Coleta seletiva em Itabira perde força desde a pandemia, mas números mostram potencial para voltar a ser referência nacional
Coleta de resíduos em Itabira tem ocorrido sem a segregação necessária dos materiais orgânicos e recicláveis, com grande parte sendo encaminhado ao aterro sanitário
Fotos: Carlos Cruz
Volume da reciclagem atual é baixa diante da capacidade instalada; município discute investimentos, educação ambiental, fiscalização e instalação de Central de Resíduos na Fazenda Palestina
A coleta seletiva em Itabira, que já foi referência nacional, entrou em declínio durante a pandemia, quando o serviço foi paralisado em março de 2020 e só retornou em fevereiro de 2021, já na administração do prefeito Marco Antônio Lage (PSB).
A suspensão temporária da coleta seletiva foi necessária para impedir a contaminação dos servidores da Empresa de Desenvolvimento Urbano de Itabira (Itaurb), responsáveis pela operação da Central de Resíduos Recicláveis, no bairro Nova Vista.
Desde então, a coleta seletiva na cidade não conseguiu recuperar o mesmo ritmo de um serviço que é essencial não apenas para o meio ambiente, mas também para toda a coletividade. Isso porque a coleta seletiva reduz a quantidade de resíduos enviados ao aterro sanitário, prolongando sua vida útil, como também por reduzir impactos ambientais como a contaminação do solo e das águas.
Além disso, permiti que materiais como papel, vidro, plástico e metais retornem ao ciclo produtivo, diminuindo a necessidade de extração de novos recursos naturais, contribuindo para a economia circular.
Trata-se, portanto, de uma prática que beneficia toda a sociedade ao gerar renda para associações de catadores, reduzir custos de disposição final para o município e promover hábitos de consumo mais conscientes entre os cidadãos.
No entanto, esse serviço tem sido negligenciado tanto pela população, que muitas vezes não observa os dias corretos de coleta ou mistura recicláveis com orgânicos, quanto pela própria Itaurb, que em diversas ocasiões recolhe tudo junto e misturado, anulando o esforço de separação pela parte consciente da população.
Esse procedimento tem efeito pedagógico negativo, pois acostuma mal os moradores e reforça a percepção de que “não adianta separar”.
São motivos que explicam a queda do sistema de coleta seletiva, mas não justificam, já que o serviço deve ser um dever compartilhado e um direito coletivo, indispensável para garantir sustentabilidade e qualidade de vida na cidade com gestão correta de resíduos urbanos.
Infelizmente, o que se observa em Itabira é que parte da população perdeu o hábito de separar os resíduos e de dispor para recolhimento nos dias corretos, o que, na falta de campanhas educativas permanentes e recorrentes, agravou o problema.
Isso se torna ainda mais relevante diante da população flutuante da cidade, que precisa conhecer como funciona esse serviço essencial para o meio ambiente.
Queda na reciclagem

Em apresentação na reunião do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema), na quinta-feira (14), o presidente da Itaurb, Leonardo Alexandre Silva Gonçalves, apresentou um balanço da coleta seletiva na cidade, com números que revelam a dimensão da queda.
Isso mesmo com o serviço, segundo ele, atingir 73 dos 79 bairros existentes, correspondendo a 92,41% do território urbano de Itabira. “Os bairros ainda não atendidos, em sua maioria, são de ocupação recente ou de baixa densidade populacional e serão gradualmente incorporados”, assegurou o presidente da Itaurb.
Ele informou que, em 2025 foram triadas apenas 679 toneladas de recicláveis, média mensal de 55,8 toneladas, com receita de cerca de R$ 740 mil. Esse volume representa apenas 21% da capacidade atual de triagem da Central de Resíduos, muito abaixo do potencial estimado de 3,7 mil toneladas por ano.
“Há muito material que poderia ser aproveitado, mas acaba indo para o aterro por estar contaminado ou não ter valor de mercado”, disse.
Esse baixo índice de reciclagem e reaproveitamento causa outro impacto negativo, que é a redução da vida útil do aterro sanitário do Borrachudo, cujo esgotamento inicial está previsto para 2035.
O aterro sanitário de Itabira foi inaugurado em 12 de novembro de 2012, instalado onde antes existia um lixão – e contou com recursos da mineradora Vale, como parte do cumprimento da Licença de Operação Corretiva (LOC). Com gestão correta dos resíduos urbanos, teria capacidade para receber os resíduos orgânicos gerados em Itabira por um prazo de 23 anos, a contar da data de inauguração.
Entretanto, com o declínio da coleta seletiva, a paralisação durante a pandemia – e também com a disposição de inservíveis recolhidos de quintais e terrenos baldios para o combate ao mosquito da dengue, em março de 2024, esse prazo para o esgotamento do aterro pode ser bem menor.
Daí a urgência em retomar a coleta seletiva com todo vigor, inclusive com reaproveitamento de parte dos resíduos orgânicos em usinas de compostagem, gerando adubo para canteiros e jardins, como já ocorreu em Itabira – e que precisa ser retomado em grande escala.

