Carlos Drummond – há 102 anos –  

Cosmococa. Na madrugada de 13-3-1973, o artista Hélio Oiticica estava em seu loft no centro de Nova York, no alto da cocaína, com seu amigo, o cineasta e conterrâneo brasileiro Neville D’Almeida. Ele buscou a coisa mais próxima à mão para cortar outra linha – Weasels Ripped My Flesh, um LP de Frank Zappa e as the Mothers of Invention – e, enquanto usava a droga, o artista notou como as manchas de pó borrifavam na ilustração de um homem com o rosto lacerado. Essa interrupção transgressora do que já era uma imagem violenta atraiu a dupla, que acertou na ideia de usar a droga como “tinta” para desfigurar as imagens de uma série de ícones da cultura pop.

Fonte: DASartes

|Carlos Drummond foi a assinatura literária usual do poeta entre 1921 e 1928, no Diário de Minas e em outros periódicos onde colaborou com certa assiduidade em Para Todos… e Ilustração Brasileira. Em Pra Todos, (20-12-1924), publicou a crônica “Cocaína, e um cavalheiro que a tomava”. Fernando Py |

Cocaína, e um cavalheiro que a tomava

Carlos Drummond

(Nesta página, o leitor verá que a abstinência nem sempre é virtude, e que o vício é, muitas vezes, imbecilidade).

Ele então, baixando um pouco a voz, confessou-me que tomava cocaína. Muito. De três a quatro gramas por dia. Que era um vício antigo, uma paixão, a sua única paixão, aliás. Tinha 29 anos, era bacharel  e solteiro. O pai quisera casa-lo com a filha do cunhado de um primo de um vizinho, mas ele se opusera valentemente.

Não amava ninguém. As mulheres não lhe pareciam dignas de atenção. Sabia até uma frase de Schopenhauer, lida em “Forjaz de Sampaio…”. Queria ser livre – livre como os pássaros. E tomara cocaína que era um horror.

– O senhor compreende… A gente precisa consolar-se de haver nascido. Eu sou pessimista. Ah! Comigo é ali: pessimista negro. Este mundo não presta, o senhor sabe disso. Eu também sei, e por isso cheiro a minha cocainazinha. E olhe que sou feliz, porque a cocaína é consoladora.

Ficou algum tempo fungando. Só então percebi que ele usava bigodes e bengala com castão de ouro. Quis fugir. Era tarde.

– É consoladora. E depois, é proibida, quero dizer, duas vezes apetecível. A cocaína é um vício chic, sim senhor, um vício elegantíssimo. Pois então o senhor não sabe que no Rio…? Sabe, sim, ora essa, tenho certeza que sabe. Dá gosto comprar um vidrinho de coca. Mas, um vidrinho só é muito pouco. Eu, por exemplo, tenho dois, aqui. O meu caro amigo não aceita um?

– Muito obrigado,

– Não faça cerimonias. Aceite, que lhe ofereço com satisfação. Eu não sou desses viciados egoístas, que não prendem os outros porque não podem. O senhor também gosta dos cristais, estou vendo. Aceite um vidrinho.

– Muito obrigado. Não tenho o hábito.

– Impossível! Ou quem sabe se o senhor gosta é de morfina?

– Também não.

– Ópio?

– Também não.

– Éter?

– Ainda não.

– Ah! Ah! Ah! Tem graça, tem muita graça! Um cavalheiro de boas maneiras, civilizado, honesto, que não toma cocaína, nem morfina, nem ópio, nem éter! Ora conte isso a outra pessoa… A mim, não acredito. Ora, o senhor! O senhor, que é literato, eu sei, e literato dos mais distintos…

– É exagero seu.

– Dos mais distintos, pois não, eu estou informado, eu vejo nos jornais. O senhor, que escreve versos modernos! Ora essa! Não toma cocaína! Isso é lá possível?

– Afirmo-lhe que é verdade.

– E não é que insiste? É boa! Como se eu fosse tolo. Ora, cavalheiro, a pilheria, quando repetida, já não tem graça. Vai fazer-me a fineza de tomar uma pitadinha. Uma pitadinha só.

– Agradeço-lhe ainda uma vez, mas não aceito. Eu não sentiria nenhuma sensação agradável, pois não tenho o costume.

– Não faltava mais! A primeira vez, concordo, o amigo não sentirá grande coisa. Mas há de acostumar-se, homem de Deus, e verá o que é bom. O que é bom, não, o que é divino. Porque esse pó é divino.

– Acredito que o seja, mas não desejo experimentá-lo. O meu amigo diz que a cocaína é consoladora. Eu também suponho tal coisa, mas acontece que nunca senti necessidade de ser consolado e, portanto…

– Quer dizer que é feliz?

– Não digo tanto. Pelo contrário, sou tão feliz como os outros, isto é, não o sou de modo algum. A vida é má, eu a julgo péssima, e divirto-me com ela.

Cosmococa 5 Hendrix War (1973), de Hélio Oiticica (1937-1980), do Rio

– Esquisito! Palavra que não compreendi. Então, o senhor também é pessimista?

– Nem pessimista nem otimista. Eu vivo, compreende o senhor? e para isso, que é um exercício tão fácil, não preciso recorrer aos tóxicos. Penso mesmo que se recorresse, complicaria a situação sem nenhuma vantagem. Os tóxicos não adiantariam ao meu caso. Eles consolam, diz-me o senhor. Mas consolam aos que precisam ser consolados… Consolam como os mitos e as fantasias religiosas consolam aos crentes. Cada um cultiva como pode a sua ferida. Os mais simples procuram eliminá-lo de uma vez, e recorrem ao suicídio. Já o amigo pede consolo aos paliativos. Eu por minha vez, encaro com resignação a minha parte de sofrimento. Chego mesmo a divertir-me com ela, palavra! E para que havia de tomar cocaína? Uma sensação deliciosa, talvez… Mas, se justamente eu fujo de todas as sensações fortes, e procuro evitar a alegria e a dor como dois estados perigosos, e dissolver-me na misericórdia! Só na mediocridade me será fácil contemplar a amargura universal sem horror nem volúpia. Porque eu me divirto, como já lhe disse, mas sem perversidade: como alguém que observa um desenho de nuvens… Já vê que, se não tomo cocaína, está longe de ser devido a razões de moral, e é antes até por uma razão imoral.

– O amigo é muito fino! Mas, estas coisas não adiantam. Vamos, recusa ainda uma vez o meu oferecimento?

– Recuso com pesar.

– Adeus; já vejo que não quer mesmo. É porque o senhor não sabe! É porque o senhor não sabe!

E talvez, ele tenha razão, talvez eu não saiba mesmo. Enquanto isso, todo mundo acha que sou um viciado terrível, e ele, o cavalheiro de bigodes e bengala com castão de ouro, o mais puro cidadão da República…

[Fonte: Pra Todos, 20-12-1924 – Pesquisa: Cristina Silveira]

 

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