TJMG julga nesta quinta-feira recurso da Vale sobre o Sistema Pontal; atingidos garantem participação presencial

No destaque, instalação da segunda estrutura de contenção a jusante (ECJ2) para início da descaracterização do dique do Minervino e Cordão Nova Vista

Foto: Reprodução/
Videodelivery/Vale

Mineradora foi derrotada em primeira instância em 2024, quando sentença reconheceu danos causados a moradores dos bairros Bela Vista, Nova Vista, Jardim das Oliveiras e Praia. Caso arrasta desde 2022, quando o Ministério Público entrou com ação civil após ouvir relatos de impactos das obras de descaracterização

Nesta quinta-feira (7), às 13h30, a 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) julga o recurso da Vale S.A. contra a sentença que reconheceu os danos sofridos por moradores atingidos pelas obras de descaracterização do Sistema Pontal, em Itabira.

A decisão de primeira instância, proferida em setembro de 2024 pelo juiz André Luiz Alves, foi parcialmente favorável às comunidades dos bairros Bela Vista, Nova Vista, Jardim das Oliveiras e Praia, que convivem com os impactos das obras de descaracterização de diques e cordão na barragem do Pontal, em Itabira.

A Ação Civil Pública foi movida pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) em 22 de abril de 2022, após reuniões com moradores que relataram os problemas enfrentados desde a construção das estruturas de contenção a jusante (ECJ).

Muito antes da judicialização do caso, os moradores dos bairros Bela Vista, Nova Vista, Jardim das Oliveiras e Praia já viviam em clima de apreensão.

Foi quando se tornou público por este site a necessidade de remoção de moradores pela Vale, em 10 de fevereiro de 2021, quando o então secretário municipal de Meio Ambiente Denes Lott, informou em reunião no gabinete do prefeito Marco Antônio Lage, com ativistas do Comitê Popular dos Atingidos pela Mineração, que a construção da segunda estrutura de contenção a jusante (ECJ2) exigiria a saída de moradores de suas casas.

Desde então, essas comunidades passaram a viver em compasso de espera, enfrentando sucessivos impactos das obras de descaracterização e convivendo com a incerteza sobre o futuro.

A cada novo adiamento do processo judicial e a cada tentativa frustrada de acordo, os moradores seguem sem informações claras e precisas, enquanto continuam sofrendo com os efeitos diretos das intervenções da mineradora, que alteraram profundamente o cotidiano e a segurança da região.

Moradores dos bairros Bela Vista e Nova Vista relatam à promotora Giuliana Fonoff casos de violação de direitos pela Vale no Pontal (Foto: acervo Vila de Utopia)
Participação dos atingidos

A desembargadora relatora Áurea Brasil autorizou a presença de quatro representantes da Comissão de Atingidos do Sistema Pontal e seis da Assessoria Técnica Independente da Fundação Israel Pinheiro (ATI/FIP). A decisão garante que os atingidos acompanhem presencialmente o julgamento em Belo Horizonte.

Para Lilian Santos, coordenadora da ATI/FIP, a presença das comunidades é fundamental. Esse julgamento é um momento significativo para defesa dos direitos difusos e coletivos e a possibilidade de uma reparação integral. A participação informada das pessoas atingidas evidencia seu protagonismo, pois estarão atuando enquanto sujeitos de direitos. Por mais que seja um espaço em que os representantes estejam como expectadores, a presença deles possibilita a visibilização de que há pessoas por trás do levantamento de danos da Ação Civil Pública.”

Além da participação presencial, haverá transmissão restrita por link, permitindo acompanhamento à distância, informa a assessoria de imprensa da ATI/FIP.

Ombreira da barragem do Pontal, quando moradores e pescadores ainda tinham acesso ao local (Foto: Acervo Vila de Utopia)
Cronologia do processo

A Ação Civil do Sistema Pontal começou em 2022, quando o MPMG ajuizou a ação civil pública após ouvir moradores sobre os impactos das obras de descaracterização e construção das estruturas de contenção a jusante. Em 12 de setembro de 2024, o juiz André Luiz Alves proferiu sentença parcialmente favorável às comunidades, reconhecendo os danos e determinando reparação coletiva. Pouco depois, em 15 de outubro, a Vale apresentou recurso de apelação.

