Com estética militarizada e discurso misógino, os Legendários fazem demonstração de força viril em Itabira

Foto: Heitor Bragança/
Reprodução

Grupo religioso masculino avança sobre cidades do interior em meio à polarização política nacional, reforçando pautas conservadoras e reacionárias

A praça Acrísio de Alvarenga, no centro de Itabira, foi ocupada neste sábado (13) por homens uniformizados de laranja, entoando palavras de ordem e exibindo a disciplina rígida que caracteriza o movimento “religioso” conhecido como Legendários.

A cena registrada em vídeo por Heitor Bragança foi marcada por gestos de virilidade e exaltação da chamada “masculinidade cristã”, inserindo Itabira na rota da interiorização de um grupo que já se espalha por dezenas de cidades brasileiras – e que vem sendo criticado por reforçar pautas conservadoras em meio à polarização política nacional.

“A missão desses valorosos é devolver o herói e o caçador a cada lar: homens inquebráveis diante do pecado, mas quebrantados diante de Deus. Essa é a declaração que os define e que tem acendido uma revolução de caráter, fé e restauração em milhares de vidas. Que Deus os abençoe!”, registrou e exaltou Heitor Bragança.

A programação do grupo na cidade de Drummond não foi divulgada, de modo que não se sabe por onde mais circularam ou quais atividades realizaram além da demonstração pública na praça Acrísio.

Fica, portanto, a imagem simbólica de uma força viril exibida em praça pública, buscando promover uma espiritualidade restrita aos homens, além de afirmar uma presença política e cultural marcada pela exclusão e pela tentativa de divulgar uma visão autoritária de gênero e sociedade.

O que defendem e como atuam

Fundado na Guatemala em 2015 e trazido ao Brasil em 2023, o movimento já alcança 13 países e cerca de 70 cidades brasileiras. Minas Gerais, estado historicamente conservador, tem sido alvo de forte expansão, com eventos recentes em Uberaba e Campo Belo, além da chegada a Itabira, certamente encontrando simpatizantes e adeptos entre os “homens de ferro” da direita local.

Os Legendários defendem valores como “família tradicional”, “pátria cristã” e “liderança masculina”, sempre em atividades restritas a homens.

Suas expedições, chamadas de “tracks”, geralmente têm duração de quatro dias e combinam provas físicas de resistência com atividades espirituais e momentos de oração.

Em outras cidades brasileiras, os pacotes de participação variam de valores básicos em torno de R$ 1.500, como no “TOP Warriors 1011”, voltado para jovens solteiros, até versões de luxo que ultrapassam R$ 80 mil, como o “TOP Pantanal” e o “TOP Rio de Janeiro”. Esses valores reforçam o caráter elitizado e comercial do movimento, transformando a experiência religiosa em produto de mercado.

Reconhecimento e riscos democráticos

Apesar de se apresentarem como “apolíticos”, o grupo já conquistou espaço em Câmaras Municipais de diferentes cidades brasileiras.

Em municípios como Campo Belo (MG) e Uberaba (MG), além de localidades em outros estados, vereadores aprovaram leis reconhecendo os Legendários como de utilidade pública ou instituindo datas comemorativas oficiais. É assim que, em várias regiões, o grupo tem buscado legitimação institucional e obtido apoio político.

Em Itabira, caso haja tentativa semelhante, espera-se que a maioria dos vereadores rejeite a proposta, preservando a autonomia cultural e democrática da cidade.

Excludentes por natureza, os Legendários evitam pautas sociais como desigualdade, racismo e violência de gênero, preferindo reforçar uma masculinidade rígida e hierárquica. A estética militarizada, os uniformes e a retórica nacionalista evocam traços autoritários que alguns analistas classificam como neofascistas – e lembram também a estética da TFP (Tradição, Família e Propriedade), fundada em 1960 por Plinio Corrêa de Oliveira.

A TFP foi um movimento católico ultraconservador que se destacou pela disciplina rígida, pelo uso de símbolos religiosos e nacionalistas e pela defesa da “família tradicional” e da “ordem cristã”.

Teve papel ativo na mobilização social que apoiou o golpe militar de 1º de abril de 1964, de triste lembrança, com o diferencial de ter contado com significativa participação de mulheres conservadoras, que reforçaram a base de sustentação do movimento e se tornaram protagonistas na defesa da ordem autoritária, sempre em nome da defesa da família e dos valores morais cristãos conservadores.

Já os Legendários restringem sua atuação exclusivamente aos homens, acentuando o caráter excludente e misógino de sua proposta. Mas essa comparação serve para evidenciar como ambos os grupos se apoiam em uma estética autoritária e em valores hierárquicos, mas também como os Legendários radicalizam a exclusão de gênero ao negar qualquer protagonismo feminino.

Polarização e disputa pelo espaço público

A presença dos Legendários em Itabira deve ser interpretada não apenas como um ato religioso, mas também político e cultural.

Representa a disputa pelo espaço público e pela narrativa sobre identidade e valores, em um momento em que movimentos progressistas defendem diversidade e democracia, enquanto forças reacionárias buscam legitimação política, social e religiosa.

É assim que a chegada do grupo à cidade de Drummond simboliza a ofensiva da direita religiosa sobre o interior do país – e que já encontra campo fértil em Itabira, com o crescente movimento da direita na cidade neste ano de eleições majoritárias e proporcionais.

Sob o manto da fé, em nome da força viril e do protagonismo masculino, e em oposição à emancipação feminina, os Legendários reforçam hierarquias e exclusões, representando uma reação conservadora diante dos movimentos progressistas e democráticos.

A história, no entanto, ensina que aqueles que tentam negar a diversidade e a igualdade acabam sendo, cedo ou tarde, superados por elas. É que a força transformadora da democracia e da pluralidade “atropela, indiferente, todos aqueles que a negam”, deixando para trás os que insistem em sustentar estruturas autoritárias e excludentes.

O avanço dos Legendários pelo interior mineiro e por outras regiões do país pode ser visto como  “o ovo da serpente“, uma metáfora usada no filme de Ingmar Bergman para denunciar o surgimento do nazismo inicialmente pequeno e aparentemente inofensivo, mas contendo dentro de si algo perigoso e mortal, se espalhando como um fenômeno aparentemente restrito, mas que carrega dentro de si o germe de práticas autoritárias capazes de ameaçar a própria democracia.

O Brasil já vivenciou recentemente uma frustrada tentativa de golpe contra o Estado Democrático de Direito. Ignorar sinais como esses é correr o risco de permitir que a serpente rompa sua casca e se torne uma ameaça real à sociedade que, ainda que lentamente, avança na consolidação de direitos de última geração e na ampliação das pautas de diversidade e igualdade.

Cabe à sociedade reconhecer os sinais e agir antes que seja tarde.

Fontes consultadas: Estado de Minas (2024), O Globo (2024), Heitor Bragança, site oficial dos Legendários.

 

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *