Mineração automatizada chega a Itabira, enquanto produção cai e arrecadação municipal despenca
Fotos: Carlos Cruz
Mesmo com a modernização da Usina Modelo Conceição II e horizonte estendido até 2053, produção cai, arrecadação de royalties encolhe e diversificação econômica segue urgente
A apresentação da Usina Modelo Conceição II à imprensa, como parte das comemorações dos 84 anos da Vale, nascida em Itabira para explorar a hematita do Pico do Cauê, trouxe à tona uma preocupação que não pode ser deixada de lado, mesmo com o anúncio de um horizonte de exaustão mais elástico.
O relatório Form-20, entregue pela Vale à SEC nos Estados Unidos, projeta reservas até 2053. É sem dúvida uma boa notícia, mas não se trata de novidade. No início deste século, Viveiros, ex-diretor da Vale, já havia dito que Itabira teria minério para ser explorado para além de 2060.
Mas é fato que desde então, com o empobrecimento dos recursos minerais, a produção vem caindo de forma lenta e gradual. Nos anos 1970/80, Itabira chegou a produzir quase 50 milhões de toneladas anuais. Hoje, segundo o diretor de Operações do Complexo de Itabira, Diogo Monteiro, a produção deve se estabilizar pouco acima de 20 milhões de toneladas anuais.

Essa queda já impacta diretamente a arrecadação municipal. A Compensação pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem), os royalties da mineração, mostra retração desde a primeira paralisação da usina Cauê, no ano passado. E assim vai ser daqui para frente, com apenas duas usinas operando no complexo minerador local.
O ICMS, embora isento para exportação, também vem caindo, pois o seu rateio entre os municípios mineiros considera a produção local de minério de ferro. Menor produção e preços mais baixos da commodity significam menos receita para a prefeitura.
Daí que a diversificação econômica, discutida há décadas e muito pouco realizada, continua urgente. É fato que esse atraso tem um fator crucial: a escassez hídrica, decorrente do quase monopólio das outorgas ainda existentes no entorno da cidade pela mineração.
Esse gargalo deixa de existir a partir do momento, possivelmente ainda em 2027, em que a água transposta do rio Tanque comece a jorrar nas torneiras das residências e chegue também às indústrias já existentes – e às que virão.
Isso, caso haja algum tipo mais agressivo de incentivo e vantagens competitivas, como a instalação de um novo distrito industrial com infraestrutura adequada, inclusive de controle ambiental, barateando custos.
E que a cidade retorne com o seu antigo porto seco, como já existiu na pera da Esplanada da Estação, com a EFVM abrindo-se novamente para o transporte de outros produtos além do minério de ferro, como já foi no passado.
Produção em queda no complexo, mesmo com nova usina automatizada

Embora a Usina Modelo Conceição II já tenha alcançado sua capacidade nominal de 11,2 milhões de toneladas por ano, com aumento de produtividade de 25% em relação ao período anterior, a previsão para o complexo de Itabira é de queda.
Na coletiva de imprensa após a apresentação da primeira usina totalmente automatizada da Vale em Itabira, equipada com Inteligência Artificial e automação avançada, o diretor de Operações do Complexo de Itabira, Diogo Monteiro, confirmou que a produção anual do complexo minerador local ficará em torno de 20 milhões de toneladas, devendo se estabilizar nesse patamar até 2053.
“Devemos ficar em uma média de mais ou menos 20 e poucos milhões de toneladas de produção anual. Vai ter ciclos com mais oferta e outros com menos, dependendo do sequenciamento de lavra e dos licenciamentos”, explicou.
Monteiro lembrou que a usina Cauê foi paralisada para adequações e só deve voltar a operar em 2029. Na sequência, mesma adequação será feita na usina Conceição II, essa mesma que foi automatizada, enquanto a usina Conceição I, em operação desde 1978, será desmontada para permitir a extração do minério que está abaixo da estrutura, como parte da ampliação da cava da mina homônima.
“Daqui para frente, Itabira terá apenas duas usinas em operação”, confirmou o diretor da Vale.
Segundo ele, a usina Cauê, primeira construída pela companhia com tecnologia alemã na década de 1970, será também a última a apagar as suas luzes, encerrando suas atividades ainda neste século, inexoravelmente.
Pellet-feed e sinter-feed

