Acordo Mercosul União Europeia abre mercado, mas ESG será o novo filtro de entrada
Arte: Reprodução/ Sustentalli
Empresas brasileiras que pretendem exportar ou fornecer para cadeias ligadas ao mercado europeu precisarão comprovar rastreabilidade, governança e práticas socioambientais para capturar as oportunidades do acordo
Poucas empresas brasileiras se deram conta, mas o acordo Mercosul União Europeia não deve ser apenas uma porta de entrada para novos negócios. Ele também pode funcionar como um filtro. A partir da nova fase comercial com o bloco europeu, preço, escala e qualidade continuarão sendo importantes, mas podem não ser suficientes.
Empresas que pretendem exportar para a Europa ou fornecer para cadeias ligadas a compradores europeus terão de demonstrar, com dados e evidências, que controlam riscos ambientais, sociais e de governança, alerta a vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli, a especialista em ESG, Eliana Camejo.
A mudança não começa no acordo em si. Ela vem de um movimento regulatório mais amplo da União Europeia, que em 2024 colocou em vigor a Diretiva de Due Diligence em Sustentabilidade Corporativa. A norma exige que grandes empresas identifiquem e enfrentem impactos adversos sobre direitos humanos e meio ambiente em suas operações, subsidiárias e cadeias globais de valor.
Na prática, isso significa que fornecedores brasileiros serão cobrados por rastreabilidade, origem de matéria-prima, condições de trabalho, integridade, governança, gestão ambiental e comprovação documental.
É nesse ponto que o acordo comercial muda de dimensão, de acordo com Eliana Camejo. A redução de tarifas e a ampliação do acesso ao mercado europeu criam oportunidades para empresas brasileiras, mas não eliminam as exigências regulatórias, reputacionais e documentais que já orientam a relação da Europa com seus parceiros comerciais.
Ao contrário, podem ampliar a pressão sobre exportadores, indústrias, agroindústrias, cooperativas, tradings e fornecedores que integram cadeias internacionais.
O acordo Mercosul União Europeia passou a ter aplicação provisória em 1º de maio de 2026 e cria uma zona comercial de cerca de 700 milhões de pessoas, segundo a Comissão Europeia. O bloco afirma que o acordo busca ampliar comércio e parcerias globais, preservando padrões ambientais, consumidores e agricultores europeus.
Na avaliação de especialistas em ESG e governança, a leitura empresarial precisa ir além da abertura de mercado. O ponto central é que a Europa está criando um ambiente em que a sustentabilidade deixa de ser narrativa institucional e passa a ser critério de negociação, permanência em contratos e acesso a cadeias globais.
“O acordo Mercosul União Europeia não deve ser interpretado apenas como uma oportunidade tarifária. Ele inaugura uma disputa por confiança. A empresa brasileira que quiser acessar ou permanecer em cadeias ligadas ao mercado europeu terá que demonstrar origem, rastreabilidade, gestão de riscos, governança e práticas socioambientais documentadas. ESG deixa de ser discurso e passa a ser infraestrutura de mercado”, afirma Eliana Camejo a conselheira de administração e vice-presidente da Sustentalli.
Cadeias produtivas mais expostas
Entre as cadeias brasileiras que devem sentir mais rapidamente os efeitos dessa nova exigência estão aquelas ligadas a produtos com maior sensibilidade ambiental, social e reputacional no mercado europeu. É o caso de carne bovina, soja, café, cacau, madeira, papel e celulose, couro, borracha, alimentos processados, têxtil, calçados, químicos, cosméticos, autopeças, máquinas, equipamentos e embalagens.
No agronegócio, empresas que já vendem café, soja, carne ou outros produtos para a Europa não partem necessariamente do zero. Muitas já cumprem requisitos sanitários, comerciais e documentais para acessar esse mercado.
O que muda é a régua de comprovação. A nova agenda regulatória europeia tende a ampliar a cobrança por evidências sobre origem da matéria-prima, risco de desmatamento, regularidade ambiental das propriedades, condições de produção, documentação de fornecedores e rastreabilidade da cadeia.
Na indústria, Eliana Camejo afirma que a pressão tende a aparecer em cadeias como autopeças, máquinas, equipamentos, químicos, têxtil, calçados e embalagens.
Segundo a especialista, uma empresa brasileira que fornece componentes para uma multinacional europeia, mesmo sem exportar diretamente, poderá ser questionada sobre emissões, consumo de energia, descarte de resíduos, origem de insumos, práticas trabalhistas, segurança ocupacional, integridade e governança.
O mesmo vale para cadeias como couro, madeira, papel e celulose, borracha e cosméticos, nas quais a origem dos insumos e o controle socioambiental dos fornecedores passam a ter peso crescente nas negociações comerciais.
Essa pressão não termina no exportador. Ela pode descer para cooperativas, transportadoras, armazéns, beneficiadoras, frigoríficos, tradings, indústrias regionais e prestadores de serviço que integram a cadeia de quem vende para a Europa.
O desafio, portanto, não é apenas entrar no mercado europeu, mas continuar competitivo em um mercado que passa a exigir mais prova, mais controle e mais rastreabilidade, explica a Conselheira de Administração da Sustentalli, primeira cooperativa de especialistas em sustentabilidade e governança do Brasil.









