Mesmo com ajuda de São Pedro ao suspender a chuva na tarde de 7 de setembro em Itabira, ato cívico, religioso e político convocado pelo Conpai reuniu poucos fiéis no Areão
Fotos: Carlos Cruz
De como a instrumentalização da fé, dos signos e do imaginário apocalíptico, como estratégia recorrente do Conselho dos Pastores, é usada para mobilizar, moldar pensamentos e disputar simbolicamente a consciência de seus fiéis eleitores
Depois de clamarem ao céu, São Pedro resolveu dar uma ajudinha e suspendeu a chuva na tarde desta segunda-feira, 7 de setembro em Itabira. Mesmo assim, o ato cívico, religioso e político convocado pelo Conselho dos Pastores de Itabira (Conpai) reuniu poucos fiéis na praça do Areão.
Os pastores insistiram que o ato não seria político. Entretanto, por mais que neguem peremptoriamente, a política estava ali, explícita nos signos, nas cores, nos discursos e nos símbolos apropriados pela extrema direita.
A bandeira verde e amarela, convertida em estandarte exclusivo dos “patriotas”, assim como as palavras apocalípticas sobre “o demônio no Planalto”, passando pela convocação de “exércitos celestiais” para intervir na vida pública, compuseram um cenário em que a religião foi usada como linguagem política, ainda que seus organizadores tentassem negar.
Daí que não foi preciso citar nomes de candidatos à Presidência para definir o caráter político do evento e a opção eleitoral dos pastores e bispos congregados no Conpai. O próprio nome escolhido para o evento, “Uma Pátria aos Pés da Cruz”, já revela sua intenção.
Os signos e significantes bastam, como se observou por volta das 16h30, quando seis pastores se revezaram em discursos de tom apocalíptico, clamando por intervenção divina para “expulsar os demônios do Palácio do Planalto”, “afastar a corrupção do Brasil” e “derrubar o trono de Satanás na nossa nação”. Pediram ainda que “os exércitos celestiais intercedam por nós, que mobilizem suas legiões em favor de nosso país”.
O pequeno número de fiéis presentes na praça do Areão foi atribuído pelo presidente do Conpai, bispo Ricardo Eduardo Duarte, ao tempo chuvoso que, por certo como “obra divina”, cessou pouco antes do horário do ato. Depois, a pregação teve continuidade, com o mesmo tom apocalíptico de guerra espiritual, no templo da igreja Halleluyah, na avenida Mauro Ribeiro.
Quando os signos revelam o que o discurso tenta ocultar

A semiótica, que consiste no estudo dos signos e dos significados, permite compreender por que o ato foi político mesmo quando seus organizadores negam esse caráter. Os signos comunicam aquilo que as palavras tentam esconder. E no Areão, eles estavam por toda parte, nos discursos e nas vestimentas.
A bandeira verde e amarela, por exemplo, deixou de ser símbolo nacional para se tornar signo de pertencimento ideológico. Apropriada pela extrema direita desde 2018, ela funciona como marcador identitário. Assim, quem a empunha se declara parte de um projeto político específico, ainda que não o verbalize – e nem precisa, seu significado já não é mais oculto.
O nome dado ao evento, “Uma Pátria aos Pés da Cruz”, é outro signo carregado de intenção. Ele subordina a nação à religião, dissolvendo a fronteira entre Estado e fé. A cruz, símbolo religioso, é deslocada para o campo político, convertida em instrumento de legitimação de um projeto de poder.
A “pátria” aos “pés” da cruz não é metáfora inocente e deve ser interpretada como a afirmação de que o destino político do país deve ser guiado por uma autoridade espiritual, esquecendo-se que o Estado brasileiro é laico, como está na Constituição. E, mais especificamente, deve ser guiado por uma interpretação evangélica conservadora.
Os discursos reforçaram esse sistema simbólico. Termos como “demônios do Palácio”, metáfora que, aliás, já foi usada recentemente pelo vice-prefeito de Itabira, ele também pastor e candidato a deputado, ao se referir às políticas municipais do prefeito Marco Antônio Lage, filiado ao PSB de esquerda, assim como as designações “trono de Satanás” e “exércitos celestiais”, transformam adversários políticos em entidades malignas.
É a construção de um inimigo absoluto, não apenas político, mas moral e metafísico. Essa operação simbólica incorpora a figura do Mefistófeles, o espírito da destruição e da tentação, presente tanto no Fausto, de Goethe, quanto nas narrativas do Antigo Testamento.
Ao evocar esse imaginário, os pastores deslocam a disputa política para o terreno da batalha cósmica, onde o adversário não é um projeto de governo, mas uma força demoníaca que ameaça a ordem divina.
Desse modo, a política deixa de ser debate e passa a ser exorcismo, com o voto como meio de purificação para extirpar o mal, representado pelo adversário convertido em agente do Demônio aqui na Terra, em contraponto ao Deus que está no céu.
Até a estética dos vestuários, mãos erguidas para o céu e o tom apocalíptico, funciona como linguagem simbólica. O branco, signo de pureza, o verde e o amarelo, identifica o grupo como representante do “bem”, enquanto o adversário é associado ao “mal”, vestido de vermelho, que não representa o coração ou o sangue que corre nas veias, mas o mal, a cor do inferno.