A tramitação no TJMG iniciou em fevereiro de 2025. No mês seguinte, o processo foi suspenso para tentativa de acordo via COMPOR, mas a mineradora recusou as condições propostas. E, 60 dias depois, o processo foi retomado. Em outubro de 2025, durante sessão da 5ª Câmara Cível, a relatora Áurea Brasil votou contra o recurso da Vale, mantendo a condenação. Os desembargadores Luís Carlos Gambogi e Fábio Torres, porém, pediram vista para nova tentativa de acordo, adiando a decisão.

Em fevereiro de 2026, foi realizada a primeira audiência de conciliação, mediada pelo TJMG. O Ministério Público condicionou a continuidade das tratativas à aceitação de dois pontos: maior participação popular e ampliação do número de pessoas removidas.

A Vale não cedeu, e o MPMG pediu a retomada do processo. Uma nova data foi marcada para 30 de abril de 2026, em formato virtual, mas a mineradora não aceitou o julgamento remoto. O processo foi então adiado para esta quinta-feira, 7 de maio de 2026, que agora acontece em sessão presencial.

Essa longa cronologia mostra como o processo se arrasta há quatro anos, marcado por idas e vindas, tentativas frustradas de acordo e resistência da mineradora em reconhecer plenamente os danos.

Para os atingidos, cada adiamento representa mais tempo convivendo com os impactos das obras, sem reparação efetiva.

O posicionamento da Vale

No recurso, a Vale sustenta que a sentença de primeira instância teria extrapolado os pedidos da ação civil pública, ao mencionar os desastres-crimes de Mariana e Brumadinho.

A empresa nega a existência de danos ambientais e afirma que já indenizou 17 famílias que considera atingidas. Também contesta a necessidade de uma Assessoria Técnica Independente, alegando que a Defensoria Pública já atua no território e que fornece informações suficientes sobre as obras.

A mineradora rejeita ainda a inversão do ônus da prova determinada pela sentença, afirmando que não cabe à empresa comprovar ausência de danos.

Para a defesa, a decisão judicial teria se baseado em “exercício de futurologia” ao prever danos futuros, não ocorridos até o momento.

Significado da decisão de primeira instância

Segundo Lilian Santos, da ATI/FIP, a sentença de primeira instância é um marco nesse entrevero que se arrasta há tanto tempo.

“O reconhecimento da responsabilização das mineradoras, em nível nacional, costuma ocorrer apenas em contextos de rompimento. As fases de descomissionamento e descaracterização geralmente não são tratadas como geradoras de danos às populações do entorno. Este caso mostra que os impactos existem e precisam ser reparados.”

O julgamento desta quinta-feira pode manter a condenação da Vale em segunda instância, assegurando reparação integral dos danos coletivos, difusos e ambientais causados pela descaracterização do Sistema Pontal.

 

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1 Comentário

  1. Parabéns Carlos Cruz por suas matérias tão importantes, informando e nos alertando principalmente sobre os problemas do Nosso Meio Ambiente, da nossa cidade e na verdade do mundo atual.
    Os problemas vividos pelos moradores dos bairros atingidos pela Descaracterização do Sistema Pontal são a realidade mais cruel que atualmente afeta a nossa cidade e muitos estão cegos, mudos e surdos.
    Temos tantos problemas que a maioria das pessoas ainda não sabem o que acontece com quem mora mais próximo desta Barragem. Só quem mora lá, sabe do que estou falando. Muitas casas com trincas, alguns foram removidos, mas ainda tem moradores que não conseguiram sair. Temos o mau cheiro “insuportável” de um Esgoto a céu aberto que é um empurra, empurra e ninguém resolve. Vale/SAAE/Prefeitura/Secretária de Meio Ambiente/Secretária de Obras, sei lá quem mais poderia fazer alguma coisa para resolver este problema e não fazem. Os moradores sofrem há anos com isto, se existisse um aparelho para medir o mau cheiro, com certeza lá seria o nível mais alto, ultrapassando os limites permitidos.
    Outro grave problema são os animais peçonhentos, cobra, escorpiões, aranhas, ratazanas, gambás, pernilongos, etc, fugindo deste esgoto e tentando se esconder nas casas e quintais próximos, um risco para todos os moradores, principalmente crianças e idosos. Infelizmente a luta é grande e os órgãos competentes não moram nestas ruas e nem passam perto. Os moradores estão cansados de tantos problemas e a Vale ainda nem começou a retirada do material desta barragem, onde o Codema sem nem estudar a situação destes moradores, sem ir lá ver o que está acontecendo dá o aval para este Projeto que vai prejudicar ainda mais os moradores.
    Até quando isto vai continuar?
    Será que estes moradores precisam passar por tantos problemas?

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