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Armas da extrema direita intimidam um STF dividido e acuado

Fotos: Reprodução/
Senado/STF

A pressão de Flávio Bolsonaro sobre Cármen Lúcia ocorre às vésperas de um julgamento que pode abrir processo contra Alexandre de Moraes e expõe a vulnerabilidade institucional da Corte

Valdecir Diniz Oliveira*

Nesta que promete ser uma das semanas mais tensas do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2026, o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, pode pautar a análise do relatório da Polícia Federal que reúne mensagens enviadas por Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes, extraídas do celular do banqueiro criminoso e tornadas públicas após decisão do ministro André Mendonça de retirar o sigilo do material.

O plenário decidirá se essas trocas de mensagens justificam ou não a abertura de um procedimento disciplinar contra Moraes — ou se o caso será analisado apenas após o prazo de manifestação dos envolvidos, podendo inclusive ser empurrado para depois da eleição.

Num movimento que encurrala o STF e beneficia diretamente o candidato bolsonarista Flávio Bolsonaro, o relatório passou a ser usado como arma política enquanto, nesse ambiente já pressionado por disputas internas e interesses cruzados, o próprio senador divulga um vídeo intimidando a ministra Cármen Lúcia, tentando influenciar um julgamento que pode alterar o rumo das investigações que atingem o bolsonarismo.

Às vésperas de um julgamento decisivo no Supremo Tribunal Federal, que vai definir se será aberto ou não um procedimento disciplinar contra o ministro Alexandre de Moraes, o senador Flávio Bolsonaro (PL‑RJ) divulgou um vídeo nas redes sociais pressionando diretamente a ministra Cármen Lúcia, um dos votos mais influentes da Corte.

No vídeo, ele afirma que quer ver “como vai ser o voto” da ministra e adverte que, caso ela não decida como ele espera, “vai ficar muito ruim para a biografia” dela. Em outro momento, reforça o tom de intimidação ao dizer que “o Brasil inteiro está de olho” e que “não dá mais para aceitar certas coisas”.

Flávio vai além. Afirma que “não é possível que a ministra não veja o que está acontecendo”. E insinua que, se ela votar contra seus interesses, estará “passando pano para abuso de autoridade”. E em tom de ameaça política, declara que “a história vai cobrar” e que “quem proteger abuso vai ser lembrado”.

A construção da fala, repetitiva, acusatória e direcionada, transforma o vídeo em um recado explícito: o senador exige um voto alinhado ao bolsonarismo e tenta constranger publicamente uma ministra do Supremo às vésperas de um julgamento que pode afetar diretamente seu próprio destino jurídico.

A declaração ocorre justamente na semana em que o STF analisará um pedido que pode afetar Moraes, responsável por conduzir investigações que atingem Flávio e o núcleo político do bolsonarismo. A escolha de Cármen Lúcia não é casual, uma vez que ela tem histórico de independência e costuma ser decisiva em julgamentos sensíveis.

Portanto, o voto da ministra é central porque define o alcance institucional da crise. Se o STF abrir o procedimento contra Moraes, a Corte terá de administrar um processo interno inédito, que expõe divergências entre ministros, fragiliza a imagem de unidade e cria espaço para exploração política de cada movimento.

Se o STF rejeitar a abertura, o bolsonarismo transformará o resultado em narrativa de proteção a Moraes, alegando parcialidade e perseguição. E usará essa versão para mobilizar sua base e pressionar o tribunal em julgamentos futuros.

Em qualquer dos cenários, o voto de Cármen Lúcia altera o ambiente político e jurídico da semana. E é por isso que se tornou alvo de pressão direta de Flávio Bolsonaro.

A ofensiva pública de um senador investigado, e presidenciável, sobre uma ministra do STF, em caso que pode afetar seus próprios interesses, é um movimento incomum e grave.

Indica tentativa de interferência no funcionamento da Corte e reforça a estratégia de intimidação adotada pelo bolsonarismo desde 2019. E se insere em uma lógica de tentativa de golpe prolongada, ou continuada, que busca manter a pressão sobre as instituições mesmo após o fracasso de 8 de janeiro.