O produto principal de Itabira continuará sendo o pellet-feed, de grande procura pela siderurgia com menor consumo de carvão e assim contribuindo para o processo de descarbonização. “É um produto que tem um prêmio (maior preço) associado pela qualidade”, disse Diogo Monteiro, lembrando que o mercado paga mais por minérios com teor acima de 62% e 65%.
Segundo ele, o complexo de Itabira continuará produzindo o sinter feed, obtido da hematita remanescente, mas em menor volume. Hoje, segundo Monteiro, são cerca de 4 milhões de toneladas por ano, em um processo simplificado, sem necessidade de moagem, apenas britando e peneirando o minério a seco, sem necessidade de concentração.
“Nossa produção de sinter-feed deve se manter até 2053, variando entre 2 e 4 milhões de toneladas anuais, conforme o sequenciamento da lavra”, explicou.
Quanto ao futuro aproveitamento dos rejeitos das barragens, Monteiro destacou ainda que as usinas estão sendo preparadas para esse fim. “Nós estamos fazendo um processo de transição, e de licenciamento. As usinas estarão preparadas para recuperar o rejeito”, disse.
Para André Viana, presidente do Metabase, presente na apresentação da nova usina automatizada, o avanço tecnológico é positivo, mas exige cautela.
“É o futuro da mineração acontecendo aqui agora, em Itabira, berço da Vale que continua apresentando inovações tecnológicas e avançando nesse novo modelo de mineração circular e sustentável. Mas precisamos pensar no futuro da cidade para além da mineração”, disse.
Ele reforçou que a usina Cauê ficará hibernada até 2029 e que com isso a produção local será limitada. “É um salto importante, mas precisamos ter clareza de que Itabira terá apenas duas usinas em operação. É preciso pensar no futuro da cidade para além da mineração”, reforçou.
Empregos e qualificação

Conforme foi mostrado, a modernização da Usina Modelo Conceição II, com emprego de Inteligência Artificial e automação, provocou mudanças significativas no perfil da mão de obra.
“Nós não desligamos ninguém nesse processo. Houve substituição e qualificação. Hoje, empregos diretos, dentro da diretoria de operação, são 2.900 empregados próprios. Somando parceiros e outras áreas, chegamos a cerca de 10 mil empregos diretos e indiretos”, disse Diogo Monteiro.
Nessa soma entram também os postos de trabalho sazonais, como os que foram abertos para as obras de transposição de água do rio Tanque, para abastecer a cidade. “Esses empregos vão, outros são abertos”, explicou.
Ele destacou que 122 trabalhadores foram capacitados, com mais de 2.800 horas de treinamento para ocuparem novas funções na usina automatizada. E que parcerias com universidades, como a Unifei, ajudam a formar a força de trabalho do futuro.
O diretor de Tecnologia e Engenharia Industrial, Carlos Eduardo Boechat, reforçou a importância dessa mudança. “É fundamental ter conhecimento do processo produtivo, mas também das tecnologias digitais, como inteligência artificial. Treinamos 122 pessoas nessas tecnologias”, afirmou.
Boechat acrescentou que a Vale investe cerca de R$ 2 bilhões por ano em pesquisa e desenvolvimento, sendo R$ 200 milhões aplicados apenas na Usina Modelo de Itabira.
“Nosso objetivo é replicar soluções de automação e digitalização em outras unidades, portos e ferrovias. A mineração do futuro precisa ser construída no presente, com aprendizados do passado”, salientou.
“A gente fala muito da mineração do futuro, mas estamos atuando no presente com os aprendizados do passado”, afirmou.
Ainda segundo ele, a Vale pretende replicar soluções de automação e digitalização em outras unidades, portos e ferrovias. “Caminhões autônomos, já usados em Carajás, não estão previstos para Itabira devido às condições geométricas da mina”, complementou Diogo Monteiro.









