Lula é reeleito com a força de sua história e da mobilização popular das ruas e das redes sociais
Foto: Paulo Pinto/ Agência Brasil
Carlos Cruz
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25) para um quarto mandato presidencial após reverter o resultado do primeiro turno e vencer o candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro (PL), em uma das disputas mais polarizadas da história recente do país.
Em Itabira, Lula recebeu 39.545 votos, o equivalente a 55,35% dos votos válidos, contra 31.906 votos de seu adversário, que alcançou 44,65%. Também foram registrados 1.075 votos em branco (1,44%) e 2.317 votos nulos (3,10%). Nacionalmente, Lula obteve 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro ficou com 48,21%.
Eu acompanhava a apuração do segundo turno da eleição presidencial, quando a contagem começou a desenhar a virada que reconduziria Lula ao Palácio do Planalto. Naquele momento, veio-me à memória uma canção de Chico Buarque escrita para saudar a Revolução dos Cravos, em Portugal: “Foi bonita a festa, pá, fiquei contente, ainda guardo renitente um velho cravo para mim”.

O resultado confirmado pelas urnas não foi uma revolução. Nenhuma eleição, por si só, altera as estruturas econômicas e sociais de um país. Mas poucos haverão de contestar que se tratou de um acontecimento político de enorme significado histórico.
A vitória parecia difícil, mas jamais impossível. E um dos gritos que mais ecoaram na reta final da campanha surgiu justamente de Minas Gerais. Como lembrou Lula em um comício em Belo Horizonte, a velha palavra de ordem da torcida atleticana ganhou sentido político: “Eu acredito”.
Já para o candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro e muitos de seus apoiadores, a disputa parecia encerrada logo após o primeiro turno, com a vitória oposicionista. Houve comemorações antecipadas, projeções de governo já antecipando possíveis nomeações ministeriais, além de outras demonstrações públicas de confiança antecipada.
Foi então que me ocorreu outro clássico do cancioneiro brasileiro, com Belchior, que adverte aos incautos: “Não cante vitória muito cedo, não. Nem leve flores para a cova do inimigo”. A sabedoria popular traduz essa mesma ideia de forma mais simples: não se soltem foguetes antes da festa.
Foi exatamente o que aconteceu em muitas cidades do país. Também em Itabira. Ainda no início da apuração, quando o candidato da extrema-direita voltou a aparecer momentaneamente à frente, os fogos voltaram a explodir em várias cidades do país, inclusive em Itabira.
Assustaram animais, incomodaram moradores e reforçaram uma prática cada vez mais questionada, inclusive por contrariar norma municipal de proteção contra a poluição sonora.
A cadeira que Jânio desinfetou e o megafone do antigo líder sindical

A história política brasileira oferece exemplos eloquentes dos riscos da comemoração antecipada. Na véspera da eleição municipal de São Paulo, em 1985, Fernando Henrique Cardoso, então favorito nas pesquisas, aceitou posar para fotógrafos sentado na cadeira do gabinete do prefeito.
O gesto foi interpretado por parte do eleitorado como excesso de confiança. No dia seguinte, acabou derrotado por Jânio Quadros, que fez questão de “desinfetar” a cadeira ao tomar posse.
As urnas deste 25 de outubro voltaram a demonstrar que a soberba costuma ser uma companheira perigosa.
Lula chegou à vitória depois de reorganizar a campanha, reconhecer dificuldades enfrentadas no primeiro turno. E, sobretudo, por apostar novamente naquilo que sempre marcou sua trajetória política: a mobilização popular.
Desta vez, porém, havia um ingrediente novo. A esquerda finalmente compreendeu que as redes sociais deixaram de ser simples canais de divulgação para se transformar em um dos principais campos da disputa política contemporânea.
Foi nesse terreno que ganhou destaque a atuação do deputado federal André Janones (PT-MG), cuja estratégia digital ajudou a ampliar o alcance da campanha e a mobilizar apoiadores em escala nacional.
Nas semanas que antecederam a votação, estudantes, sindicatos, artistas, movimentos populares e militantes voltaram às ruas.
O ambiente de resignação que tomou conta de parte do eleitorado progressista após o primeiro turno deu lugar a uma intensa campanha de mobilização. O que muitos apresentavam como derrota incomparável, transformou-se em uma das viradas eleitorais mais expressivas da história recente do país.
Mas a explicação para o resultado não está apenas na campanha, mas também na trajetória do personagem central dessa história.

