Morre Dona Rosinha, escritora e líder comunitária do Quilombo Morro de Santo Antônio

Em destaque, o escritor Fabiano Piúba, e as escritoras Conceição Evaristo, Dona Rosinha e Luana Tolentino, no 5º Festival Literário Internacional de Itabira

Fotos: Carlos Cruz

Mulher de voz firme e coração generoso, Dona Rosinha dedicou sua vida à defesa dos mais carentes, ao fortalecimento da identidade quilombola e à preservação da memória coletiva de Itabira

Com tristeza, Itabira se despede de uma de suas mais importantes lideranças comunitárias. Faleceu aos 67 anos, nesta sexta-feira (5), a escritora e líder comunitária Rosemary Alvares de Souza, a Dona Rosinha do Quilombo Morro de Santo Antônio.

Nascida em 29 de março de 1959, no Morro de Santo Antônio, comunidade rural de Itabira, Dona Rosinha teve sua infância marcada pela generosidade e aprendizagem pela oralidade e pelas histórias transmitidas pelos mais velhos, que mais tarde se tornariam matéria-prima de sua escrita memorialística.

As dificuldades enfrentadas pela comunidade, a vida simples, as brincadeiras de criança, essas memórias, guardadas por décadas, foram transformadas em literatura no livro Memórias do Meu Quilombo.

Liderança comunitária

Mas foi como liderança comunitária que Dona Rosinha se tornou referência em Itabira. Presidiu por dois mandatos a Associação dos Moradores do Quilombo Morro de Santo Antônio – e também a Interassociação dos Amigos de Bairros de Itabira.

Sempre presente nos principais acontecimentos comunitários e políticos na cidade, nunca deixou de se posicionar com firmeza na defesa da população mais carente.

Sua atuação foi decisiva para que o Morro Santo Antônio fosse reconhecido oficialmente como comunidade quilombola, garantindo direitos e visibilidade às raízes negras do município de Itabira.

Em entrevista a este site Vila de Utopia, ela afirmou: “Sou o que nós somos.”

Esse reconhecimento foi resultado de anos de mobilização e resistência, em que Rosinha se destacou como uma das principais vozes da comunidade que resiste e luta por seus direitos.

Em 12 de maio deste ano, em uma de suas últimas aparições públicas, no plenário da Câmara Municipal, quando se discutia o projeto de habitação popular, Dona Rosinha, emocionou o público ao contar a sua experiência em Belo Horizonte, quando viveu em uma residência alugada, enfrentando atraso de pagamento e dificuldades para sustentar o filho pequeno.

“Eu sei o que é receber a chave de uma casa simples, mas definitiva. É a diferença entre viver na incerteza e ter um lar”, disse.

Ela lembrou que ao fim da vida, rico ou pobre, todos acabam lado a lado no cemitério, como ela viu na crise sanitária com a Covid-19. “Na vida também não deve haver segregação. A moradia é um direito que iguala as pessoas.”

Dona Rosinha lembrou, em reunião na Câmara, que a moradia é um direito de todos que iguala as pessoas

 

A escritora descoberta por Conceição Evaristo

O ápice da trajetória recente de Dona Rosinha foi o lançamento do livro Memórias do Meu Quilombo, em outubro de 2025, durante o 5º Festival Literário Internacional de Itabira.

O teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade ficou lotado, tomado por uma emoção rara ao ver uma liderança comunitária, até então conhecida pela militância, estrear como escritora.

A obra reúne 16 narrativas curtas, escritas em cadernos ao longo de anos e transcritas por seu filho Vinicios. São histórias de infância, lembranças de luta, episódios de resistência e a força da ancestralidade quilombola.

A descoberta literária de Dona Rosinha se deu pelas mãos da escritora Conceição Evaristo, que assina o prefácio.

Em visita ao quilombo, Evaristo se deparou com os cadernos manuscritos e reconheceu ali uma voz que precisava ser publicada. “Ela (Dona Rosinha) estava com o caderno, falando da vida. Quando li, vi que ali havia um eu coletivo. A história dela é a história do povo, é a nossa história.”

Mais do que relatos pessoais, suas lembranças são registros coletivos, que preservam a memória de uma comunidade inteira.

“Para nós que viemos das classes populares, escrever é uma audácia. Nós tomamos a vida a pé e a corpo, e tomamos também a escrita assim: a pé e a corpo”, acrescentou Conceição Evaristo.

Na roda de conversa com o lançamento do livro, o gestor cultural Fabiano Piúba destacou o alcance da obra. “Foi uma ponte de afetos e bibliodiversidade. Que bom termos no Brasil uma editora como a Pallas, que acolhe vozes como a de Dona Rosinha.”

A educadora e escritora Luana Tolentino resumiu o impacto de sua obra, na mesma festa literária que foi o seu lançamento. “Sua literatura é um ato de liberdade.”

Emocionada, Dona Rosinha deixou registrado com humildade. “Tudo que eu não senti antes, estou sentindo agora. É uma honra, uma coisa que eu jamais imaginei acontecer na minha vida, eu me tornar escritora.”

A estreia literária de Dona Rosinha foi celebrada como um marco de resistência cultural e como prova de que a escrita pode nascer da vida cotidiana, da oralidade e da memória coletiva.

Dona Rosinha e Conceição Evaristo: memória, afeto e escrevivência em diálogo
Reconhecimento oficial e homenagens

O prefeito Marco Antônio Lage lamentou profundamente a perda.

“Dona Rosinha foi uma das maiores lideranças comunitárias da nossa cidade. Sua partida é uma perda incomparável para Itabira. Ela nos deixa um legado de luta, coragem e amor pela comunidade.”

Outros líderes comunitários também se manifestaram. Para eles, Dona Rosinha representava a voz firme e ao mesmo tempo afetuosa que nunca se calava diante das injustiças. Sua presença era sinônimo de resistência e esperança.

Despedida

É assim que Itabira se despede de uma mulher que fez da vida uma trincheira de luta e solidariedade.

Dona Rosinha deixa um legado de coragem, humanidade e memória que seguirá inspirando gerações.

O velório acontece neste sábado (6), das 8h às 14h, inicialmente na Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade.

Em seguida, das 14h30 às 16h30, o corpo será velado na Igreja de Santo Antônio, com sepultamento no cemitério da comunidade quilombola do Morro de Santo Antônio.

 

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