A atuação de André Mendonça versus Alexandre de Moraes

O ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, tem adotado decisões que reforçam a percepção de alinhamento político ao grupo que o nomeou. Sua atuação recente inclui quebras de sigilo seletivas, decisões que criam fatos políticos paralelos e movimentações que deslocam o foco de investigações que atingem Flávio Bolsonaro.

Foi nesse ambiente que Mendonça determinou, nesta terça-feira (8),  o afastamento cautelar do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues — uma medida extrema, contestada pela AGU e que abriu nova frente de tensão entre Executivo e Judiciário.

A Segunda Turma do STF formou maioria para manter o afastamento, ampliando a instabilidade interna da Corte. A leitura predominante entre ministros, assessores e jornalistas especializados, independentes e não alinhados ao bolsonarismo, é que Mendonça tem atuado de maneira a tensionar ainda mais o ambiente interno do tribunal.

É nesse contexto que o episódio envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e a advogada Viviane de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, tornou-se instrumento político.

A quebra de sigilo das mensagens enviadas por Vorcaro ao ministro, determinada por Mendonça, expôs diálogos e referências a contratos que, até o momento, não resultaram em investigação formal nem apontam irregularidades comprovadas.

Mesmo assim, o conteúdo vem sendo utilizado politicamente para desgastar Moraes e criar um ambiente favorável à abertura de um procedimento disciplinar contra ele, apesar da fragilidade jurídica do pedido.

A ofensiva contra Moraes tem um motivo claro. Desde 2020, o ministro conduziu com firmeza os inquéritos que investigaram a máquina de desinformação bolsonarista, os ataques às instituições e a estrutura de financiamento de atos antidemocráticos.

Ele foi também o relator do processo que resultou na condenação de Jair Bolsonaro e aliados nas articulações que culminaram na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, que só fracassou porque não contou com a adesão do então comandante do Exército, general Júlio César de Arruda, cuja recusa em apoiar qualquer movimento de ruptura impediu que a ofensiva golpista ganhasse sustentação militar.

Desgastá-lo por meio de acusações de corrupção, mesmo sem base factual consistente, cumpre uma função estratégica e repete velha arma udenista. Reforça entre apoiadores a narrativa de que Bolsonaro e seus aliados são vítimas de um sistema manipulado, cria desconfiança sobre decisões do STF e tenta reduzir a legitimidade das investigações que atingem o bolsonarismo.

É a velha tática de transformar o investigador em suspeito para enfraquecer o processo investigativo. Trata-se de um mecanismo conhecido na política como o “espelho invertido”, em que o ator projeta nos adversários os comportamentos que ele próprio pratica ou teme ser acusado de praticar.

Daí que a iniciativa de Mendonça ultrapassa o campo estritamente técnico, é política e orquestrada. Insere o STF em uma disputa política direta, afeta a percepção de independência do tribunal e contribui para a construção de uma narrativa que tenta apresentar Moraes como inimigo político, que deixa de cumprir sua função constitucional.

Flávio Bolsonaro e o circuito financeiro sob suspeita

As investigações envolvendo Flávio Bolsonaro não se limitam ao caso das “rachadinhas” e outras suspeitas nada republicanas. O senador acumula episódios que, juntos, formam um padrão de movimentações financeiras e políticas opacas.

Entre eles está a franquia da Kopenhagen, cuja loja apresentou faturamento incompatível com a renda declarada e pagamentos em dinheiro vivo.

Outro episódio que precisa ser investigado é a compra do apartamento de cerca de R$ 6 milhões em Brasília, realizada com parte do valor em espécie e em condições consideradas suspeitas pelos investigadores, tanto pela incompatibilidade com a renda declarada quanto pelo padrão de operações financeiras já identificado em outras apurações envolvendo o senador.

Há ainda a rede de depósitos fracionados e triangulações identificada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, que apontou para uma possível “lavanderia financeira” envolvendo assessores, empresas e o gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, além da relação com o miliciano Adriano da Nóbrega, cujo grupo abastecia a conta de Fabrício Queiroz e tinha familiares empregados no gabinete do então deputado estadual.