Da infância pobre no interior de Pernambuco à liderança das greves do ABC paulista, passando pela fundação do Partido dos Trabalhadores aos mandatos presidenciais conquistados pelo voto popular, assim como pela experiência amarga das derrotas eleitorais dos anos 1990 ao retorno ao Palácio do Planalto, a biografia de Lula se confunde com alguns dos capítulos mais importantes da história política brasileira das últimas cinco décadas.
Talvez por isso uma das imagens mais simbólicas da noite deste histórico domingo tenha sido a do presidente reeleito deixando o hotel onde acompanhava a apuração e seguir em meio à multidão rumo à avenida Paulista com um megafone na mão.
O gesto, talvez mais simbólico do que comunicativo, remete ao histórico líder sindical que ganhou projeção nacional nas greves metalúrgicas do final dos anos 1970 no ABC paulista, quando organizar trabalhadores ainda significava desafiar o regime militar e enfrentar a repressão política.
É importante ressaltar que na ditadura militar greve era proibida, direito que só foi reconquistado com a Constituição Cidadã de 1988, que o candidato da extrema-direita pretendia reformar com a força da maioria no Congresso Nacional, possivelmente para suprimir esse, e muitos outros direitos dos trabalhadores duramente conquistados.
Mais do que um recurso improvisado para dialogar com a multidão, o megafone pareceu conectar dois tempos históricos distintos: o do operário que emergiu das assembleias de Vila Euclides e o do presidente eleito pela quarta vez pelo voto popular.
A simbologia do megafone foi eloquente. O metalúrgico que ajudou a escrever um dos capítulos decisivos da redemocratização brasileira seguia ali, seguindo entre a multidão, agora conduzido novamente ao posto mais alto da República pelo voto popular.

