Vale estica horizonte da exaustão das minas de Itabira até 2053, mas não diz como vai manter a produção estável e em qual nível

Fotos: Acervo Vila de Utopia

Produção de minério de ferro já vem caindo, indicando que o fim começou de forma lenta e gradual, sem que se saiba como será daqui para frente até a exaustão final, que não virá de uma vez, mas com sucessivas reduções

Carlos Cruz

Sem querer desafinar o coro dos contentes com o ufanismo que veio com anúncio de que a mineração em Itabira vai se estender por mais tempo, até 2053, mas já desafinando, é preciso lembrar que o fim da mineração em Itabira já começou.

Primeiro, em 2003, com a exaustão da mina Cauê, cujo encerramento sequer foi comunicado oficialmente à cidade pela Vale. Depois, nas Minas do Meio, várias frentes foram encerradas antes mesmo de 2016.

Em vez de liberar o aquífero para abastecer a cidade com água de classe especial, legado tantas vezes prometido em publicações do jornal Vale Notícias, a empresa optou por dispor material estéril nas cavas exauridas, sepultando a possibilidade de garantir abastecimento da cidade com esse recurso hídrico, além de atrair novas indústrias sem depender da transposição do rio Tanque.

Esse prometido legado é mais um que entra no rol das tantas promessas não cumpridas.

Sucessivas quedas de produção

A exaustão não virá de uma vez, com o apagar das luzes das usinas de beneficiamento de minério de ferro, mas de forma lenta, gradual e inexorável – como já vem acontecendo.

Os números mostram esse viés decrescente. Em 2003, a produção anual do Complexo Minerador de Itabira foi de 43,1 milhões de toneladas (Mta). Em 2018, caiu para 41,7 Mta, com queda mais acentuada ocorrendo em 2019, caindo para 35,9 Mta.

Em 2024 caiu para 30 Mta. E em 2025, a produção de minério de ferro em Itabira foi de apenas 25 milhões de toneladas, metade da capacidade produtiva do complexo minerador local.

Toda essa queda já impactou negativamente as finanças da Prefeitura, sendo uma prévia do que ainda virá com novas reduções, que certamente ocorrerão nos próximos anos.

O risco é de agravamento na zeladoria da cidade, paralisação de investimentos municipais e inviabilização de projetos essenciais.

Esse cenário só será revertido no caso de o projeto Itabira Sustentável de fato, e não de ficção, sair do papel.

É nele que o prefeito Marco Antônio Lage (PSB), otimista que ainda é, aposta desde o início de seu governo, contando com aportes vultosos de recursos extras da mineração, além das receitas de tributos como ICMS, ISS e, futuramente, o imposto que vier a sucedê-los com a reforma tributária.

Há ainda a Cfem, que permanece como fonte de arrecadação não tributária, mas compensatória, embora já venha decrescendo em razão das sucessivas quedas de produção no complexo minerador local.

Transparência tardia e silêncio histórico

Desde 2001, os relatórios Form‑20, apresentados pela Vale à SEC em Nova Iorque, traziam projeções de exaustão das minas de Itabira, o que vem mudando ano a ano. Mas a empresa nunca comunicava isso à comunidade local.

A primeira vez que o documento foi mencionado, ainda de passagem, ocorreu em uma entrevista concedida a este site Vila de Utopia pelo ex-gerente Fernando Rezende Carneiro, em 2017.

Depois, em 2019, a imprensa local fez estardalhaço com manchetes sensacionalistas, anunciando que o minério de ferro de Itabira iria acabar em 2028.

Essa leitura apressada, no entanto, ignorava um detalhe crucial: o relatório Form-20 leva em conta apenas as reservas medidas e provadas, sem considerar os recursos que, com novas pesquisas e tecnologias, poderiam ser transformados em reservas lavráveis.

Isso a exemplo do que aconteceu com os itabiritos compactos, antes considerados sem valor econômico, hoje transformados em pellet-feed e sinter-feed, como está para acontecer também com o reaproveitamento de rejeitos e o aproveitamento do itabirito dolomítico.

Em 2022 até 2025, os relatórios mantiveram projeções até 2041.

Mas só agora, em 2025, pela primeira vez, a Vale cita oficialmente o Form‑20 em comunicado dirigido à cidade, anunciando reservas ampliadas e horizonte de exaustão estendido até 2053.