A esse conjunto soma-se o caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Mensagens obtidas pela Polícia Federal e divulgadas pelo The Intercept mostram Flávio Bolsonaro solicitando diretamente novos aportes financeiros para o filme Dark Horse, afirmando que o projeto precisava de mais recursos e pedindo que Vorcaro “ajudasse a viabilizar” o valor adicional.

Vorcaro responde de forma receptiva e, segundo reportagens da revista Fórum, realiza repasses posteriores por meio de empresas ligadas ao seu grupo, ampliando o financiamento após a solicitação do senador. Esses repasses, associados ao histórico de operações do Banco Master, reforçam a suspeita de que o filme funcionou como veículo de triangulação financeira.

Mais recentemente, outras reportagens do The Intercept Brasil detalharam a relação do senador com o ex‑controlador do Banco Master, Eduardo Martins, que negocia uma delação ainda não homologada.

Segundo o material divulgado, Martins descreve um circuito financeiro que envolve repasses ilícitos para campanhas, triangulações entre empresas, contratos simulados e uso de estruturas empresariais para ocultar movimentações.

A delação menciona o filme Dark Horse como parte dessa engrenagem mais ampla, utilizada para movimentar recursos por fora dos canais tradicionais, com contratos culturais funcionando como instrumentos de passagem.

O nome de Flávio aparece em diálogos, tratativas e articulações que indicam possível intermediação de interesses, ampliando o alcance das suspeitas para o sistema financeiro e para operações que, se confirmadas, configuram crimes de natureza econômica e eleitoral.

Já Alexandre de Moraes encaminhou à Procuradoria-Geral da República pedidos que podem atingir diretamente Flávio. A reação foi imediata: transformar Moraes em alvo, declarar suspeição, tentar deslocar o caso para André Mendonça, criar crise e pressionar o STF.

A ofensiva contra Cármen Lúcia se insere nesse contexto, como tentativa de influenciar o julgamento que pode abrir caminho para investigações mais profundas e potencialmente devastadoras para o senador.

Investigação ampla, não seletiva

A crise exige investigação ampla e rigorosa. Quebra de sigilo de todos os envolvidos, não apenas dos nomes convenientes. Apuração completa, não seletiva. Transparência real, republicana, sem o velho moralismo udenista que escolhe quem deve ser execrado e quem deve ser poupado.

O país precisa de instituições que funcionem com independência, sem serem usadas como instrumento de um grupo político ou como escudo de proteção de outro.

A seletividade investigativa, seja para proteger aliados, seja para atacar adversários, compromete a credibilidade do sistema de Justiça e abre espaço para manipulação política. Com a Justiça se deixando manipular, perde-se um processo e também a confiança pública, que é o que sustenta qualquer tribunal.

A atuação de Mendonça, somada à pressão pública de Flávio, amplia o ambiente de instabilidade e coloca o Supremo no centro de uma disputa que ultrapassa o caso específico e alcança a estrutura institucional de um país que tem no STF o guardião da Constituição.

Quando essa autoridade é corroída, abre-se espaço para aventuras autoritárias, especialmente quando atores que rejeitam as regras e os princípios democráticos são contrariados pelas urnas. No fundo, é a velha história brasileira que insiste em se repetir, e espera-se que não como farsa.

Quando o conflito chega ao topo do Estado, o povo não está na mesa. Nunca esteve. Quem disputa o comando das instituições são forças organizadas nas esferas políticas, econômicas e religiosas, que sabem onde apertar para que o sistema ceda a seu favor – ou para que volte com força contra quem tenta resistir, como a história que atropela indiferentemente todos aqueles que a neguem.

Mas o mais grave é que, nesse movimento, a democracia perde sustentação. E a Constituição, soberana e democrática, fica exposta, sem a defesa firme de quem deveria protegê-la no momento em que ela mais precisa, por dever constitucional. É nesses momentos que a história costuma cobrar caro de quem vacila.

* Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.

 

 

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