Wisnik traz a leitura de Drummond e a mineração para o Flitabira 2026, que ocupa Itabira com programação monumental e celebra os 75 anos de Claro Enigma
José Miguel Wisnik e Kristoff Silva já se apresentaram em Itabira, em 29 de outubro de 2018, com palestra-show na 17ª Semana Drummondiana, no teatro da FCCDA
Foto: Carlos Cruz/ Acervo: Vila de Utopia
Festival reúne grandes nomes da literatura, homenagens à cultura negra itabirana, espetáculo em Libras, livraria com mais de 5 mil títulos, gastronomia, coreto musical e espaço para empreendedores entre 29 de outubro e 1º de novembro, com todas as atividades gratuitas
A sexta edição do Festival Literário Internacional de Itabira (6º Flitabira) tem como uma de suas atrações a presença de José Miguel Wisnik, jornalista, escritor, poeta, músico e autor de uma das leituras mais profundas da obra de Carlos Drummond de Andrade e de sua relação com a mineração.
Wisnik retorna a Itabira para ampliar esse diálogo e, mais uma vez, também para se apresentar ao lado do músico Kristoff Silva, que já integrou o corpo docente da Escola Livre de Música da cidade, criando uma ponte afetiva entre o Festival, a formação musical local e a obra drummondiana.
Autor de A Maquinação do Mundo – Drummond e a Mineração, Wisnik oferece uma das interpretações mais contundentes sobre como a mineração impacta a vida, a poesia e a memória de Drummond. No livro, ele analisa a tensão entre o poeta e sua cidade natal, marcada pela extração mineral que molda o território, a economia e o imaginário coletivo.
Wisnik parte de imagens emblemáticas, como “a fotografia na parede” e “a montanha pulverizada”, para mostrar como Drummond transforma a paisagem devastada em matéria poética, revelando o conflito entre pertencimento e crítica, entre a memória afetiva da infância e a percepção adulta da destruição, do minério levado para além-mar depois de seguir para o Espírito Santo, levado pelo maior trem do mundo.
A obra demonstra que a “máquinação” não é apenas econômica ou geológica, mas simbólica. Isso, uma vez que reorganiza o mundo, a cidade e o próprio sujeito, deixando marcas que o poeta nunca abandona. Ao iluminar essa relação, Wisnik ajuda a compreender Itabira como espaço físico e também como metáfora da modernização que corrói, ao mesmo tempo em que sustenta, a vida mineira – e, em particular, a itabirana.
É a partir desse encontro e de muitos outros que acontecerão que o Flitabira 2026 se expande pela cidade entre 29 de outubro e 1º de novembro, ocupando o teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA) – e parte da avenida Daniel de Grisolia com mesas literárias, debates, gastronomia, coreto musical, espaço para empreendedores, exposição de autocaricaturas e uma livraria monumental com mais de 5 mil títulos. Tudo com entrada gratuita.
A Máquina do Mundo em Nós: o poema que estrutura a edição

Com o tema “A Máquina do Mundo em Nós”, o Festival celebra os 75 anos da publicação de Claro Enigma e coloca em destaque o poema “A Máquina do Mundo”, considerado o mais belo da língua portuguesa.
As mesas e palestras são transmitidas ao vivo pelo YouTube @flitabira, com autodescrição e Libras, reforçando o compromisso do evento com acessibilidade.
O 6º Flitabira tem patrocínio master da Vale via Lei Rouanet, apoio da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Itaú.
Programação reúne grandes nomes da literatura brasileira e internacional
A curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, com programação local de Sandra Duarte e Carolina Peixoto e curadoria infantojuvenil de Rafael Nolli, constrói uma edição marcada pelo equilíbrio de gênero e diversidade racial.
Entre os nomes confirmados estão Ale Santos, Alexandre Porto Vidal, Carla Akotirene, Conceição Evaristo, Fabrício Carpinejar, Geni Núñez, Geraldo Carneiro, Hugo Ferreira Monteiro, Isa Souza, José Miguel Wisnik, Lavínia Rocha, Leda Maria Martins, Maria Esther Maciel, Maria Mazzarello, Marcelino Freire, Pedro Bial, Pedro Drummond, Pétala Souza, Rafael Nolli, Ricardo Aleixo, Rita Von Hunty, Sérgio Abranches, Verenilde Pereira e o convidado internacional Roberto Parmeggiani, da Itália.
