Reserva ambiental em Minas Gerais registra primeiro nascimento de bicudo na natureza

Em destaque, um bicudo adulto, espécie rara na natureza, ameaçado de extinção em grande parte da área de ocorrência original

Foto: Agência Minas

Feito inédito ocorreu, neste mês, na RPPN Porto Cajueiro, localizada em Januária (MG)

O nascimento de um filhote de bicudo (Sporophila maximiliani), em 20 de janeiro deste ano, representa a retomada efetiva do ciclo reprodutivo natural de uma das aves mais ameaçadas do Brasil. O fato inédito ocorreu na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Porto Cajueiro, mantida pela Usina Coruripe no município de Januária, no Norte de Minas Gerais.

Depois de sete anos de um trabalho técnico articulado entre diferentes instituições, o Projeto Bicudo alcançou o resultado mais esperado: a reprodução dos pássaros em vida livre. O biólogo Gustavo Malacco, um dos coordenadores do projeto, explica que, no início de fevereiro, a equipe do projeto localizou o ninho onde havia dois ovos. No dia 20, foi registrado o nascimento do filhote, que está sendo acompanhado diariamente. O outro ovo ainda não vingou e segue sendo monitorado. “Esse tipo de nascimento nunca havia acontecido no Brasil e é um marco histórico para o conservacionismo mundial”, destaca.

Ele conta que um fato inusitado e que torna o nascimento mais relevante é que somente a fêmea está presente no ninho ao lado do filhote. Segundo ele, normalmente, o casal de bicudos não se afasta do ninho até o filhote ter autonomia. “O que presenciamos é a ação de uma ‘mãe solo’ lutando pela preservação de sua espécie”, comenta Malacco.

“Mais do que o nascimento de um indivíduo, trata-se de um indicador de viabilidade ecológica e de que a espécie pode, gradualmente, reconstruir sua presença na natureza”, complementa a veterinária Carolina Lorieri Vanin, uma das integrantes do Projeto Bicudo. Ela ressalta que essa é uma “espécie historicamente impactada pela captura ilegal e pelo tráfico de animais silvestres, pressões que provocaram um colapso populacional em grande parte de sua área de ocorrência”.

Filhote de bicudo na natureza (Foto: Divulgacao/Usina Coruripe)

Na avaliação do biólogo Luís Silveira, que também atua na coordenação do projeto, o nascimento do bicudo é o primeiro passo para o estabelecimento de uma população autossustentável na natureza. “É claro que esse objetivo ainda está distante, mas o nascimento de filhotes na natureza demonstra que aves em cativeiro há muitas gerações conseguem recuperar os seus comportamentos naturais, como o de selecionar uma área segura, encontrar material e construir o ninho.”

De acordo com ele, o objetivo maior de um projeto de reintrodução é o de documentar, de forma consistente, a reprodução na natureza. “E o nosso projeto agora dá um passo muito importante, graças à equipe envolvida e, principalmente, aos bicudos, que estão dando um show de adaptação às condições de campo”, comemora Silveira.

O presidente da Usina Coruripe, Mario Lorencatto, destaca que, além de soltura e monitoramento da espécie, a empresa realiza ações com a comunidade para sensibilizar as pessoas sobre a importância da manutenção da biodiversidade na região.

Ele comenta que, em 2024, foi celebrado outro marco importante para a preservação da biodiversidade: o nascimento dos primeiros filhotes de bicudo em criadouro na unidade de conservação. “Desde 2018, desenvolvemos um criadouro dentro da reserva, com todos os cuidados necessários para garantir o bem-estar e a reprodução desses pássaros”, afirma Lorencatto.

Além da Coruripe, fazem parte do Projeto Bicudo o Instituto Ariramba de Conservação da Natureza, a CEPF/IEB, Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Clube dos Criadores de Bicudos de Canto do Brasil, Universidade Estadual do Maranhão, Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, Universidade Federal de São Carlos, Angá, Semad/IEF e o Ministério Público de Minas Gerais.

O projeto também integra a iniciativa Parcerias Sustentáveis, criada para possibilitar que empresas parceiras participem de projetos desenvolvidos ou apoiados pela Usina Coruripe. A equipe do Projeto Bicudo conta com a dedicação de 15 pessoas, entre biólogos, veterinários e colaboradores da RPPN.

Desafios para a preservação de bicudos

“O tráfico de animais silvestres sempre representa um risco potencial para o Sporophila maximiliani, especialmente por se tratar de uma espécie historicamente visada pelo canto. No entanto, neste contexto específico de reintrodução em área preservada e distante dos grandes centros urbanos, essa ameaça é significativamente reduzida. Hoje, os principais desafios são de ordem ecológica.

A perda e fragmentação de habitat continuam sendo a maior ameaça estrutural à espécie. A conversão de áreas naturais para uso agropecuário, a substituição de vegetação nativa por monoculturas e a fragmentação da paisagem reduzem a disponibilidade de áreas adequadas para alimentação, reprodução e dispersão. Ambientes fragmentados isolam indivíduos e limitam o fluxo gênico, comprometendo a viabilidade populacional no médio e longo prazo.

Outro fator crítico é a baixa densidade populacional em vida livre. Populações pequenas e dispersas dificultam o encontro entre indivíduos reprodutivamente ativos, reduzem a variabilidade genética e tornam a espécie mais vulnerável a eventos aleatórios.

Especificamente para o filhote nascido neste mês, há ainda os riscos naturais inerentes ao ciclo de vida, como a predação natural, eventos climáticos extremos, como chuvas intensas ou ondas de frio, e a própria taxa natural de mortalidade juvenil, que é elevada em aves silvestres.

Ou seja, neste momento, os desafios são predominantemente ecológicos e ambientais — e é justamente por isso que a manutenção da qualidade do habitat e o monitoramento técnico contínuo são fundamentais para aumentar as chances de sobrevivência e consolidação dessa população em vida livre.” (Carolina Lorieri Vanin, veterinária)

 

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