Artigo acadêmico sobre Vila de Utopia, de Drummond, revela a crítica do cronista ao imobilismo itabirano
Foto: Miguel Bréscia/ Acervo: O Cometa
Em Vila de Utopia: (Re)erguida pela Memória, artigo acadêmico publicado na revista Scripta Alumini, em julho de 2021, as pesquisadoras Miriam de Paiva Vieira e Sophia Dinelli analisam a crônica homônima de Carlos Drummond de Andrade, escrita em 1933, destacando como o poeta reconstrói Itabira pela memória – e ao mesmo tempo, lança uma crítica velada ao imobilismo da cidade diante de sua riqueza mineral.
Para as autoras, na crônica Vila de Utopia, “a cidade é revelada por meio de palavras em écfrases arquitetônicas que despertam sentidos, sua materialidade física e moral, assim como seu caráter ora performativo”.
A crônica, segundo as estudiosas de Drummond, “não se limita à evocação afetiva, mas constrói uma memória que é também crítica, ao expor o imobilismo itabirano diante da abundância mineral”.
Essa crítica pode ser sintetizada na frase drummondiana: “o itabirano cruza os braços e deixa a vida passar devagar”.
Miriam e Sophia ressaltam ainda que ao mencionar a riqueza mineral latente no Cauê, Drummond sugere que “tamanha abundância poderia se tornar um grande mal para Itabira”.
Essa observação, afirmam, “funciona como vaticínio, antecipando o dilema que se confirmaria historicamente com a exploração industrial da Companhia Vale do Rio Doce”.
O vaticínio confirmado pela história
Quase uma década depois da publicação da crônica, em 1942, a Vale dá início à exploração industrial da hematita de Itabira.
O minério do Cauê, mais de um bilhão de toneladas, foi praticamente todo exportado sem pagar impostos.
Como lembram as autoras, “a riqueza que poderia libertar a cidade acabou por aprisioná-la em uma dependência quase absoluta da mineração”.
Essa contradição, da riqueza que alimenta o mundo, mas não sustenta Itabira, é central na crítica drummondiana em relação à cidade subjugada pelo poder da então Companhia Vale do Rio Doce.
Em crônicas posteriores no jornal Correio da Manhã, do Rio, muitas reproduzidas aqui na Vila de Utopia em Drummond e a mineração, o poeta acusava a Vale de ser uma “indústria ladra: tira e não põe, abre cavernas e não deixa raízes, devasta e emigra para outro ponto”, sem deixar nada em troca.
A espoliação material e cultural
A espoliação não se limitou ao minério contido no Cauê e posteriormente, nas minas do Meio e Conceição.
Como revelou este portal na reportagem Não foi só a alma que Itabira vendeu para a Vale, mas também o calçamento de hematita do centro histórico, a cidade perdeu parte de sua memória material.
O calçamento histórico de hematita, símbolo da identidade urbana, foi retirado e entregue à Vale, no fim da década de 1960, pouco antes de chegar o boom do asfalto, para pagar dívida do município com a mineradora.
É a metáfora perfeita da venda não apenas da riqueza natural, mas também da identidade cultural – e da própria alma. “Penso às vezes, cruamente, que Itabira vendeu a alma à Companhia Vale do Rio Doce”, observou o poeta-cronista.
A apropriação pelo portal Vila de Utopia
Ao adotar o título da crônica como nome, este portal Vila de Utopia estabelece uma ponte entre literatura e jornalismo.
Guardadas as proporções, o site retoma as preocupações drummondianas e as atualiza em reportagens que discutem os impactos da mineração e a necessidade de reinventar Itabira.
Em diferentes matérias, Vila de Utopia denuncia a iminente exaustão mineral, a escassez hídrica causada pela mineração e a ausência de alternativas produtivas.
Ao mesmo tempo, reafirma a identidade cultural da cidade em eventos como Flitabira e Semana Drummondiana, lembrando que Itabira precisa se reinventar além da mineração.
Literatura e jornalismo em diálogo
É assim que o artigo acadêmico das pesquisadoras Miriam de Paiva Vieira e Sophia Dinelli ilumina a dimensão memorialística e crítica da crônica, enquanto o portal Vila de Utopia transforma esse legado em pauta contemporânea.
Drummond antecipou o dilema da riqueza mineral como riqueza que esvai sem deixar legados, quase uma maldição.
Miriam e Sophia analisaram a memória e a crítica presentes na crônica. E este portal atualiza o vaticínio em reportagens que discutem o futuro da cidade sem mineração.
Essa continuidade mostra que literatura e jornalismo podem dialogar de forma produtiva, contemporaneamente.
A apropriação do título Vila de Utopia pelo portal não é apenas homenagem literária. É, portanto, um gesto político e cultural.
Ao dar continuidade às preocupações de Drummond, o site se consolida como espaço crítico e plural, capaz de articular memória, denúncia e identidade cultural.
Se o poeta via na riqueza mineral um mal em potencial, o portal vê na dependência da mineração um desafio concreto e inadiável, embora sempre, historicamente, postergado.
E projeta, com o jornalismo do tempo presente, a urgência de pensar Itabira para além do minério.









A memória é absolutamente essencial para evitar a justiça do mundo presente. Viva os nossos Carlos o Andrade e o cruz.