Entre a civilização e a barbárie, nosso voto é em Lula

Lula ao lado de Patrus, e Marília, em Belo Horizonte

Foto: Ricardo Stuckert

Para começar, vamos direto ao ponto: entre a civilização e a barbárie, votamos em Lula. Não somos imparciais. Nunca fomos. E não temos qualquer intenção de fingir que somos. A tal “imparcialidade” jornalística, vendida como mito pela indústria da comunicação norte americana e copiada, sem pudor, pela grande imprensa brasileira, serviu e ainda serve para enganar leitores e telespectadores, enquanto se articula, nos bastidores, com o grande capital.

Basta o leitor observar, neste período eleitoral, as manchetes dos grandes jornais e portais, o enquadramento das notícias, o destaque dado a certos temas e o silêncio sobre outros, para compreender como funciona, na prática, essa “imparcialidade” de fachada e tirar suas próprias conclusões. Aqui, na Vila de Utopia, como antes em O Cometa, não escondemos nossas posições na hora do voto.

Esta eleição é, para nós, a continuidade da anterior, um processo longo e difícil, que tem por objetivo destruir o ovo da serpente que ainda ameaça a democracia brasileira e as conquistas democráticas, sobretudo as de última geração, que fazem avançar os direitos civis. Muito ainda precisa avançar para que todos sejam, de fato, iguais perante a lei, com as diferenças protegidas pelo Direito e não usadas como pretexto para exclusão.

É nesse contexto que reafirmamos que apoiar Lula é, hoje, a garantia de que a sociedade brasileira continuará avançando nesses direitos, conquistando novos, fazendo com que a utopia deixe de ser apenas sonho para se tornar realidade, ainda que imperfeita e em permanente disputa. Os avanços já vem acontecendo, mesmo que ainda não no ritmo que gostaríamos, é verdade.

Sabemos das limitações de ser presidente em um país presidencialista, com um sistema político fragmentado, em que a coalizão de governo, fortalecida e deformada sobretudo no governo bolsonarista, transformou o presidente em refém de um Congresso muitas vezes hostil, conservador, para não dizer abertamente reacionário.

Por isso, este editorial não é apenas um chamado ao voto em Lula. É também um chamado à responsabilidade de eleger senadoras e senadores, deputadas e deputados comprometidos com uma pauta progressista. Porque é para frente que se anda. Sem um Parlamento minimamente alinhado com a agenda de direitos, justiça social e desenvolvimento, qualquer governo popular será permanentemente chantageado, sabotado, encurralado.

Cabe aqui lembrar Antonio Gramsci, filósofo e articulista marxista italiano, quando desenvolve o conceito de bloco histórico. Para Gramsci, nenhuma transformação social profunda ocorre apenas pela força das ideias ou pela vontade de um líder carismático. A mudança exige a formação de um bloco histórico, isto é, uma articulação bem engendrada entre estrutura econômica, instituições políticas e cultura, uma superestrutura capaz de produzir uma hegemonia, não pela imposição, mas pela construção de consenso ativo na sociedade.

Daí que a transformação social não se faz isoladamente. Ela exige alianças amplas entre forças populares, esquerda e centro esquerda, e até com o centro não reacionário, empresários progressistas, trabalhadores e setores da classe média, em contraponto ao grande capital e às forças da extrema direita.

É esse bloco histórico, sempre em disputa, que pode sustentar um Estado Democrático de Direito que seja também social, num momento em que ele se encontra sob múltiplas ameaças, com crise no STF, no Congresso e uma crise de confiança do povo na política. É essa crise que abre espaço para o surgimento de líderes carismáticos da extrema direita, que se aproveitam do desencanto e da desorientação política, sobretudo entre jovens.

Muitos desses jovens querem mudança, querem ruptura, querem viver um mundo melhor, mas, sem referências históricas, acabam seduzidos pelo canto da sereia da nova direita radical, que se apresenta como antissistema enquanto reproduz o que há de mais velho no conservadorismo autoritário.

Essa nova direita opera com códigos próprios, os apitos de cachorro, como nos discursos red pill, masculinismo performático como o dos Legendários, influenciadores que transformam violência simbólica em espetáculo e uma estética de rebeldia que, no fundo, serve para reforçar hierarquias e desigualdades. Trata-se de uma rebeldia domesticada, que canaliza o inconformismo juvenil para o pior caminho possível, que é o da intolerância, do ódio, da antipolítica e, em última instância, do fascismo.

Por isso, a construção de um bloco histórico progressista, plural, democrático e popular é o que está em disputa nessas eleições. Não se trata apenas de disputar o poder institucional, mas disputar também o imaginário, o senso comum, a cultura política. É essa disputa que define se caminharemos para a ampliação dos direitos ou para o retrocesso civilizatório.

Mas é justamente aí que mora o perigo, com o desencanto, sobretudo da juventude, com a política traduzido no antirregime, sabe-se lá que conceito é esse. Quando o povo se afasta da política, que é, em última instância, expressão da luta de classes, quem ganha terreno são os conservadores que não querem mudança, que não querem o fim da escala 6×1, que resistem à ampliação da licença paternidade, que se opõem à proteção efetiva das mulheres, das pessoas LGBTQIA+, da população negra e dos povos indígenas.

Direitos de última geração, como o combate às violências de gênero e raça, a proteção trabalhista em novas formas de trabalho, a regulação democrática das plataformas digitais, a ampliação de políticas de cuidado e o tratamento diferenciado de minorias para terem direitos iguais, precisam ser preservados e aprofundados. E novos direitos ainda estão por vir, se não deixarmos que o medo e o fundamentalismo tomem conta da esfera pública.