Anúncio eufórico

O anúncio foi feito por meio de comunicado à imprensa, na noite dessa sexta-feira (27), imediatamente após o relatório ter sido registrado junto à U.S. Securities and Exchange Commission (SEC), em Nova Iorque, referente ao ano fiscal de 2025.

A informação, como não poderia deixar de ser em uma cidade que desde sempre convive com o fantasma da exaustão, trouxe entusiasmo, o mesmo que se viu no passado no início dos anos 1990, quando a exaustão “só” aconteceria em 2025 – e também em 2003, quando a direção da Vale anunciou que o fim só aconteceria depois de 2063.

Após esse último anúncio ufanista da Vale, o prefeito Marco Antônio Lage (PSB) gravou vídeo exultante, dizendo que haverá mais tempo para executar os planos estratégicos do Itabira Sustentável, com o qual espera preparar a cidade para viver sem a mineração.

André Viana, presidente do Sindicato Metabase de Itabira e Região e representante dos trabalhadores no Conselho de Administração da Vale, também seguiu esse tom otimista.

Para ele, a mineração circular já está em curso, reaproveitando rejeitos das barragens e transformando o que antes era estéril em commodites para as siderúrgicas mundo afora, além de viabilizar o aproveitamento do itabirito dolomítico, antes considerado impuro e sem valor comercial.

O que falta informar

Muitas dúvidas pairam sobre esse anúncio à primeira vista alvissareiro. Falta, por exemplo, antes de celebrar o aumento das reservas locais, com a viabilização econômica de recursos que antes não entravam no balanço da exaustão, esclarecer como e em que nível será mantida a produção mineral em Itabira até o esgotamento com a extração da última tonelada.

A produção será mesmo estabilizada até 2053 no patamar atual de 25 milhões de toneladas anuais (Mta)? Como isso vai ocorrer, se nos próximos anos, sucessivamente, uma das usinas de concentração será paralisada para adequações, primeiro Cauê, depois Conceição II?

E mais: após essas adequações, a usina Conceição I, inaugurada no início da década de 1980, encerrará definitivamente suas atividades. Será desmontada para liberar o itabirito que está no subsolo da estrutura.

Esse desmonte reduzirá a capacidade produtiva do complexo, que passará a contar com apenas duas usinas em operação – a Conceição II e a Cauê que, embora essa tenha sido a primeira a entrar em funcionamento, no início da década de 1970, será também a última a sair de operação.

Para além de 2053, caso ainda haja interesse econômico, poderá ser até mesmo viabilizada uma lavra subterrânea para extrair o veio de hematita que se estende até a mina Chacrinha.

Entretanto, com a crescente automação e o emprego de inteligência artificial, outra questão se impõe: como será a geração de empregos daqui para frente, seja por meio de postos de trabalho diretos ou indiretos? Essas informações são cruciais e de interesse geral.

Sem elas, não há como planejar as finanças da prefeitura, nem preparar a cidade para os impactos sociais e econômicos que já se fazem sentir.

A queda de arrecadação em 2025 é prova disso – e já resultou em falhas visíveis na zeladoria urbana, com serviços básicos comprometidos.

Esse quadro tende a se repetir e se agravar nos próximos anos, caso não haja planejamento claro e transparente – e para isso, as informações pertinentes à principal atividade econômica do município são imprescindíveis.

Memória das euforias

Não é a primeira vez que horizontes de exaustão mineral são ampliados em Itabira e a euforia desenvolvimentista toma conta, por algum tempo, em segmentos da sociedade itabirana.

Em 1992, foi lançado o projeto Itabira 2025, embalado pela previsão, naquela época, de que o fim da mineração “só” aconteceria no centenário da Acita. O ex-presidente Márcio Antônio Labruna recorda em artigo publicado nesta Vila de Utopia:

“A diretoria da Acita, sob a presidência do ex-prefeito Li Guerra, lançou uma pergunta: ‘Quando a Acita comemorar o seu centenário em 2025, como será que a nossa cidade de Itabira estará?’ Todos responderam: ‘Será aquilo que definirmos a partir de agora’.”

Daí, conta Labruna, surgiram três objetivos: assumir a prefeitura, criar projetos estruturantes e formar lideranças comprometidas com a cidadania.

