Solidão

Foto: Eduardo Cruz
Amanda Drumond*

 

Não nasci em itabira
Por isso
Não tenho minério na alma
Tenho um corpo
Que carrega um coração
Não tenho pulso de ferro
De nada vale a ambição
Vieram os trilhos
De nada
Vale minha tradição
Carreguei cansada
Os vagões
O tic-tac da bomba
Minha matéria prima
Agora virou canhão
Tic-tac, Tic-tac
Apontou o tempo
Não sei se é velho
Se é moderno
Se é de verdade
Toda essa solidão
O carregar do magnetismo
Que mudou de lugar
A terra que brilha
Em meu coração
Vai, vai, trem
Nem deixa nada
Só sobra destruição
Ai ai ai, e se isso acabar?
Estamos agora sem solução
Palavras que vão,
Feitas de minério
Nunca mais voltam
Já estão no Japão
Na China, nos robôs
Mas aqui,
só ferro gusa pra moldar
Os avanços
Sem negociação
Me boto a pensar
Se é da água que veio
Essa paixão
Vem, me ponho a dançar
Se o mundo acabar
O navio ficou lá no mar
Em Itabira
Sobrou o buraco
Que tem no meu coração

*Amanda Drumond é artista-plástica, escritora, poeta brasileira contemporânea, conhecida por sua escrita sensível e marcante. As suas poesias, crônicas e contos abordam temas como amor, feminilidade, empoderamento e autoconhecimento, muitas vezes explorando a dualidade entre força e vulnerabilidade.

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