Trabalho de conclusão de curso de arquiteto é destaque, mas Prefeitura já tem outro projeto para o casarão do antigo HNSD

Patrimônio tombado em 1988, o casarão da rua Major Paulo segue há anos em abandono. Projeto acadêmico propõe transformá-lo em centro cultural com espaço para música, praças e jardins, mas Prefeitura dispõe de outro projeto com biblioteca, com expectativa de repasse de recursos pela Vale via Lei Rouanet, dentro do programa Itabira Sustentável

Foto: Carlos Cruz

Na rua Major Paulo, nº 45, o casarão do antigo Hospital Nossa Senhora das Dores, tombado em 1988 e considerado o maior exemplar da arquitetura colonial de Itabira, encontra-se abandonado — e com sucessivas tentativas e promessas de restauração até aqui sem sucesso. Construído no século XIX, o histórico casarão abrigou o primeiro hospital da cidade, inaugurado em 1859, e mais tarde foi sede de órgãos públicos.

Um relatório de vistoria de 2021, realizado pela Diretoria de Patrimônio Histórico e Cultural, descreve o imóvel em estado precário de conservação. Obras de reparo foram iniciadas em 2014, paralisadas em 2015 e retomadas em 2016, mas foram novamente interrompidas.

Embora laudos técnicos garantam que não há perigo imediato de ruína, o abandono expõe o sobrado a vários riscos, como incêndios e invasões. “A continuidade das obras se faz necessária para garantir a integridade física da edificação”, recomendou o documento técnico.

Essas interrupções são também destacadas pelo arquiteto Guilherme Almeida Garcia, que apresentou à Prefeitura de Itabira, em seu trabalho de conclusão de curso em Arquitetura, pela Universidade Federal de Viçosa, uma proposta de restauração do casarão, reforçando a urgência de medidas imediatas para que o imóvel não se transforme em mais uma perda incomparável na memória da cidade.

TAC ainda não foi cumprido

O casarão está incluído no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado pela Prefeitura de Itabira com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por meio da Curadoria do Patrimônio Histórico, que obriga a administração municipal restaurar o imóvel, um compromisso que, até hoje, não foi cumprido.

A urgência é reforçada pela lembrança de outras perdas. O histórico sobrado do antigo ginásio Sul-Americano, onde Drummond lecionou, foi literalmente tombado ao chão nos anos 1980 — uma perda irreparável pela incúria da administração municipal, mesmo após sucessivos alertas sobre o risco de colapso publicados pelo jornal O Cometa. O temor ainda existente é que o casarão do hospital siga o mesmo destino e se torne mais uma dessas “perdas incomparáveis” que marcam tristemente a história de Itabira.

Projeto de restauração e ressignificação

O arquiteto Guilherme Garcia apresentou em seu TCC uma proposta que vai além da restauração física. Segundo o seu projeto, trata-se de restaurar o casarão e reintegrá-lo ao centro histórico como espaço cultural vivo, articulando memória, formação artística e ocupação contínua.

O projeto prevê sala de concertos no subsolo, com solução acústica integrada à estrutura existente, além de espaços para ensaios diversos e aulas de música, acolhendo bandas, corais e projetos pedagógicos.

Inclui também auditório, café e áreas de exposição para programação regular. Praças e jardins integrados completam o conjunto, preservando a vegetação e criando áreas de convivência que conectem o sobrado às ruas do entorno, reintegrando-o ao centro histórico como local de visitação, cultura e conhecimento.

Para além do desenho arquitetônico, o TCC destaca modelos de gestão e de uso que evitam o ciclo de restauros sem vida, propondo calendário contínuo de atividades, parcerias com coletivos e escolas, uso compartilhado por iniciativas independentes e equipamentos públicos.

Reconhecido pela qualidade, o trabalho foi finalista do Prêmio Vanguarda 2025, promovido pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Minas Gerais.

Mesmo que não venha a ser executado, o projeto acadêmico tem peso simbólico e prático ao comprovar a viabilidade técnica da restauração, além de organizar um roteiro de ocupação cultural, apontando caminhos objetivos para devolver função ao patrimônio.

Ao expor soluções possíveis, evidencia ainda mais o contraste com o abandono prolongado. E reforça a mobilização de moradores, instituições e do poder público para que a revitalização do centro histórico deixe de ser promessa, para que volte a pulsar como espaço de efervescência cultural e memória viva de Itabira.

Projeto do arquiteto Guilherme Almeida Garcia prevê a ocupação de áreas anexas com praças e jardins integrados (Imagem: Reprodução)
A posição da Prefeitura

O prefeito Marco Antônio Lage (PSB) recebeu o projeto de Guilherme em reunião no Paço Municipal Juscelino Kubitscheck. “É um excelente trabalho, muito bem resolvido”, ele disse à reportagem deste site.

Lage reconhece a proposta como criativa e tecnicamente consistente, mas lembra que o município já tem outro plano em andamento para a restauração e ressignificação do casarão.

“O projeto do Instituto Pedra, que a Vale está bancando, está pronto para captar recursos pela Lei Rouanet. O casarão será ocupado por uma biblioteca com 42 mil volumes, com reforço estrutural específico para o peso dos livros”, disse ele, prevendo também novos ocupações em seu entorno.

