O que define o que é arte? A pergunta volta ao centro no Dia do Artista Plástico

Fotos: Fernanda Sá Motta/
Divulgação

Trajetória do mineiro Quim, sem formação acadêmica, atualiza um debate que tem reorganizado o circuito brasileiro

O que define o que é arte? Em datas como o Dia do Artista Plástico, celebrado no Brasil nesta sexta-feira (8), a discussão volta a ganhar força, sobretudo quando trajetórias que escapam à formação acadêmica tradicional ocupam o circuito de exposições. É o caso do pintor mineiro Joaquim Dimas Fidelis, o Quim, ex-carroceiro que começou a pintar em 2017 e tem hoje sua primeira individual exibida no Parque do Palácio, em Belo Horizonte.

Mais do que uma questão filosófica, a pergunta tem efeitos sociais concretos: define quem é reconhecido como artista, quem ocupa museus, galerias e coleções, e quem acessa editais, bolsas e curadorias. No Brasil, o circuito de artes plásticas funcionou historicamente por filtros que coincidiam com diferenças de classe e território. A própria formação acadêmica em cursos de artes visuais, por décadas, esteve concentrada em capitais com foco em públicos de classe média e alta, e quem alcançava o reconhecimento das instituições costumava ser quem havia trilhado esse caminho.

Os dados mostram que esse cenário tem mudado nas últimas duas décadas. As três últimas edições da Bienal de São Paulo, a 34ª (2021), a 35ª (2023) e a 36ª (2025), ampliaram a presença de artistas indígenas, negros, autodidatas e de produções populares no maior evento de arte da América Latina, com equipes curatoriais também mais diversas em origem, trajetória e formação.

“Quim nos convida ao encantamento do simples e à sedução do cotidiano esquecido”, afirma a curadora da exposição, Sarah Ruach

Em 2024, a Bienal de Veneza, sob curadoria do brasileiro Adriano Pedrosa, levou para o circuito internacional a mostra “Estrangeiros em Toda Parte”, voltada para artistas migrantes, indígenas e para quem produziu fora dos circuitos formais. No mercado, autodidatas como Heitor dos Prazeres (1898-1966), Maria Auxiliadora e Chico da Silva passam por movimentos firmes de revalorização.

É nesse movimento mais amplo de revisão que a trajetória de Quim também ganha visibilidade pública. O artista não passou por escola de arte, sua formação se deu na vivência: a infância em Nelson Sena, distrito de São João Evangelista, no interior de Minas Gerais; a chegada a Belo Horizonte em busca de trabalho; a profissão de carroceiro; e, em 2017, o primeiro contato com a tela. Suas pinturas se organizam em campos de cor distribuídos em faixas horizontais, com elementos que se repetem e reúnem essa experiência visual acumulada. “Eu começo a pintar sem saber o que vai aparecer, é como se a imagem fosse se formando sozinha”, descreve o artista.

Para o colecionador e apreciador de arte popular Rildo Faria, esse modo de produção, baseado na vivência e não no ensino formal, não é exceção, mas tradição. “A expressão popular está muito ligada aos modos de fazer, ao conhecimento que não vem da formação acadêmica, mas da vivência e da prática. É uma produção que se constrói a partir do repertório cultural de quem faz, muitas vezes aprendida na repetição, na observação e na transmissão entre gerações. Não é uma arte improvisada, mas uma linguagem que se organiza com consistência a partir da experiência”, afirma.

Essa leitura ajuda a compreender a força de “Quim: Inconsciente Preciso”, exposição apresentada pela Papazoglu Galeria de 8 de março a 7 de junho de 2026, no Parque do Palácio, em Belo Horizonte. Primeira individual do artista, a mostra reúne pinturas que partem da relação intuitiva com a cor, a memória e a imaginação. Sem desenho prévio, Quim trabalha com a tela no colo, mistura tintas diretamente na superfície e permite que a imagem se organize durante o processo.

“Quim nos convida ao encantamento do simples e à sedução do cotidiano esquecido. Sua pintura constrói uma coreografia delicada entre memória, cor e imaginação, onde a ingenuidade se afirma como potência”, afirma a curadora da exposição, Sarah Ruach. Segundo ela, o “inconsciente preciso” que dá nome à mostra traduz uma pintura que nasce sem planejamento rígido, mas encontra equilíbrio no próprio ato de pintar.

Arte popular no circuito contemporâneo

O Dia do Artista Plástico foi oficializado no Brasil em 1950 em homenagem ao nascimento de José Ferraz de Almeida Júnior (1850-1899), pintor que, mesmo formado pela Academia Imperial de Belas Artes e pela École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, em Paris, romperia com a tradição erudita ao colocar o caipira e o trabalhador rural no centro de suas telas.

Quase 130 anos depois, o reconhecimento de produções populares também ganhou marcos institucionais no país. Nesse sentido, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em 2017, orienta o ensino de arte a incluir diferentes matrizes culturais brasileiras, entre elas as manifestações populares e os saberes tradicionais. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por meio do Decreto nº 3.551/2000, reconhece os “modos de fazer” como patrimônio cultural imaterial.

Para o galerista Costantino Papazoglu, diretor da Papazoglu Galeria e produtor da exposição em cartaz no Parque do Palácio, o trabalho de Quim mostra na prática essa mudança. “Existe uma precisão estrutural que não depende necessariamente de uma formação acadêmica. O que vemos é um domínio construído pela prática, capaz de sustentar uma linguagem própria e autêntica dentro da produção contemporânea”, afirma.

Costantino destaca que escolher Quim para inaugurar a programação da Galeria Papazoglu também tem sentido institucional. “Desde aquele primeiro momento, compreendi que estava diante de uma obra que não precisava ser construída — ela já existia com verdade e consistência. Escolher o Quim para inaugurar a programação da Galeria Papazoglu é uma declaração de princípios: acreditamos na força da autenticidade e na potência da arte que nasce da experiência vivida”, completa.

Serviço

Quim: Inconsciente Preciso

Local: Parque do Palácio – Av. Djalma Guimarães, 161, Portaria 2 – Mangabeiras, Belo Horizonte (MG)
Período: Até 7 de junho de 2026
Horário: Quarta a sexta, das 10h às 18h; sábado e domingo, das 9h às 18h
Entrada: consultar o Parque do Palácio (@parquedopalacio)
Instagram: @papazoglugaleria

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