Proposta de mobilização em torno do ramal Itabira-Vespasiano da VLI não empolga; prioridade é duplicação de rodovia

Foto: Reprodução/
VLI

Projeto aparece apenas como intenção técnica nos relatórios da ANTT; prefeito e sindicalista desconhecem e defendem mobilização em torno da duplicação da MG-129/MG-434

A proposta de mobilização para viabilizar a construção de um ramal ferroviário Itabira-Vespasiano, cuja mobilização para a sua viabilização é defendida pelo presidente da Câmara, Carlos Henrique “Carlinhos Sacolão” Silva Filho (Solidariedae), de fato, seria “importante para desafogar o trânsito de cargas pesadas pela BR-381/262”, conforme acentuou o vereador.

Isso porque o novo trecho da VLI/FCA faria ligação com a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), tornando Itabira novamente um ponto estratégico, com a possibilidade de retorno do antigo porto seco, como já existiu no passado na Esplanada da Estação – desativado nos anos 1990 e transformado em condomínio residencial.

O presidente da Câmara, Carlinhos Sacolão, insiste na mobilização de Itabira em torno da reivindicação do trecho ferroviário Itabira-Vespasiano (Foto: Carlos Cruz)

Entretanto, antes de mobilizar a sociedade em torno dessa proposta, cabe ao vereador buscar mais informações junto à FCA/VLI, que é para verificar se existe realmente o projeto e quais são as chances de sua viabilização. Só com essa confirmação seria possível dar continuidade a uma mobilização social consistente em Itabira para que se torne realidade e não mais uma peça de ficção como tantas outras que já surgiram no passado.

É que, embora pareça excelente para a cidade, ao que tudo indica o projeto ainda não existe de fato. Aparece apenas como intenção técnica nos relatórios da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), sem previsão de recursos ou compromisso da União, da Vale ou da concessionária VLI/FCA.

Tanto o prefeito Marco Antônio Lage (PSB) quanto o sindicalista André Viana, conselheiro da Vale representando os trabalhadores, desconhecem o projeto e concordam que é preciso mobilizar forças em torno de reivindicações mais viáveis e necessárias.

A principal delas é a duplicação do trecho da rodovia estadual, que leva dois nomes, MG-129 e MG-434, mas é uma só, ligando a cidade de Itabira ao trevo da BR-381/262. Bastante deteriorada pelo tráfego intenso de veículos pesados a serviço da mineração, esse trecho precisa ser urgentemente melhorado e duplicado.

Daí a necessidade de cobrar da Vale aportes nessa obra, como já ocorreu no final da década de 1950, quando a mineradora, então estatal, financiou a pavimentação desse mesmo trecho.

Ceticismo e prioridades
Marco Antônio Lage disse desconhecer o projeto do trecho ferroviário e defende prioridade na duplicação da MG-129/434 (Foto: Carlos Cruz)

Em entrevista a este site, o prefeito Marco Antônio Lage disse desconhecer o projeto ferroviário. “Sobre esse projeto, eu nada posso falar, eu não o conheço. O projeto nunca chegou aqui, para o meu conhecimento. Nas minhas reuniões com o Ministério (dos Transportes), nunca foi tratado. Nas reuniões com a Vale, também nada. E não consta do programa Itabira Sustentável”, afirmou.

Segundo ele, o que se tem conversado e está acordado entre a Vale e o município, como resultado da renovação antecipada da concessão da EFVM, são as obras decorrentes da eliminação das passagens de nível e a transformação do trecho ferroviário desativado em parques lineares, com uma pequena via de passagem para automóveis e transporte público. “É o que temos acertado com a Vale”, assegurou.

O prefeito concorda que é preciso unir forças em torno dos projetos de Itabira, como no caso da duplicação da rodovia, além de outras iniciativas previstas no Itabira Sustentável, programa considerado estratégico para assegurar a sustentabilidade do município após a exaustão mineral, mas que ainda muito pouco saiu do campo das ideias.

Isso para que aconteçam e sejam viabilizados antes de 2053, prazo anunciado para a exaustão das minas de minério de ferro, conforme consta no relatório Form-20, documento anual registrado junto à U.S. Securities and Exchange Commission (SEC), em Nova Iorque, referente ao ano fiscal de 2025, publicado pela Vale em 26 de março deste ano.

André Viana desconhece o projeto e também vê outras prioridades (Foto: Carlos Cruz)

O presidente do Sindicato Metabase de Itabira e Região, e conselheiro da Vale, André Viana, também reforça a necessidade de mobilização, mas em torno de projetos viáveis para o curto e médio prazo.

Ele não vê como sendo viável o corredor ferroviário Itabira-Vespasiano, pelos custos elevados e pelas dificuldades ambientais para sua aprovação. “Se existe algo a respeito, está só no campo das intenções. Não sei de projeto, nem garantia de recursos”, afirma.

Para Viana, seria até um privilégio Itabira ter duas ferrovias, já que a cidade já conta com a EFVM, uma das mais antigas e eficientes do país em operação.

Entretanto, essa ferrovia atualmente é utilizada exclusivamente para transportar minério de ferro, diferentemente do que foi no passado, quando também transportava outras cargas.

O sindicalista lembrou ainda de sua tentativa frustrada de mobilizar a sociedade itabirana para discutir a renovação antecipada da concessão da EFVM, no final da década passada.

Na ocasião, como vereador, ele insistiu para que fosse realizada uma audiência pública em Itabira, mas não conseguiu.

“Era hora de reivindicar muitos projetos para Itabira. Infelizmente só conseguimos o que é comum a todas as cidades por onde a ferrovia passa, que é a eliminação das passagens de nível e pouca coisa a mais”, lamentou.

O que há sobre o novo trecho ferroviário

Nos relatórios da ANTT sobre a renovação da concessão antecipada da FCA/VLI aparece o Contorno Ferroviário de Belo Horizonte, que inclui Itabira, Santa Luzia e Vespasiano como alternativa técnica ao contorno da Serra do Tigre.

Mas isso, pelo que foi apurado, está apenas no plano de intenção, sem previsão de recursos nem definição de quem pagaria a obra. A VLI/FCA não assumiu o corredor como obrigação contratual.

A justificativa econômica seria aliviar a BR-381, reduzir custos logísticos e integrar o Médio Piracicaba à Região Metropolitana de Belo Horizonte e ao porto do Espírito Santo, via integração com a EFVM.

Mas isso depende de estudos de viabilidade e de articulação política, o que não parece, pelo menos até o momento, sensibilizar as autoridades itabiranas, pelas razões já expostas: não há projeto detalhado nem intenção clara de execução por parte de quem detém os recursos necessários.

Enquanto isso não acontece, é preciso de fato, e não de ficção, cobrar a restituição do antigo porto seco ferroviário, conforme existiu no passado, ampliado e com a EFVM abrindo espaço para o transporte de cargas diversas. Essa seria uma medida importante para reduzir o isolamento logístico da cidade e atrair indústrias, além de escoar outros produtos da região.

Enquanto isso não figura nem mesmo como intenção, o que Itabira precisa é unir forças e pressionar para que saia do papel a duplicação do trecho rodoviário ligando Itabira à BR-381/262.

Vale, União e Estado devem isso a Itabira, que há mais de 80 anos contribui positivamente para o superavit na balança comercial brasileira, enquanto a cidade segue em ritmo lento e gradual rumo à exaustão inexorável da mineração.

 

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