Segundo o prefeito, a obra de restauração está prevista para começar em 2026. Ele sublinha que a proposta não se limita ao casarão.

“Estamos negociando a revitalização de todo o centro histórico. É um projeto robusto, orçado em R$ 56 milhões, que inclui fiação subterrânea, reforma de casarões históricos e tombamento do núcleo histórico, como parte do projeto Itabira Sustentável, preparando a cidade para o pós-mineração.”

O prefeito enfatiza ainda que “não basta restaurar, é preciso ocupar esses espaços arquitetônicos, como meio de revitalizar o nosso centro histórico”, apontando a necessidade de programação, gestão e parcerias para que os imóveis não voltem ao estado de abandono após o processo de revitalização.

Depois de conhecer a proposta do arquiteto, a promotora Giuliana Fonoff, presente na reunião com o prefeito, também teria se manifestado favoravelmente ao projeto de Guilherme, reforçando a cobrança ministerial pela restauração do casarão, prevista em TAC assinado ainda no governo Ronaldo Magalhães.

Projeto arquitetônico de restauração do casarão histórico do HNSD é apresentado pelo arquiteto Guilherme Garcia ao prefeito e sua equipe, com a participação da promotora Giuliana Fonoff, curadora do Patrimônio Histórico e Arquitetônico (Foto: Divulgação)
Itabira Sustentável e o pós‑mineração

O programa Itabira Sustentável, citado pelo prefeito, integra obras de infraestrutura, restauro e política de tombamento, entre outras. É apresentado como instrumento de transformação para reposicionar a cidade na transição econômica frente à iminente exaustão de suas minas de minério de ferro.

Nesse contexto, a restauração e revitalização de casarões históricos funcionarão como alavanca de turismo cultural, com ênfase no legado de Drummond —  e em experiências que aproximem visitantes do clima da Itabira antiga — não como cenário estático, mas como museu vivo de reminiscências que remetem aos tempos do “menino antigo”.

Se a Vale de fato, e não de ficção, financiar a revitalização do centro histórico por meio da Lei Rouanet e de parcerias, será uma demonstração de que o investimento não é maquiagem de marketing cultural, mas ação concreta de resgate diante das “perdas incomparáveis” que se acumularam na cidade, inclusive com a retirada das hematitas que calçavam as ruas do centro histórico.

A expectativa expressa pelo prefeito de se ter um “case de sucesso” nesse resgate passa por entregar obras, garantir ocupação por meio da economia criativa, beneficiar o comércio do centro e consolidar rotas drummondianas. Há ainda a possibilidade de ocupar alguns casarões com repúblicas de estudantes da Unifei, a exemplo do que já ocorre em Ouro Preto.

Memória e futuro

Entre o trabalho acadêmico do arquiteto Guilherme Garcia e o plano oficial da Prefeitura, o casarão do antigo hospital permanece como símbolo da disputa entre memória e futuro.

A urgência apontada pelos laudos, pelo TAC do MPMG e pela experiência recente de restauros sem ocupação reforça que, mais do que planos, é preciso ação imediata de restauros.

E também com critérios claros de uso para evitar que o maior exemplar da arquitetura colonial da cidade se transforme em mais uma perda incomparável — como Drummond definiu as ausências que marcam Itabira. E, ainda, para deixar de ser apenas “uma fotografia na parede”.

A oportunidade é agora: transformar o sobrado em referência de revitalização inteligente, com restauro e ressignificação, uso futuro apropriado, gestão e ligação em rede com outros casarões.

Isso para que o centro histórico se torne destino vivo na transição para o pós‑mineração, consolidando Itabira como cidade da memória e da cultura, capaz de reinventar-se além da mineração.

Outros casarões e a memória viva

O abandono do casarão do hospital não é caso isolado em Itabira. Como esse site Vila de Utopia vem registrando, há imóveis históricos já restaurados ou em processo de recuperação que ainda carecem de ocupação efetiva para que a memória se transforme em experiência cotidiana.

Na rua Tiradentes, por exemplo, dois casarões foram restaurados com recursos dos proprietários: o de nº 289, onde residiu o inventor Chico Zuzuna, e o de nº 290, em frente, que foi residência de Carlos Drummond de Andrade e de Dolores Dutra em sua breve passagem por Itabira, como professor do antigo ginásio Sul-Americano.

Ao lado, encontra-se outro casarão, restaurado pelo proprietário Marconi Ferreira (in memoriam), que preserva a memória de Antonio Alves de Araújo, o Tutu Caramujo, ex-presidente da Câmara Municipal e, por consequência, prefeito desta urbe entre 1869 e 1872 , imortalizado no poema Itabira, de Carlos Drummond de Andrade. “Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma com a derrota incomparável.”

Outra restauração importante foi a do antigo armazém Sampaio, na mesma rua Tiradentes, também pelos proprietários, mas que ainda carece de uma ocupação à altura de sua relevância histórica.

