorridos em Itabira e também pelos que virão.

Mas, como tantas outras promessas da Vale, até aqui ficou apenas no papel e nas cartas de boas intenções para o itabirano ver e acreditar, para depois se esquecer de lembrar e cobrar.

Condicionante socioambiental e econômico

É certo que, sendo finalmente implantada, e espera-se que isso um dia aconteça, a Central de Tratamento de Resíduos em Itabira pode representar uma transformação estrutural na gestão de resíduos, integrando de forma mais ampla catadores, empresas e poder público em uma rede organizada de reaproveitamento e reciclagem.

O projeto não apenas atenderia às condicionantes socioambientais históricas, mas também tem potencial de atrair empresas especializadas em reciclagem de sucatas metálicas e outros inservíveis da grande indústria regional, criando um polo de valorização de resíduos no município.

Portanto, para a própria Vale, e para outras grandes empresas da região, essa central pode ser  uma solução estratégica para o descarte adequado de materiais industriais, ao mesmo tempo em que fomenta a economia circular, reduz passivos ambientais e amplia oportunidades de geração de renda e emprego em Itabira.

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