Lula em seu primeiro discurso após reeleição
Foi assim que, na avenida Paulista, poucas horas após a confirmação do resultado do segundo turno, o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva participou de um ato com uma multidão de apoiadores em São Paulo, onde fez seu primeiro discurso público após a vitória nas urnas.
Ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB-SP), de lideranças políticas e de militantes que participaram da campanha, Lula agradeceu a mobilização popular ocorrida ao longo do processo eleitoral.
E apresentou algumas das prioridades que pretende perseguir no novo mandato, segundo ele, sempre contando com o apoio do movimento popular fortalecido nessas eleições.
Durante o ato, Lula afirmou que embarcaria para Brasília ainda naquela noite para iniciar as atividades da nova etapa do governo. “Amanhã eu já tenho muita coisa para fazer em Brasília”, disse aos apoiadores.
Participação da juventude e dos idosos
O vice-presidente Geraldo Alckmin associou o resultado eleitoral à mobilização de diferentes segmentos da população.
Agradeceu especialmente a participação dos jovens e dos eleitores idosos, grupos que ele destacou como relevantes para o resultado das urnas.
O vice-presidente também ressaltou o crescimento da votação da chapa entre o primeiro e o segundo turno. E classificou o resultado como uma demonstração da vitalidade da participação democrática.
Outro ponto destacado por Alckmin foi a responsabilidade do novo governo diante da confiança recebida dos eleitores. Segundo ele, o desafio a partir de agora será corresponder às expectativas da população.
Manutenção da mobilização digital
Lula também chamou ao palco o deputado federal André Janones, a quem atribuiu papel importante na estratégia digital da campanha.
Em seu pronunciamento, Janones afirmou que a mobilização construída durante o segundo turno não deveria se encerrar com a eleição.
O deputado defendeu a continuidade do engajamento dos apoiadores e comparou a base de militantes digitais a um grande “exército” de participação popular.
Janones argumentou que a presença dos apoiadores nas redes sociais seguirá sendo importante para acompanhar ações do governo e manter a mobilização política iniciada durante a disputa eleitoral.
Voltando a se pronunciar, Lula também agradeceu a diferentes segmentos da sociedade que, segundo ele, contribuíram para a vitória eleitoral. Entre os grupos citados pelo presidente reeleito estão jovens, mulheres, educadores, idosos e militantes envolvidos na campanha.
Ele afirmou que a participação popular continuará sendo um elemento central de seu governo. E disse que pretende ampliar os canais de diálogo com a sociedade.
Educação como principal prioridade
A educação ocupou parte significativa do discurso do presidente reeleito, para que possa cumprir a promessa que também de garantir “prosperidade” para todos que trabalham e têm esperança de dias melhores.
Lula afirmou que pretende ampliar o programa Pé-de-Meia destinado aos estudantes do ensino médio e anunciou a intenção de criar uma modalidade voltada para universitários. “Nenhuma menina e nenhum menino vai deixar de estudar por falta de dinheiro”, afirmou.
O presidente também declarou que pretende expandir a oferta de escolas de tempo integral em todo o país e reforçar investimentos na formação educacional de jovens brasileiros.
Segundo ele, a educação continuará sendo um dos principais instrumentos para a redução das desigualdades sociais e para o desenvolvimento econômico nacional.
Outro tema enfatizado durante o pronunciamento foi a necessidade de ampliar a participação do Brasil nas áreas de ciência e tecnologia.
Nesse aspecto, Lula afirmou que pretende fortalecer políticas voltadas ao desenvolvimento de inteligência artificial, defendendo soluções tecnológicas produzidas em língua portuguesa.
O presidente também declarou que o país precisa ampliar a formação de engenheiros, matemáticos, pesquisadores e profissionais especializados para enfrentar os desafios tecnológicos das próximas décadas.
Na avaliação do presidente reeleito, o Brasil precisa investir fortemente na capacitação profissional para acompanhar as transformações econômicas e tecnológicas em curso no mundo.
Comunicação digital, democracia e participação social
Ao reconhecer, mais uma vez, a importância das plataformas digitais na campanha eleitoral, Lula disse que pretende fortalecer a comunicação do governo neste já não tão novo mundo da comunicação social, que tem roubado a agenda-setting dos meios tradicionais de informação.
Segundo ele, o diálogo direto com a população por meio das novas tecnologias deve receber atenção especial no novo mandato.
A referência a esse mundo digital foi feita após mencionar o papel desempenhado pelas redes sociais, com o imprescindível apoio e criação do Exército de Lula pelo deputado André Janones, durante o segundo turno da eleição presidencial.
O presidente reeleito afirmou que pretende construir um governo aberto ao diálogo e destacou a importância da participação da sociedade nas decisões públicas. Para isso, disse que será ampliada a presença institucional do governo nos ambientes digitais.
Também fez referências à democracia e ao combate às desigualdades, temas recorrentes ao longo do discurso.
Em diversos momentos da manifestação, apoiadores responderam com palavras de ordem e manifestações favoráveis à democracia.
O evento na avenida Paulista marcou o encerramento da jornada eleitoral e representou a primeira grande manifestação pública do presidente reeleito após a confirmação do resultado das urnas.
Que venham as próximas manifestações, fortalecendo a força popular frente a um Congresso Nacional majoritariamente conservador que o presidente e o país terão de enfrentar.










A melhor crônica sobre a vitória do presidente Lula em toda a imprensa.
Saudações, Carlos