A programação, assegura seus organizadores, é construída a partir de uma diretriz curatorial permanente de equilíbrio de gênero e diversidade racial, alinhada aos princípios ESG e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
Patronas e homenageadas: trajetórias que ampliam a memória e a presença da cultura negra
O Festival celebra mulheres que representam diferentes dimensões da produção intelectual e cultural negra. As itabiranas Dona Tita e Dona Rosinha, falecidas em junho, são as patronas desta edição.
Moradoras do Quilombo Morro Santo Antônio, tornaram-se referências de resistência, ancestralidade e atuação comunitária. Dona Rosinha, autora de Memórias do meu Quilombo, tem sua obra destacada na mesa “Homenagem a Dona Rosinha e Dona Tita”, na sexta-feira, 30 de outubro, às 21h15, com participação de Conceição Evaristo e familiares.
Entre as homenageadas estão também Maria Mazzarello, fundadora da Mazza Edições; Conceição Evaristo, cuja obra articula escrita, memória e identidade; e Leda Maria Martins, poeta, dramaturga e pesquisadora que aprofunda a relação entre cultura negra, ancestralidade, oralidade e performance. As três participam da mesa “Leitura, Antirracismo e os Novos Tempos”, no sábado, 31 de outubro, às 20h.
31 de outubro, aniversário do poeta: Drummond, Wisnik e Kristoff Silva
No dia em que Carlos Drummond de Andrade completaria 124 anos, o Flitabira dedica sua programação ao diálogo entre literatura e música.
Às 21h, José Miguel Wisnik e Kristoff Silva participam da mesa “A Máquina do Mundo em Nós”, com mediação de Sérgio Abranches, ampliando a leitura do poema que inspira o Festival e suas relações com a criação artística contemporânea.
A presença de Wisnik, que analisa Drummond e a mineração em sua obra ensaística, e de Kristoff Silva, que tem história com a formação musical de Itabira, transforma o encontro em um dos momentos mais simbólicos da edição.
O poema que estrutura o Festival
“A Máquina do Mundo”, publicado em Claro Enigma, dialoga com Cícero, Dante e Camões para refletir sobre a tentativa humana de compreender o todo – uma “total explicação da vida” oferecida ao caminhante numa estrada de Minas, e que ele recusa.
A imagem da máquina, não tecnológica, abre espaço para debates sobre vida, amor, morte, memória, política, natureza, conhecimento e mistério. Cada escritor convidado apresenta sua própria leitura dessa máquina, propondo interpretações do mundo contemporâneo.
Espaços do Festival: literatura, convivência e circulação
Durante quatro dias, o Teatro da FCCDA recebe mesas de debate e encontros de hora em hora, reunindo escritores, intelectuais, pesquisadores e artistas.
Na avenida Daniel de Grisolia, em frente ao teatro, são instaladas a Livraria do Flitabira, a Central de Autógrafos e o Flitabira da Gente, formando um espaço de circulação permanente.
O público encontra livros dos convidados, participa de lançamentos, conhece autores independentes e locais. E visita a exposição “Autorretratos de Drummond” , e circula entre empreendedores, artesãos e gastronomia.
Central de Autógrafos: encontro direto entre autores e leitores
Após cada mesa, os escritores seguem para a Central de Autógrafos, aproximando o palco da Livraria e prolongando a conversa iniciada no Teatro.
O espaço também recebe autores de todo o Brasil mediante inscrição gratuita, permitindo que lancem e vendam seus livros sem taxas ou comissões.
Desse modo, a Central se consolida como um dos ambientes mais democráticos do Festival.
Dança, poesia e Libras: a estreia nacional de “Claro Enigma – em Libras”
O Grupo de Dança Primeiro Ato apresenta a estreia nacional do espetáculo “Claro Enigma – em Libras”, dirigido por Suely Machado e idealizado por Pedro Drummond.
A montagem transforma a Língua Brasileira de Sinais em linguagem coreográfica, fazendo da acessibilidade parte central da criação artística e ampliando o diálogo entre literatura, dança e inclusão.
Flitabira nas Escolas e o Prêmio de Redação e Desenho
O Festival realiza o tradicional Prêmio de Redação e Desenho, que nesta edição adota o tema “A Máquina do Mundo em Nós”, o mesmo tema do festival.
