Drummond acerta ao não retornar a Itabira para não sofrer as mesmas retaliações vividas pelo escritor de O Cidadão Ilustre

Fotos: Altamir Barros/
Divulgação/Fotomontagem

Na ficção, Daniel Mantovani enfrenta hostilidade em Salas, sua cidade natal; na realidade, Drummond se protegeu ao manter distância de Itabira

Carlos Cruz

Acabei de assistir ao premiado filme argentino O Cidadão Ilustre e não tive como evitar a comparação: será que Carlos Drummond de Andrade enfrentaria a mesma animosidade em Itabira, caso tivesse retornado à sua cidade natal?

No longa dirigido por Gastón Duprat e Mariano Cohn, o escritor fictício Daniel Mantovani, interpretado pelo ótimo Oscar Martínez, é reconhecido internacionalmente por ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura.

Após décadas vivendo na Europa, ele decide aceitar um convite para visitar Salas, a pequena cidade argentina onde nasceu, também fictícia, mas construída com traços muito reais.

O que se segue é um retrato ácido e inquietante da relação entre o artista e sua comunidade de origem, quando ressentimentos, incompreensões, ciúmes e hostilidades emergem à medida que os habitantes de Salas se veem retratados e ironizados pela obra do escritor.

Foi impossível não pensar em Drummond, caso aceitasse os inúmeros e persistentes convites para que retornasse à sua cidade natal.

O poeta itabirano, um dos maiores nomes da literatura brasileira, também deixou sua cidade natal cedo e poucas vezes retornou, mesmo assim antes de se tornar o poeta-maior, reconhecido no país e no exterior.

Teria ele evitado, com essa decisão, o mesmo tipo de retaliação que Mantovani enfrenta na ficção?

A animosidade contra o escritor fictício e o poeta real

No filme, o retorno de Daniel Mantovani a Salas começa em clima de celebração. O escritor é recebido com festas, homenagens e honrarias, tratado como um herói que finalmente regressa à sua terra natal.

A cordialidade, porém, não tarda a se desfazer. Um dos episódios mais emblemáticos é o confronto com um artista plástico local, que se sente desprestigiado ao ver sua obra ignorada.

Mantovani, convidado a presidir o júri de uma exposição de artes plásticas da cidade, escolhe premiar uma pintura de estilo mais naïf. A decisão desperta a ira do artista rejeitado e expõe, de forma contundente, a fragilidade das relações entre o criador consagrado e a provinciana cidade natal.

O clima de hostilidade cresce até culminar em um atentado. Foi quando um dos personagens, por vingança ciumenta, dispara contra o escritor, revelando o quanto o retorno à cidade natal pode se transformar em uma experiência amarga, de risco e violência.

Ficção e realidade

À semelhança da ficção argentina, durante décadas, parte da população itabirana manteve uma relação ambígua com Drummond. Seus versos críticos foram interpretados como ataques pessoais e contra a cidade.

O famoso poema Confidência do Itabirano, culminando com o verso “Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”, foi recebido com rancor por parte da população itabirana, que confundiu metáfora com desdém.

Outros poemas, como Cidadezinha qualquer (“Eta vida besta, meu Deus”), ou a figura caricatural do “contumaz comedor de galinhas”, reforçaram a percepção de que o poeta expunha a monotonia e os vícios de sua provinciana Itabira do Mato Dentro.

Suas críticas à mineração da Vale acentuaram ainda mais a animosidade entre os áulicos da empresa e os setores conservadores da cidade.

A reconciliação nos anos 1980

Foi somente a partir do início da década de 1980 que a obra de Drummond começou a ser melhor compreendida em sua terra natal.

Isso aconteceu com o lançamento do jornal O Cometa Itabirano, que manteve uma relação carinhosa e colaborativa com o poeta – e também graças ao trabalho educativo de professoras da antiga Faculdade de Ciências e Letras de Itabira, que abriram caminho para uma leitura mais madura de seus poemas.

Aos poucos, o ranço provinciano diminuiu, embora ainda subsista em alguns segmentos conservadores.

Dessa forma, mesmo com essa “reconciliação” em vida, o melhor que Drummond fez foi não retornar à sua cidade natal.

Desse modo, ele preservou sua integridade física e psíquica, mantendo viva, em sua memória, apenas a fotografia na parede.

Essa comparação entre o escritor fictício Daniel Mantovani e Carlos Drummond de Andrade evidencia uma verdade incômoda: o retorno à cidade natal pode ser mais doloroso do que glorioso.

Isso, especialmente quando a obra do escritor expõe verdades que a cidade natal preferiria não ver.

Serviço

O Cidadão Ilustre está disponível na HBO Max, na Amazon Prime Video e também pode ser comprado ou alugado na Apple TV Store. Mesmo com o spoiler revelado acima, a obra continua valendo cada minuto de atenção, pela força de sua narrativa e pela pertinência das questões que levanta.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *