A geopolítica dos minerais críticos, a nova fronteira da inovação e o desafio estratégico do Brasil
Mina de lítio, no Vale do Jequitinhonha
Foto: Klemens Laschefski/ Gesta-Ufmg
“Um dos pontos levantados no SPIW foi justamente a ausência de um marco regulatório mais robusto e de uma estratégia nacional consolidada para minerais críticos. O risco é repetir um padrão histórico: exportar matéria-prima e importar tecnologia de alto valor agregado.”
Camila Conegundes*
Durante muitos anos, a discussão sobre inovação esteve associada principalmente ao desenvolvimento de software, conectividade e transformação digital.
No entanto, uma combinação entre os debates realizados no São Paulo Innovation Week (SPIW) e as evidências apresentadas em estudos recentes da Agência Internacional de Energia (International Energy Agency – IEA) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta para uma mudança de perspectiva: a próxima grande disputa tecnológica será travada antes da camada digital, na origem dos materiais que tornam essa inovação possível.
Em um cenário marcado pela transição energética, pela expansão da inteligência artificial e pela reorganização das cadeias globais de suprimento, os minerais críticos passaram a ocupar posição central nas estratégias de desenvolvimento econômico, industrial e geopolítico.
Os chamados minerais críticos tornaram-se ativos estratégicos da economia global. De acordo com o relatório “Global Critical Minerals Outlook 2025”, da IEA, sua importância vai além da transição energética.
A indústria eletrônica compartilha cadeias de suprimento com o setor solar fotovoltaico; a inteligência artificial e a robótica tendem a ampliar a demanda por materiais estratégicos; e o setor aeroespacial depende de superligas metálicas de alto desempenho.
Essa convergência mostra que os minerais críticos estão no centro da competitividade tecnológica, industrial e geopolítica.
Nas palestras acompanhadas no SPIW, uma afirmação apareceu repetidamente: estamos entrando em uma era de disputa por recursos. A frase resume uma mudança estrutural da economia mundial.
O cenário geopolítico atual é marcado pela busca por segurança de suprimentos, diversificação de cadeias produtivas e redução da dependência de poucos fornecedores globais.
A própria IEA alerta que os mercados de minerais críticos vêm se tornando mais concentrados, especialmente nas etapas de refino e processamento. A China mantém liderança em grande parte dessas cadeias, controlando parcela relevante da capacidade global de processamento de minerais estratégicos.
É nesse contexto que o Brasil ganha relevância. O Global Critical Minerals Outlook 2025 aponta que o país vem se consolidando como destino estratégico para investimentos em minerais críticos e terras raras.
Com reservas relevantes de lítio, níquel, grafita, cobre, nióbio e terras raras, insumos fundamentais para a transição energética e para tecnologias emergentes, o Brasil reúne condições para ocupar posição central nas cadeias globais desses recursos e desempenhar papel relevante na nova geopolítica da energia e da inovação.
A oportunidade, porém, não está garantida. Um dos pontos levantados no SPIW foi justamente a ausência de um marco regulatório mais robusto e de uma estratégia nacional consolidada para minerais críticos. O risco é repetir um padrão histórico: exportar matéria-prima e importar tecnologia de alto valor agregado.
Essa preocupação também aparece no estudo do Ipea, intitulado “Qual a importância do Brasil na cadeia global de minerais críticos da transição energética? Uma análise sobre reservas, produção, comércio exterior e investimentos”, de 2025, além de análises de entidades do setor mineral.
Embora o país detenha reservas expressivas, especialistas alertam para a necessidade de fortalecer a produção, a inovação tecnológica e a agregação de valor no território nacional.

Outro aspecto discutido no SPIW foi a necessidade de enxergar os minerais críticos para além da mineração. Eles conectam setores aparentemente distintos, como inteligência artificial, defesa, mobilidade elétrica, energia renovável, infraestrutura digital e segurança nacional.
Em um mundo cada vez mais dependente de tecnologias intensivas em recursos naturais, inovar deixa de ser apenas uma questão de software e passa a depender também da capacidade de controlar cadeias físicas de suprimento.
A discussão ganha ainda mais relevância quando observada pela ótica da propriedade intelectual. O valor econômico dos minerais críticos não está apenas na extração, mas nas tecnologias de beneficiamento, processamento, reciclagem, novos materiais, baterias avançadas e soluções industriais desenvolvidas a partir deles.
É nesse ponto que patentes, pesquisa aplicada e políticas de inovação tornam-se tão importantes quanto a própria disponibilidade dos recursos naturais.
O Brasil vive, portanto, uma janela histórica de oportunidade. Poucos países combinam disponibilidade mineral e potencial energético renovável em escala comparável.
Mas transformar essa vantagem geológica em liderança econômica exigirá coordenação entre Estado, universidades, centros de pesquisa e setor privado.
A disputa pelos minerais críticos já começou. A questão que permanece é se o Brasil participará dessa corrida apenas como fornecedor de insumos ou como protagonista das tecnologias que definirão a economia das próximas décadas.
*Camila Conegundes é Engenheira de Minas e Especialista em Patentes, com atuação na interseção entre inovação, estratégia e propriedade intelectual. É pesquisadora colaboradora do Grupo de Propriedade Intelectual, Direitos Humanos e Inclusão (GPIDHI) da Fundação Getulio Vargas (FGV) e acompanha tendências em transição energética, minerais críticos, sustentabilidade e desenvolvimento tecnológico.