Estudantes das redes pública e privada, de 4 a 18 anos, além de alunos da EJA e estudantes PCDs não alfabetizados, são convidados a escrever e desenhar a partir do universo drummondiano.
Diferentes categorias são premiadas em dinheiro O prêmio oferece categorias diversas, com prêmios em dinheiro e reconhecimento aos professores orientadores.
O Flitabira nas Escolas amplia essa aproximação com a distribuição de exemplares de Claro Enigma, encontros entre escritores e estudantes e atividades preparatórias sobre Drummond.
Já a programação infantojuvenil terá atividades próprias para crianças e jovens, com autores, ilustradores, contação de histórias, oficinas e formação de leitores.
Exposição “Autocariaturas de Drummond”
A Livraria do Flitabira abriga a exposição “Autocaricaturas de Drummond”, com desenhos, perfis, caricaturas e autorretratos produzidos pelo poeta em papéis avulsos, cartas, manuscritos e cadernos.
Parte do acervo é preservada por seu neto, Pedro Drummond, que assina a curadoria da exposição. A mostra revela uma faceta pouco conhecida do autor e amplia o diálogo entre literatura, artes visuais e memória.
Ao integrar literatura, artes visuais e memória, a exposição amplia as possibilidades de leitura do universo do poeta e integra a programação oficial do Festival.
A seguir, confira a programação, passível de reparos, até a data do evento:
6º. FLITABIRA 2026 – Programação
A MÁQUINA DO MUNDO EM NÓS
75 anos do livro “Claro Enigma’, de Drummond
Patronas: Dona Tita e Dona Rosinha
Personalidades Homenageadas: Maria Mazzarelo, da Mazza Edições, Conceição Evaristo e Leda Maria Martins
QUINTA-FEIRA – 29 DE OUTUBRO
18h – Abertura
Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges
18h30 – Tema: Corpos Narrados
Convidada: Rita Von Hunty
Mediação: Calila das Mercês
19h30 – Tema: Encruzilhadas Negras
Convidado: Carla Akotirene
Mediação: Afonso Borges
20h30 – Tema: Poesia e Amor no Cotidiano
Convidado Fabricio Carpinejar
Mediação: Sérgio Abranches
SEXTA-FEIRA – 30 DE OUTUBRO
17h – Tema: Outros Mundos
Convidado: Geni Núñez
Mediação: Ale Santos
18h – Tema: A Palavra e o Mundo
Convidado: Geraldo Carneiro e Maria Esther Maciel
Mediação: Marcelino Freire
19h – Tema: Corpo e Palavra
Convidado: Ricardo Aleixo e Leda Maria Martins
Mediação: Natália Alves
20h – Tema: Claro Enigma e A Máquina do Mundo
Convidado: Pedro Bial e Pedro Drummond
Mediação: Calila das Mercês
21h– Tema: Homenagem a Dona Rosinha e Dona Tita
Convidada: Conceição Evaristo e representantes das famílias.
Mediação: Sérgio Abranches
22h – Espetáculo “Claro Enigma” em Libras
Convidado: Grupo de Dança Primeiro Ato
SÁBADO – 31 DE OUTUBRO
14h – Tema: Vidas Escritas
Convidado: Alexandre Porto Vidal
Mediação: Marcelino Freire
15h – Tema: Juventude Ferida
Convidado: Hugo Ferreira Monteiro
Mediação: Carlos Vinícius
16h – Tema: Vozes Jovens
Convidado: Pétala Souza e Isa Souza
Mediação: Goka Maciel
17h – Tema: Amazônia Ancestral
Convidado: Verenilde Pereira
Mediação: Calila das Mercês
18h – Tema: Outras Diferenças
Convidado: Roberto Parmeggiani
Mediação: Geni Núñez
19h – Tema: Literatura, Futurismo e Política
Convidado: Ale Santos e Sérgio Abranches
Mediação: Marcelino Freire
20h – Tema: Leitura, Antirracismo e os Novos Tempos
Convidadas: Conceição Evaristo, Maria Mazzarelo e Leda Maria Martins
Mediação: Afonso Borges
21h – Tema: A Máquina do Mundo em Nós
Convidado: José Miguel Wisnik e Kristoff Silva
Encerramento: Sérgio Abranches
Serviço
6º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026, quinta a domingo
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Entrada gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira
Informações: @flitabira









