Revista Porto das Letras, da UFT, abre chamada de artigos para dossiê sobre Cornélio Penna
Busto ainda em cerâmica, de Genin Guerra, e o retrato inspirador de Cornélio Pena
Foto: Reprodução/ Genin/Carlos Cruz
Publicação inédita celebra o legado do escritor, que teve forte ligação com Itabira e aqui residiu
A Revista Porto das Letras, vinculada ao programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins (UFT), anuncia a chamada pública de artigos para o dossiê Cornélio Penna: Intérprete Impensado do Brasil, com prazo de inscrição e apresentação até 10 de junho de 2026 e publicação prevista para setembro deste ano.
Será a primeira vez que um periódico acadêmico organiza um número temático exclusivamente dedicado à obra de Cornélio Penna (1896–1958), gesto que marca um avanço na crítica literária brasileira.
E que abre espaço para novas leituras sobre um autor que, embora fundamental para compreender o modernismo pós-1930, ainda não recebeu a atenção proporcional à sua importância.
“O objetivo é reunir leituras renovadas sobre a produção literária, visual e biográfica de Cornélio Penna, celebrando seu legado como intérprete singular do Brasil”, afirma o coordenador da publicação do dossiê, Luiz Eduardo Andrade, que defendeu tese de doutorado sobre a obra desse itabirano por adoção e acolhimento.
Ele salienta que a iniciativa ocorre em um momento simbólico. “Em 2024 completaram-se 70 anos da publicação de A menina morta e em 2028 serão 70 anos da morte do autor, cuja obra vem sendo progressivamente relida, republicada e redescoberta por pesquisadores nas últimas décadas”.
O chamado público
O dossiê acolhe contribuições em português, espanhol e inglês, nos formatos de artigos, ensaios acadêmicos, resenhas de livros e entrevistas.
Entre as obras em foco estão Fronteira, Repouso, Dois romances de Nico Horta e A menina morta. Além de revisitar esses romances, o projeto incentiva pesquisas sobre o arquivo biográfico e a produção visual do autor.
Segundo Andrade, a leitura crítica de Cornélio Penna revela um autor incontornável para se pensar o modernismo brasileiro pós-1930.
“Seja pela atmosfera noturna e fantasmal de seus romances, seja pela abordagem de temas como a memória dos dispositivos coloniais, o trauma do patriarcado, a condição feminina, o fantasma da escravidão e o questionamento das formas literárias hegemônicas, sua obra se impõe como reflexão profunda sobre o país e sua literatura – muito além do ‘antiquário apaixonado’”, enfatiza.
A coordenação está a cargo de Luiz Eduardo Andrade (UFAL), em parceria com Simone Rossinetti Rufinoni (USP), Viviane Cristina Oliveira (UFT) e Júlio França (UERJ).
Cornélio Penna e Itabira, a “sua melhor amiga”
Cornélio Penna viveu em Itabira, na tradicional Casa da Ponte, residência de sua avó paterna. A cidade, que ele chamava de sua “melhor amiga”, exerceu influência decisiva em sua formação sensível e intelectual.
Essa experiência marcou sua escrita, caracterizada por atmosferas noturnas e introspectivas, que abordam temas como o trauma do patriarcado, a condição feminina, os fantasmas da escravidão e o questionamento das formas literárias hegemônicas.
Carlos Drummond de Andrade, amigo e conterrâneo de Cornélio, embora não tenham convivido em Itabira na mesma época, registrou em crônica publicada em 1959 que o escritor “nasceu, viveu e morreu interiormente em Itabira”.
Nessa crônica, Imagens da terra, Itabira e romance, republicada por este site, garimpada na Biblioteca Nacional (BN, Rio) pela colaboradora e pesquisadora Cristina Silveira, Drummond sugeriu que a cidade lhe dedicasse um jardim, como forma de reconhecimento e reparação simbólica.
Décadas depois, esse pedido foi finalmente atendido pelo prefeito Marco Antônio Lage (PSB), quando, em 2023, Itabira inaugurou um busto e um jardim na rua Major Paulo em homenagem ao escritor, reafirmando sua importância para a memória cultural local.
O conceito de Itabirismo
A homenagem a Cornélio Penna reforça o que se convencionou chamar de Itabirismo, que vem a ser a ideia de que Itabira, mais do que uma cidade, é um espaço simbólico de memória e de produção literária, capaz de projetar intérpretes singulares da vida nacional.
Se Drummond transformou Itabira em metáfora universal da condição humana, Cornélio fez da cidade sua “melhor amiga”, fonte de inspiração para uma obra marcada pela introspecção e pela crítica às estruturas sociais brasileiras.
O Itabirismo, nesse sentido, não é apenas a celebração de uma origem geográfica, mas a afirmação de uma identidade cultural que se renova ao reconhecer seus escritores como patrimônios vivos da cidade e do país.
É assim que, a inauguração do busto, de autoria de Genin Guerra, artista itabirano, e do jardim de Cornélio Penna, décadas após o pedido de Drummond, simboliza esse movimento de resgate e reafirmação.
Um intérprete impensado do Brasil
De acordo com Luiz Eduardo Andrade, a fortuna crítica de Cornélio Penna revela um autor que ultrapassa a imagem de “antiquário apaixonado”.
“Seus romances e ensaios se impõem como reflexão profunda sobre o país e sua literatura, explorando os traumas históricos e sociais que moldaram o Brasil.”
Ao lado de Drummond, Cornélio reforça o papel de Itabira como berço de grandes intérpretes da vida nacional, a partir da aldeia, da “Cidadezinha Qualquer” que assim se projeta para o mundo.
Com esse dossiê, pesquisadores e leitores terão a oportunidade de revisitar sua obra e reafirmar o lugar de Cornélio Penna na tradição literária brasileira, ao mesmo tempo em que Itabira se consolida como guardiã de sua memória e como espaço simbólico de resistência cultural.
Serviço
Prazos e informações importantes:
- Submissões até: 10 de junho de 2026
- Publicação prevista: setembro de 2026
- Idiomas aceitos: Português, Espanhol, Inglês
- Formato: artigo ou ensaio acadêmico (diretrizes disponíveis no site da revista)
- Link para submissão e mais informações: https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/portodasletras/announcement/view/469












