Instituto DataMG aponta que 82% dos itabiranos dizem que a Vale faz mais bem do que mal à cidade, em pesquisa maniqueísta
Foto: Carlos Cruz
Levantamento divulgado mostra índice recorde de aprovação da mineradora em Itabira. A pergunta binária, porém, simplifica a realidade e ignora impactos ambientais, sociais e de saúde pública vividos pela população
Mesmo que não tenha sido financiada ou solicitada pela Vale, não convém à mineradora confiar no resultado positivo divulgado pelo Instituto DataMG para validar sua imagem em Itabira.
A pesquisa, realizada entre 7 e 9 deste mês, diz que 82% dos moradores acreditam que a empresa faz mais bem do que mal à cidade. Entretanto, essa avaliação extremamente positiva, não deve ser como parâmetro para aferir sua prática ESG (Environmental, Social and Governance), conjunto de critérios para medir responsabilidade socioambiental e governança corporativa.
Isso porque a pergunta formulada é maniqueísta, reduzindo uma realidade complexa a uma escolha binária que favorece a narrativa de aprovação. A não ser que queira transformar um índice simplificado em propaganda de legitimidade social, o que teria um efeito inverso, pegando muito mal à sua imagem.
Divulgação exalta resultado
Em release encaminhado à redação deste site, o DataMG apresenta a pesquisa como um marco histórico, pelo índice alcançado, com 82% dos entrevistados afirmando que a Vale faz mais bem do que mal à cidade, o maior índice positivo desde 2006.
O texto enfatiza que, mesmo após crises e tragédias como os rompimentos de Mariana e Brumadinho, a percepção da população teria se mantido elevada, crescendo nos últimos anos.
A narrativa associa esse resultado às novas perspectivas da mineração em Itabira, destacando a ampliação da vida útil das operações até 2053 e avanços tecnológicos que reforçariam o papel da empresa como motor de desenvolvimento.
O tom do release é de exaltação, como se a aprovação fosse reflexo natural da importância da Vale para o município.
A resposta do instituto
Questionado sobre metodologia e financiamento da pesquisa, o DataMG respondeu que foi iniciativa própria, sem participação ou patrocínio da Vale.
Informou que foram realizadas 300 entrevistas, com margem de erro de 5,6% e nível de confiança de 95%, distribuídas de acordo com bairro, idade, gênero, renda e escolaridade. As entrevistas ocorreram de forma híbrida, sendo 70% presenciais e 30% online.
Disse que o tema foi escolhido por sua relevância pública e pela importância histórica da relação entre Itabira e a mineração. Afirmou ainda que a divulgação integra sua estratégia de produção e divulgação de conteúdo sobre opinião pública e realidade socioeconômica de Itabira. E que pesquisas semelhantes serão realizadas em outras cidades.
“O levantamento incluiu outras questões relacionadas ao mercado de Itabira e à opinião pública. Algumas dessas informações fazem parte da base de estudos do DataMG e de seu trabalho com clientes e, por isso, não serão divulgadas neste momento”, afirmou.
O instituto reconheceu que a pergunta sobre a atuação da Vale foi fechada e binária, sem espaço para justificativas. “Tratava-se de uma questão fechada, com as alternativas de avaliação positiva, negativa e ‘não sabe/não respondeu’”.
Crítica à formulação da pergunta
A questão central da pesquisa, se a Vale faz mais bem ou mais mal à cidade, é também maniqueísta. Ao obrigar o entrevistado a escolher entre polos opostos, elimina a possibilidade de reconhecer simultaneamente benefícios e impactos negativos.
Essa simplificação favorece respostas positivas, já que muitos moradores, mesmo críticos, não deixam de reconhecer empregos, royalties e investimentos sociais e culturais da empresa na cidade.
O resultado, portanto, não traduz a complexidade da relação da mineradora com Itabira, mas constrói uma narrativa de aprovação que serve mais ao discurso institucional do que à realidade vivida pela população.
A realidade desmente o índice de aprovação
Enquanto a pesquisa apresenta uma avaliação positiva da mineradora, moradores convivem com problemas graves decorrentes de suas atividades. A poeira lançada sobre a cidade compromete a saúde e o bem-estar da população.
A construção da Estrutura de Contenção a Jusante na barragem do Pontal tem impactado sobremaneira os bairros Bela Vista e Nova Vista, impondo restrições e transtornos à vizinhança.
O quase monopólio das águas superficiais e subterrâneas pela Vale tem provocado, historicamente, crises de abastecimento na cidade, obrigando a mineradora a firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público de Minas Gerais.
Mas mesmo assim, a transposição de água do rio Tanque que somente irá acontecer a partir do final de 2027, foi apresentada em recente evento na praça Acrísio de Alvarenga como política de relacionamento da Vale, um claro exemplo de greenwashing – prática em que empresas tentam passar a imagem de responsabilidade socioambiental sem que suas ações correspondam a compromissos reais espontâneos.
Na verdade, a empresa assume o custo dessa transposição como uma medida obrigatória já imposta, e não de iniciativa voluntária. Mas se quiser, de fato, demonstrar boa vontade, basta incluir no projeto o uso de energia limpa para equacionar o custo energético da transposição, seja por meio da instalação de uma estação eólica ou fotovoltaica, para não onerar ainda mais a população.
Esses exemplos revelam que a mineradora exerce forte impacto negativo sobre a vida cotidiana da cidade, em contraste com o índice de aprovação divulgado pelo DataMG. E esse impacto negativo não foi devidamente mensurado, não fez parte do escopo da pesquisa.
Entre narrativa e realidade
Embora o DataMG declare independência e transparência, a escolha metodológica de uma pergunta binária favorece uma narrativa positiva.
A ausência de acesso ao questionário completo e ao banco de dados limita a possibilidade de uma análise mais aprofundada e crítica.
Porém, é possível afirmar sem risco de errar, que o resultado de 82% de aprovação, mais do que refletir a opinião integral da população, traduz uma simplificação que, em tese, poderia reforçar a busca da mineradora por legitimidade em suas atividades, sem eliminar os principais impactos ambientais e de vizinhança.
A pesquisa, mesmo sem financiamento da Vale, cumpre o papel de exaltar a empresa, enquanto os problemas ambientais, sociais e de saúde pública continuam a afetar a vida dos itabiranos.
É improvável que a mineradora utilize esse levantamento como prova de sua boa imagem em Itabira, pois seria mais uma forma de propaganda enganosa. Tal uso apenas agravaria a dificuldade de recuperar sua credibilidade, já abalada por ocorrências que colocam em xeque sua condição de empresa comprometida com práticas ESG.