Desse modo não casual, mas bem pensado e trabalhado, a oração pública, que deveria ser signo de devoção, é deslocada para o espaço cívico, transformando a praça do Areão em templo e manifestação política, por mais que neguem esse caráter.
Assim, mesmo sem mencionar candidatos, o ato comunica um projeto político claro – e que todos, tanto os presentes como os ausentes, os crentes e os não crentes, sabem bem qual é.
Um ritual político que se repete em Itabira

O que se viu no Areão não é novidade. Trata-se de um ritual que se repete há anos em Itabira, sempre sob a coordenação do Conpai, com a instrumentalização da fé popular para fins políticos, a fabricação de inimigos imaginários e a convocação de batalhas espirituais como forma de disciplinar fiéis e ocupar o espaço público com pautas moralizantes.
Para muitos coleguinhas da imprensa itabirana, o ato no Areão está sendo descrito como mais uma tentativa de reativar a mobilização neopentecostal que reúne fiéis, crédulos e seguidores das pregações políticas e religiosas de seus pastores.
Alguns veículos, inclusive, aceitaram acriticamente a narrativa de que se tratava de um mero ato cívico religioso. Não foi só isso. Foi também uma clara manifestação política, com objetivos eleitorais evidentes, ainda que negados pelos seus organizadores.
E revive, sem disfarces, o mesmo movimento messiânico neopentecostal da campanha eleitoral de 2018.
Naquele ano, a “Marcha da Inocência”, que reuniu pastores, vereadores, deputados e fiéis, já utilizava o mesmo repertório simbólico, como a defesa da “família tradicional”, o bordão “menino é menino, menina é menina”, combate ao “mal”, demonização de adversários e convocação de guerra espiritual. Era a mesma lógica maniqueísta que agora retorna ao 7 de Setembro, com os mesmos atores e o mesmo script.
Ainda bem que houve contraponto em 2018, mesmo com a vitória bolsonarista nas urnas daquele ano. No mesmo dia da “Marcha da Inocência”, o coletivo Mulheres Itabiranas Unidas contra Bolsonaro promoveu passeata em defesa da democracia, denunciando autoritarismo e violência política.
Esse coletivo, infelizmente, ainda não se manifestou nesta campanha eleitoral, mas há tempo para que se faça ouvir novamente, como contraponto necessário a essas manifestações maniqueístas, demonizantes e apocalípticas que tentam transformar a disputa política em batalha entre o bem e o mal.
São os mesmos negacionistas que se fizeram presentes durante a pandemia, quando pastores conservadores difundiram negacionismo e promessas de cura milagrosa, agravando a crise sanitária.
Foram vistos em farmácias adquirindo remédios placebos receitados pelo então presidente contra a Covid-19 e distribuindo como panaceia entre seus fiéis, mesmo sabendo não haver eficácia comprovada. Era a mesma lógica simbólica de transformar ciência em ameaça e a fé como solução, assim como os placebos.
Em 2024, o desfile cívico oficial dos pastores repetiu o ritual da “Marcha pela Família e pelo Brasil”, com palavras de ordem dos anos 1960, como “Deus, Família, Brasil”. Já como contraponto, naquele ano a igreja Católica promoveu a “Marcha dos Excluídos”, alinhada à Teologia da Libertação, evidenciando a disputa entre duas teologias antagônicas, ainda que em torno do mesmo Deus cristão, a da Libertação e a do Domínio.
A extrema direita volta a ocupar o feriado da Independência
Agora, em 2026, a extrema direita nacional volta a promover atos no 7 de Setembro, apresentando o feriado como “última chance de salvar o Brasil”.
A narrativa em Itabira, repetindo o que se passa no país, é a mesma. Pelo discurso do medo, afirmam que o país estaria à beira da destruição moral, supostamente ameaçado pelo Mefisto – olha aí a metáfora de novo – usado para representar a esquerda liderada por Lula. E que somente uma mobilização religiosa e patriótica poderia impedir o avanço do mal.
Essa convocação nacional reforça que o ato dos pastores em Itabira não é isolado, mas parte de uma estratégia articulada para ocupar o 7 de Setembro com símbolos religiosos, nacionalistas e messiânicos.
E com fins políticos e eleitorais claros: derrotar Lula nas urnas de outubro e novembro.
O ato no Areão se insere nesse mesmo contexto. E mostra que, em Itabira, a extrema direita religiosa está organizada e forte, com a prestimosa ajuda de Deus, com certeza.
Diz defender a fé enquanto instrumentaliza símbolos, fala em salvação divina mesmo rezando para pneus, como se viu entre seguidores nos atos golpistas ocorridos em Brasília. É a mesma lógica espiritual, messiânica, apocalíptica.
São Pedro atendeu aos clamores e cessou a chuva na tarde de segunda-feira, 7 de setembro, na praça do Areão. Mas não cessou a velha e conhecida estratégia de manipulação da fé para fins eleitorais como parte de projeto de poder “celestial” aqui na Terra. Que assim não seja. Amém!
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