Itabira prepara programação especial que culmina no Dia Nacional da Luta Antimanicomial, em 18 de maio

No destaque, pacientes no pátio do hospital Colônia, em Barbacena

Foto: Luiz Alfredo/
O Cruzeiro

Bazar, oficinas, saraus e seminários marcam o mês e se somam à implantação do Centro de Convivência em Nossa Senhora do Carmo, reforçando o cuidado em liberdade, além de participação na caminhada estadual em Belo Horizonte

Itabira se mobiliza para o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado anualmente em 18 de maio, com uma programação que reforça o cuidado em liberdade e amplia o debate sobre saúde mental.

Itabira se mobiliza para o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio, com uma programação organizada pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Saúde e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), reforçando o cuidado em liberdade, ampliando o debate sobre saúde mental.

O tema deste ano é Somos diferentes, somos muitos, mas todos cabem no mundo.

As atividades começam nesta terça-feira (5), com o Bazar de Economia Solidária, no Centro de Convivência InteraGir. Na quarta-feira (6) a programação inclui a Terapia Comunitária Integrativa, que acontece no Centro Cultural da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA). No dia 12, o espaço recebe a Biodança.

No dia 18, uma segunda-feira, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, Itabira participa da tradicional caminhada em Belo Horizonte. No dia 19, acontece a Tenda do Conto, e no dia 22, o Sarau Poético – Arte e Saúde Mental, na praça Acrísio de Alvarenga.

Debates

Divulgação

A programação inclui ainda dois seminários. No dia 26, no Parque Municipal Natural do Intelecto, será realizado o encontro Estratégias de Cuidado na Atenção Psicossocial, com debates sobre redução de danos, leitos em hospital geral e manejo de crise.

No dia 28, o tema a ser desenvolvido, no mesmo local, tratará do Cuidado em Liberdade, Racismo e Território na RAPS discute saúde mental antirracista, vulnerabilidade social e atenção a crianças e adolescentes.

“A luta antimanicomial nos lembra que toda pessoa merece ser cuidada com escuta, liberdade e acolhimento. Saúde mental se constrói com vínculos e participação na vida em comunidade”, afirma a gerente do Núcleo de Saúde Mental, Jacira Helena Silva.

Ações permanentes

Além da programação de maio, Itabira mantém ações permanentes, como fóruns intersetoriais entre Saúde, Educação, Assistência Social e Justiça, capacitações profissionais, fortalecimento das equipes. Está prevista a implantação do Centro de Convivência em Nossa Senhora do Carmo e a criação do grupo de caminhada Passos que InterAgem.

Os números revelam a dimensão desse trabalho. O CAPS AD, com 892 usuários cadastrados entre janeiro de 2025 e abril de 2026, mostra a importância da atenção às pessoas em situação de dependência química.

O CAPSi, que atende em média 840 crianças e adolescentes, evidencia o cuidado precoce e comunitário.

Já o CAPS II, com cerca de cinco mil procedimentos realizados apenas nos primeiros quatro meses de 2026, confirma a intensidade da demanda e a capacidade de resposta do serviço.

O Centro de Convivência Interagir, com 200 participantes mensais, traduz em convivência e cultura o princípio do cuidado em liberdade.

A luta antimanicomial no país e o fim dos hospitais psiquiátricos
Internos do hospital Colônia, em Barbacena: um passado de triste lembrança que, espera-se, não volte nunca mais (Foto: Luiz Alfredo/ revista O Cruzeiro)

O movimento antimanicomial surgiu no Brasil no fim dos anos 1970, inspirado pela experiência italiana liderada por Franco Basaglia, que defendeu o fechamento dos manicômios.

Em 1987, trabalhadores da saúde mental reunidos em Bauru (SP) instituíram o 18 de maio como Dia Nacional da Luta Antimanicomial. A mobilização denunciou práticas violentas de internação compulsória e defendeu o tratamento em serviços comunitários.

A luta resultou na aprovação da Lei 10.216/2001, conhecida como Lei Paulo Delgado, que redirecionou o modelo de atenção à saúde mental, restringindo internações e fortalecendo a rede substitutiva.

Hospital Colônia, o hospício que impulsionou a luta antimanicomial

O Hospital Colônia de Barbacena, fundado em 1903, tornou-se símbolo da exclusão e da violência contra pessoas em sofrimento mental.

Durante décadas, foi destino de milhares de pessoas internadas sem diagnóstico psiquiátrico, muitas delas enviadas por famílias pobres, instituições e até autoridades locais, que viam no hospício uma forma de retirar da sociedade aqueles que eram considerados “indesejados”.

Superlotado, o hospital abrigou internos submetidos à fome, maus-tratos e abandono. Estima-se que mais de 60 mil pessoas morreram em condições degradantes, sem acesso a cuidados básicos, em um episódio que ficou registrado na memória nacional como o “Holocausto Brasileiro”.

A tragédia de Barbacena tornou-se um capítulo sombrio da história da saúde mental no Brasil, impulsionando pelo mau exemplo a luta antimanicomial, ao expor a crueldade dos manicômios e a necessidade de construir uma rede de atenção psicossocial baseada no cuidado em liberdade.

A memória do Hospital Colônia é assim um alerta permanente. Ela ganha ainda mais relevância em momentos em que setores conservadores levantam a possibilidade de retorno dos hospitais psiquiátricos no país.

É justamente contra essa reação conservadora que a luta antimanicomial existe – e segue permanente, para que nunca mais se repitam práticas de segregação e desumanização que marcaram os antigos hospícios.

Itabira é pioneira na implantação dos CAPS em Minas

Itabira foi uma das primeiras cidades mineiras a implantar os Centros de Atenção Psicossocial, tornando-se referência estadual na construção de uma rede substitutiva ao modelo manicomial.

A sua implantação ocorreu na administração do então prefeito Luiz Menezes (1989-1992, quando foi estruturado o CAPS Adulto. Posteriormente, foram instalados o CAPSi, CAPS AD e o Centro de Convivência InterAgir.

Com o tempo, consolidou uma rede multiprofissional que hoje integra saúde, assistência social, educação e justiça.

Foi assim que com o passar dos anos, Itabira se firmou como protagonista na luta antimanicomial em Minas Gerais, fortalecendo vínculos comunitários e garantindo que o sofrimento mental seja tratado com dignidade e cidadania.

Neste ano, Itabira reafirma seu papel histórico na luta antimanicomial, celebrando maio como um mês de resistência, memória e cuidado em liberdade, com ações que unem cultura, saúde e cidadania.

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