O mesmo ocorre com os sobrados da Praça do Centenário, incluindo a Casa de Drummond, onde o poeta passou a infância. E que hoje abriga exposições e visitas, já demonstrando o potencial de uso cultural e educativo.

Turismo lítero-cultural Drummondiano

Outros exemplos reforçam que restauro sem ocupação tende a transformar casarões em espaços de abandono. É o caso do sobrado da rua Tiradentes, nº 55, que pertenceu ao escritor e historiador João Camilo de Oliveira Tôrres (1915–1973), restaurado pela administração de Ronaldo Magalhães em 2020, mas que permanece desocupado até hoje.

Situações como essa evidenciam a necessidade de uma legislação municipal que permita ao Executivo desapropriar imóveis restaurados e sem uso, em nome do interesse social, histórico e cultural da cidade.

Ao inserir o casarão do HNSD nesse mosaico de bens históricos e arquitetônicos, e com a revitalização urgente do centro histórico, fortalece-se a ideia de rede com lugares conectados por rotas para percorrer a pé, com sinalização qualificada, mediação cultural e calendário contínuo, revitalizando também os Caminhos Drummondianos.

Tudo isso favorece o turismo lítero-cultural drummondiano como alternativa econômica real para Itabira. E, sobretudo, viabiliza a ocupação desses espaços — condição indispensável para que qualquer projeto seja sustentável no longo prazo.

Acesse aqui o projeto Sala Mineral_Premio Vanguarda (1), do arquiteto Guilherme Garcia

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10 Comentários

  1. Ao ler a reportagem, fiquei preocupada com o destino do antigo HNSD, caso seja reformado. Considero que o prédio não é adequado para abrigar uma biblioteca, pois, por ser antigo, está sujeito à deterioração dos livros, como a ação de traças, além de o peso de uma biblioteca ser significativo e pode causar transtornos. Gostei do projeto do arquiteto Guilherme Almeida Garcia e de sua proposta de utilização.

  2. O projeto do Guilherme merece mais carinho da prefeitura, a ideia de promover não só a renovação da estrutura física, mas também da ocupação do espaço é essencial para a real renovação do centro histórico da cidade

  3. É uma pena ver a Prefeitura ignorar um projeto tão completo como o do Gui Garcia para manter algo já engessado. A proposta dele dialoga muito melhor com a vocação cultural do casarão

  4. Apesar de a proposta de uma biblioteca ser sempre um uso nobre, é triste perceber que uma oportunidade de ressignificar uma edificação de enorme valor simbólico está sendo desperdiçada. Apenas atribuir um novo uso a um prédio não garante sua revitalização, o que realmente o reintegra à cidade é inseri-lo de forma viva e relevante na cena cultural local.

  5. Um projeto elaborado com tanto cuidado, sensibilidade e respeito ao contexto local, que reconhece o valor histórico e simbólico do casarão para o município e sua população, mereceria maior atenção e reconhecimento por parte do poder público. A definição de um novo uso para uma edificação dessa relevância exige estudo, diálogo e responsabilidade. Decisões tomadas de forma apressada, motivadas apenas por pressões burocráticas ou pelo repasse imediato de verbas geralmente desconsideram o verdadeiro potencial cultural e comunitário da edificação. Espero que a decisão seja melhor debatida para que atenda os reais interesses da população!

  6. Primeiramente parabenizo o arquiteto Guilherme pelo cuidado e sensibilidade ao escolher um patrimônio histórico como tema para seu projeto de TCC. O casarão reflete a memória da cidade e faz parte da história da população de Itabira, e Guilherme faz uso da arquitetura justamente para resgatar isso, dar um novo significado e um novo uso relevante.
    Ademais, sua proposta vai muito além do restauro e da atribuição de um novo uso, seu projeto é fruto de muitos estudos e revisões, oferecendo uma alternativa adequada para transformar um imóvel em um espaço cultural, de convivência e de valorização da identidade local coletiva.
    Essa mensagem é uma solicitação, para que a prefeitura de Itabira considere sua proposta a fim de obter um projeto que respeite a memória e seja capaz de atender demandas sociais e culturais de Itabira.

  7. Curioso como um projeto tão cuidadosamente pensado quanto o do arquiteto Guilherme consegue chamar tanta atenção… exceto, é claro, da própria Prefeitura. Parece que estudo, sensibilidade e compreensão do valor histórico de um casarão não são tão atraentes quanto decisões apressadas tomadas no piloto automático. Mas quem sabe, um dia, alguém no poder público perceba que revitalizar um patrimônio não é só “colocar algo dentro dele”, e sim devolver vida, significado e função ao espaço. Até lá, seguimos acompanhando essa impressionante demonstração de prioridades.

  8. A proposta do Arquiteto Guilherme Garcia traz um uso cultural e misto para o espaço, o que evidencia a potencialidade do projeto, proporcionando para a cidade um espaço cultural para as apresentações da Orquestra- demanda essa existente-, espaços de encontros e requalificação do entorno com a praça pública. Gerando assim, espaços de encontros, efervescência cultural e pluralidades. Seria importante a consulta a população para o destino do antigo hospital, uma vez que essa será a beneficiada e usuária do espaço.

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