Investimento e lucratividade
A secretária de Meio Ambiente, Elaine Mendes, lembrou que a coleta seletiva exige grandes investimentos e que “são poucas cidades no país que a adotaram”. De fato, segundo o IBGE, apenas 3.364 municípios (60,5%) brasileiros que possuem serviço de manejo de resíduos sólidos dispõem de coleta seletiva.
Apesar do custo elevado, ela destacou que o sistema pode ser lucrativo, como comprovam os números atuais de Itabira, mesmo com queda no recolhimento, reciclagem e reaproveitamento, acentuando que há grande potencial para um melhor aproveitamento e revenda dos materiais coletados.
Leonardo reforçou que o grande salto será dado com os projetos do programa estratégico Itabira Sustentável, que prevê, entre outras ações para melhorar a gestão de resíduos no município, a instalação de uma Central de Resíduos no novo distrito industrial da Fazenda Palestina.
“Esse será o marco de transformação, porque permitirá reaproveitar até resíduos da construção civil”, disse. Acrescente-se que há também a possibilidade de reciclagem e reaproveitamento de sucatas metálicas geradas por indústrias da região.
Educação ambiental e campanhas

De acordo com dados apresentados ao Codema, em 2025, a Itaurb realizou 160 ações educativas em 39 bairros, alcançando mais de 19 mil pessoas. Em 2026, até abril, foram 15 campanhas porta a porta, com 7.170 residências visitadas e cerca de 14 mil pessoas impactadas.
São números expressivos, mas ainda insuficientes diante dos resultados alcançados, reforçando a necessidade de campanhas porta a porta, assim como medidas coercitivas, para que famílias e comerciantes façam a segregação e disposição correta de seus resíduos.
O presidente da Itaurb destacou também o trabalho educativo que a empresa municipal tem levado às escolas. “As crianças são a base da mudança, porque levam a informação para dentro de casa. É nelas que precisamos investir para transformar hábitos”, disse Leonardo Gonçalves, prometendo também intensificar a educação ambiental de porta em porta.
Problemas operacionais
O gerente da Itaurb, responsável pela frota e coleta geral na cidade, Cláudio Lage, reconheceu que o serviço de coleta seletiva enfrenta dificuldades operacionais. “Se o papelão está contaminado com comida ou fralda, perde-se tudo. Não adianta levar para a triagem, porque expõe os trabalhadores e contamina o restante”, explicou.
Além disso, há falhas e ou insuficiência de comunicação com a população, que muitas vezes coloca recicláveis em dias de coleta orgânica. Isso precisa mudar. Se há contaminação, com a disposição incorreta, deve-se deixar para trás o que não é para ser disposto no dia, mesmo que haja reclamação da população.
Cláudio Lage também apontou problemas de mão de obra, Segundo ele, o quadro de empregados da Itaurb está envelhecido, muitos estão próximos da aposentadoria, outros afastados por problemas de saúde ou impedidos de executar serviços mais pesados. Daí a necessidade da terceirização da coleta dos resíduos orgânicos, ficando com a empresa municipal apenas o recolhimento de recicláveis.
Mas mesmo as empresas terceirizadas têm tido dificuldades na contratação de mão de obra. “O rapaz novo hoje não quer saber de trabalho pesado. Ficam pouco tempo no serviço e pedem demissão. Isso gera instabilidade e compromete a qualidade do serviço”, afirmou.
Fiscalização e medidas futuras
Para enfrentar o problema do descarte incorreto, a Itaurb vai procurar ampliar a parceria com o serviço de postura municipal. Hoje, a empresa já atua notificando moradores e comerciantes que descumprem as regras de separação e disposição dos resíduos.
Segundo Cláudio Lage, como a Itaurb não tem poder punitivo, não pode multar. A saída, de acordo com ele, não sendo regularizadas em até 30 dias as situações notificadas, em até 30 os casos reincidentes serão encaminhados para o departamento de postura municipal, que aplicará multas.
De acordo com ele, a medida é necessária porque muitos cidadãos insistem em descartar entulho ou misturar recicláveis com orgânicos, mesmo após campanhas educativas. Entretanto, para surtir efeitos práticos, essas notificações e fiscalizações precisam ser massificadas, servindo como medidas coercitivas e pedagógicas.