Ao defender o voto em Lula, também olhamos para as conquistas sociais e econômicas recentes, com os investimentos em educação, em políticas sociais e em projetos estruturantes que buscam mudar a base econômica brasileira, ainda marcada por um modelo neocolonial, primário exportador, que empobrece o país e o condena à dependência.

Somos desenvolvimentistas e dizemos isso sem rodeios, em contraponto aos monetaristas ortodoxos, voltados para os interesses do mercado e não da população. Esses defensores do Estado mínimo aparecem sempre que é para cortar benefícios sociais, mas recorrem, sem pudor, ao Estado keynesiano quando precisam de capital subsidiado, vide o papel histórico do BNDES.

Aqui mesmo, em Itabira, temos um exemplo de como funciona esse Estado mínimo para o grande capital. Na década passada, ao investir em novos processos, a Vale recorreu ao BNDES para obter um capital vultoso, da ordem de bilhões de reais, a fim de readequar as usinas Cauê e Conceição e construir uma nova planta para processar itabiritos duros e transformá-los em pellets feed. Foi esse investimento estatal, via BNDES, que viabilizou a continuidade, por mais tempo, da mineração em Itabira.

Assim como a Vale, inúmeras grandes empresas da indústria, da infraestrutura  e da energia recorrem ao BNDES para modernizar, expandir e internacionalizar seus negócios. É assim que, quando é para o grande capital, o Estado desenvolvimentista é bem vindo, mas quando é para o povo, para a educação, saúde e a cultura, aí surgem os discursos de responsabilidade fiscal seletiva.

Daí que nosso lado nessa disputa é claro e aqui expomos sem rodeios. Queremos um Estado que invista na população, que use o crédito público para transformar a estrutura produtiva, reduzir desigualdades, criar empregos de qualidade e não apenas para garantir lucros extraordinários a poucos grupos econômicos. É por isso, e muito mais, que declaramos nosso voto em Lula para a Presidência da República.

E, em Minas Gerais, declaramos também nosso apoio a Patrus Ananias, do PT, para governador, pela sua trajetória ligada à política social, à ética na vida pública e à defesa de um projeto de desenvolvimento com inclusão.

Para o Senado, apoiamos Marília Campos, do PT, cuja trajetória em gestão pública e compromisso com políticas sociais a credenciam para representar Minas em uma casa historicamente dominada por homens conservadores. Como apoiamos também Áurea Carolina, do PSOL, para a segunda vaga ao Senado, mulher negra, cientista política, com histórico de atuação na defesa dos direitos humanos, periferias urbanas e participação popular.

Essas declarações de votos não são apenas escolhas individuais, mas parte de uma disputa entre civilização e barbárie. De um lado, um campo que aposta em direitos, democracia, diversidade e desenvolvimento com inclusão. De outro, candidaturas que representam atraso, autoritarismo, fundamentalismo, a tentativa de capturar o Estado para interesses privados e, no limite, o risco de uma deriva teocrática, em que a fé é instrumentalizada para justificar retrocessos sociais e políticos.

Não cabe aqui transformar este editorial em panfleto, nem em ataque pessoal. Mas cabe dizer, com objetividade jornalística e sem falsa neutralidade, que projetos políticos alinhados ao bolsonarismo representam um retrocesso civilizatório. Ameaçam a laicidade do Estado, a pluralidade religiosa e de pensamentos, flertam com discursos de ódio, relativizam direitos humanos, desdenham da ciência e da cultura. E colocam em risco a própria ideia de democracia em permanente evolução.

Deixamos em aberto, neste editorial, a escolha dos nomes para a Câmara dos Deputados e para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais. São muitos os candidatos e candidatas progressistas, do campo da esquerda e da centro esquerda, merecedores da confiança popular.

O que nos importa, aqui, é reforçar a necessidade de fortalecer bancadas comprometidas com um novo bloco histórico, sustentado por meio de uma aliança entre trabalhadores e classe média, empresários progressistas, em contraponto ao grande capital oligopolista exportador.

É com esse bloco histórico progressista, capaz de sustentar, no longo prazo, um projeto de país mais justo, mais igual e mais democrático, que a história caminha firme e solerte, atropelando indiferente todo aquele que a negue.

E, para concluir, permita-nos um gesto de respeito, embora eu, autor destas linhas, seja ateu. Agradecemos aos bispos e cardeais católicos brasileiros que não se omitiram neste momento crucial da história do Brasil e do mundo. Ao se posicionarem contra o retrocesso fundamentalista que corre-se o risco de ocorrer com uma eventual vitória do bolsonarismo, eles também defendem a democracia, a dignidade humana e a justiça social.

A fé, quando se alia à liberdade e à defesa dos pobres, não é ameaça, mas sim uma aliada. Que Nossa Senhora, na devoção de tantos brasileiros e brasileiras, assim como todos os santos de diferentes matizes religiosas, nos proteja do risco de um Estado teocrático.

E nos inspire a escolher, nas urnas, o caminho da civilização, dos direitos e da democracia viva. E valha-nos Deus, Nossa Senhora. E valha-nos, sobretudo, a consciência política de um povo que não quer voltar atrás, retroceder na história rumo ao obscurantismo.

Carlos Alvarenga Cruz Diretor, Vila de Utopia

 

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