Como parte desse esforço, foi criado o Fundo Municipal de Desenvolvimento Econômico e Social de Itabira (Fundesi), uma espécie de BNDES municipal, na administração de Luiz Menezes, mas que só foi implementado com Li Guerra, para financiar a juros subsidiados a instalação de novas indústrias em Itabira.

Os resultados foram frustrantes: muitos empresários deram calote na prefeitura. E o distrito industrial acabou ocupado apenas por empresas prestadoras de serviços à mineração e por uma única indústria de ferro‑gusa, altamente poluidora, que compromete a qualidade do ar em todo o distrito e afeta diretamente a saúde e qualidade de vida dos moradores do bairro Barreiro.

O diretor José Martins Viveiros anuncio, em 2003, na Acita, que Itabira terá minério até 2063 (Foto: Geraldo Andrade/Vale Notícias

Mais adiante, já em 2003,  o ex-diretor de Operações do Sistema Sul da Vale José Martins Viveiros anunciou no auditório da Acita que novas pesquisas indicavam minério para mais 60 anos, estendendo o horizonte da exaustão até 2063.

A informação foi recebida com aplausos eufóricos, como os de agora, com o que parecia ser tempo suficiente para exorcizar o receio de Itabira virar cidade fantasma com a “derrota incomparável”, pois haveria tempo hábil para planejar o futuro com economia diversificada.

Mas enquanto Viveiros falava em horizonte até 2060, os relatórios Form‑20 da Vale previam um horizonte bem mais curto, revelando a contradição entre o discurso interno e o que era informado aos acionistas.

Na época, o relatório de 2004, relativo ao ano anterior, projetava a exaustão mineral para 2022.

Em 2017, o ex-gerente Fernando Rezende Carneiro, em entrevista a este site, evitou cravar datas, lembrando projeções anteriores que não se confirmaram.

Mas assegurou que Itabira teria um horizonte de exaustão bem mais elástico do que estava sendo divulgado nos relatórios Form-20, pela viabilização de novos recursos, como de fato vem acontecendo.

Em 2019, o Form‑20 indicou exaustão em 2028. Em 2022/23, os relatórios ampliaram esse horizonte de exaustão 2041.

Agora, em 2025, pela primeira vez, um comunicado à imprensa da mineradora anuncia euforicamente que o fim só se dará em 2053. Nos próximos relatórios, se não nas três edições seguintes, não será surpresa se indicarem um horizonte para além de 2060.

Mas isso só terá relevância se vier acompanhado de informações básicas e transparentes. Que a Vale divulgue na cidade com as informações que enviou à quee apresentou à Agência Nacional de Mineração (ANM), para que fosse aprovado o novo plano econômico lde aproveitamento de suas reservas no agrupamento ferrífero de Itabira.

Essas informações são indispensáveis para que a administração municipal possa ordenar a zeladoria local com eficiência, além de atrair futuros investidores, seja na construção civil ou, quem sabe, em novas empreendimentos produtivos, que possam contribuir para reduzir a dependência da economia local da mineração, hoje acima de 80%.

Esforço coletivo

Sem essa política de diversificação, e sem repetir erros do passado, qualquer horizonte ampliado de exaustão continuará sendo apenas uma perspectiva vaga de desenvolvimento, podendo desmanchar‑se no ar como tudo que é sólido, sem garantir sustentabilidade econômica e social para Itabira em um futuro sem mineração.

É fato que a cidade ganha tempo, mais uma vez, mas convém conter a euforia. Afinal, o futuro já começou com o fim gradativo da mineração, um processo lento, gradual, “seguro” e inexorável.

Cabe ao município assumir sua parte, com o apoio imprescindível da mineradora por meio de aportes vultosos de recursos extras, além da Cfem e dos impostos, inclusive quitando o que deve de IPTU sobre suas instalações e trechos da ferrovia que passa pela cidade.

Isso precisa acontecer como rara e rala compensação pela dívida histórica, que é inegável, ainda que não esteja posta em lei.

A prefeitura, juntamente com os agentes econômicos, deve fazer o dever de casa, buscando também apoios do governo de Minas Gerais e da União, que muito devem a Itabira pelo que já foi gerado para os respectivos erários sem as contrapartidas devidas.

Sem isso, o horizonte de exaustão agora estendido para 2053 pode não passar de uma cortina de fumaça – apenas mais uma data no calendário da exaustão, ainda que agora mais distante.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *