Café da Manhã – Maria Julieta em Buenos Aires
Maria Julieta, Carlos Manoel e o poeta, 1951
Fotos: Reprodução/ Acervo da Família/BN-Rio
Dinah Silveira de Queiroz
Tive ontem pequena conversa com meu caro amigo Carlos Drummond de Andrade. O poeta que mais impregnou a sua personalidade nas várias gerações da nova poesia, e que neste domingo deixou sobre meu espírito a surpreendente beleza de um seu poema sobre a Tarde de Maio* – como um grande poeta pode encantar, quando trata de tão conhecidos temas! A poesia sempre foi, mesmo, meramente a surpresa do comum, a renovação do trivial!… O poeta se acha impregnado de funda saudade.
Talvez o leitor já tenha sabido, se tiver lido Rubem Braga – Maria Julieta, a filha de Carlos Drummond de Andrade, casou e foi morar em Buenos Aires. Naturalmente, quem me lê conheceu a fina escritora Maria Julieta. Eu tive a oportunidade de conhecer também a jovem bandeirante, a toura e bela moça, que sempre admirei na normalidade sadia de sua vida, intelectual aos dezessete, como o foi, sem ser pedante, modelo de menina que pais e mães disputariam como uma filha ideal.

Por isso, bem sei como deve sentir vazia a casa do casal Drummond de Andrade.
Habitua-se alguém a viver para uma filha, em consumir preocupações por motivo de um filho. Casa o rapaz ou a filha. E nós ficamos com um mundo obstinado de ânsias sem direção. E hoje uma leitura, amanhã uma ideia que se quer compartilhar… é a fiscalização de quem já há muito deixou de ser criança, mas de quem continuamos a cuidar em todas as horas, ainda na ausência.
Maria Julieta escolheu seu marido e casou em dois meses. Muitos talvez achem que a moça andou depressa demais. Bem sabemos, no entanto, como pouco importa o tempo, quando temos de fazer grandes escolhas. Ou se encontra logo o amor, e se descobre logo o amigo, ou jamais poderemos amar alguém, ou pisar juntos naquele único terreno da amizade. Afinidades que se não explicam. Comigo, sempre foi assim: não conheço muito bem o truque: “cultivar uma amizade”, e não acredito no “cultivo” do amor. Isso, então, sempre me pareceu uma ingenuidade!

A casa do poeta está cheia da saudade da filha, porém Maria Julieta está radiante. Sua fala palpita de felicidade aos ouvidos dos pais ansiosos. Leva a moça ao país vizinho a sua embaixada importante. Temos tido, infelizmente, como artigo brasileiro de exportação, para a Argentina uma sofisticada mocidade que se empenha só em conhecer “boites” e em fazer compras, quando sai do Brasil. No circulo em que convive Maria Julieta, a escritora que sabe viver a sua idade, tendo tão encantadoramente vinte anos, quando tal profundeza mostra seu espirito, um retrato muito lisonjeiro da finura e da sensibilidade da moça brasileira está sendo formado.
E aí está o motivo de orgulho que deve disfarçar a saudade do poeta. Poucos tem mandado, como Carlos Drummond, para fora do Brasil uma poesia que deita raízes. – Um dia destes vi creio que na esplendida revista de novos – Cronos – uns versos tipicamente, graciosamente drummondianos de um jovem português! – Mas único é aquele que manda para o exterior sua grande alma numa preciosa filha única, como Maria Julieta.
[A Manhã, Rio, 15-11-1949. Biblioteca Nacional-Rio – Pesquisa: Cristina Silveira]
*Tarde de Maio
Carlos Drummond de Andrade
Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos
e uma e uma “disjecta membra” deixava ainda palpitantes
e, condenados, no solo ardente, porções de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidos em sua nobreza sem fruto.
Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai reduzindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que precisamente volve o rosto, e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio muitas vezes morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
mas já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a advertência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se foi um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.
Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
Não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas do barro e folha em que repousava. E resta
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.
[Correio da Manhã, Rio, domingo, 13-11-1949. BN-Rio]









