Reitor da Unifei anuncia cursos de licenciatura e Itabira pode resgatar tradição acadêmica perdida com a Fachi
Fotos: Carlos Cruz
Informações sobre convênios para construção de moradia estudantil e repactuação de recursos da Vale para concluir prédios da Unifei vêm acompanhadas da decisão de abrir cursos de licenciatura, medida que pode resgatar a tradição acadêmica interrompida desde o fechamento da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Itabira (Fachi)
Na terça-feira (30), no auditório do Paço Municipal Juscelino Kubitschek, foram assinados dois protocolos de intenções entre o município de Itabira e a Universidade Federal de Itajubá (Unifei).
O primeiro estabelece cooperação para aquisição de equipamentos laboratoriais e criação de novos cursos de graduação no campus de Itabira, nas áreas de Computação Avançada, Robótica, Tecnologias para Indústria 5.0, Agronegócio, Tecnologias para Saúde e Licenciaturas.
O segundo prevê a construção de moradia estudantil com área de 1.800 metros quadrados, destinada a cerca de 100 alunos em situação de vulnerabilidade socioeconômica, incluindo obras civis, infraestrutura e instalações.
Ambos os protocolos foram assinados pelo reitor Marcel Fernando da Costa Parentoni e pelo prefeito Marco Antônio Lage (PSB), com interveniência da Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão de Itajubá (Fapepe).
Presença de autoridades
A solenidade contou com a presença do presidente da Câmara Municipal, Carlos Henrique “Sacolão” Filho, de vereadores, secretários municipais, membros da reitoria da Unifei, representantes estudantis, e do deputado federal Reginaldo Lopes (PT), que teve papel fundamental na consolidação da parceria.
Foi dele a destinação de R$ 4 milhões em emenda parlamentar para viabilizar a construção da moradia estudantil, que se somam a outros R$ 4 milhões que serão alocados pela Prefeitura para a mesma finalidade.
“Estamos garantindo condições para que os jovens vindos de outras cidades tenham acesso e permanência no ensino superior em Itabira. A educação é o caminho para transformar a realidade econômica e social da cidade”, afirmou o deputado.
Além disso, Lopes antecipou que estão em tratativas junto ao Ministério da Educação para que em breve seja instalada em Itabira uma unidade do Instituto Federal de Educação Técnica (IFET).
“O Instituto Federal vai ampliar a oferta de ensino público e gratuito, diversificar a formação e fortalecer Itabira como polo educacional. É um passo importante para que a cidade não dependa apenas da mineração e tenha novas oportunidades de desenvolvimento”, disse o parlamentar.
Esse instituto já poderia ter sido instalado em Itabira caso tivesse avançado o projeto da Escola Técnica Federal de Agropecuária, que chegou a ser aprovada pelo Ministério da Educação no último ano da administração de Luiz Menezes, em 1992.
Mas a escola federal acabou abandonada pelo prefeito Li Guerra, que preferiu instalar a fracassada Ipocarmo.
Novos cursos, também de licenciatura
Na cerimônia no paço municipal, o reitor Marcel Parentoni anunciou dez novos cursos de graduação e duas pós-graduações que serão incorporadas à oferta do campus de Itabira.
Entre eles estão as necessárias licenciaturas, ainda em tramitação junto ao MEC. “Toda universidade pública deveria ser obrigada a oferecer cursos de licenciatura”, disse ele em entrevista a este site.
Parentoni adiantou que as primeiras licenciaturas previstas se concentram nas áreas de Física, Química, Matemática, Biologia e Pedagogia, que seriam para “atender às demandas mais urgentes da educação básica”.
No entanto, permanece a ausência de cursos em Letras, História, Geografia, por exemplo, reivindicação histórica da cidade e já apontada em reportagem anterior desta Vila de Utopia.
É justamente nesse ponto que se reforça a necessidade de a Unifei romper com o modelo de campus exclusivo das exatas e ampliar sua oferta no campus de Itabira para as áreas de humanas.
Isso a exemplo do que ocorre na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), para que se tenha um verdadeiro e amplo campus universitário em Itabira e não apenas um conjunto de faculdades de engenharia.
A retomada de cursos como Letras seria não apenas uma medida acadêmica, mas também um gesto simbólico de reparação histórica. Afinal, uma cidade que se orgulha de ser a terra de Drummond não pode continuar sem formação em Letras.
Perda histórica
A proposta busca preencher uma lacuna histórica na cidade. Itabira perdeu seus cursos de formação de professores com o fechamento da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (Fachi), fundada em 1968 por iniciativa do então bispo Marcos Antônio Noronha.
Com o fechamento da Fachi pela Fundação Itabirana de Ensino (Fide), por ser alegadamente deficitária, nos anos 1990 houve ainda a tentativa frustrada de trazer a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) para o município.
A proposta, também articulada por Marcos Noronha, previa inclusive a criação do primeiro curso de graduação em Engenharia Ambiental do Brasil, o que teria colocado Itabira como pioneira nacional na área.
Esse pioneirismo, entretando, por desinteresse da sociedade civil organizada (sic) de Itabira pela Uemg acabou não se confirmando: em 1992, o primeiro curso de engenharia ambinetal no Brasil acabou sendo aberto pela então Fundação Universidade do Tocantins (Unitins), hoje Universidade Federal do Tocantins (UFT), em Palmas, logo após a ECO-92.
Posteriormente, os cursos de licenciatura que existiam na Fachi foram incorporados pela Funcesi, criada em 1993, inclusive o curso de Letras. Mas acabaram encerrados por serem considerados deficitários, já que não geravam lucro. E Itabira, desde então, não forma novos professores para o ensino básico.
Com o anúncio da Unifei de abertura de cursos de licenciatura, Itabira volta a ter perspectiva de recuperar sua tradição acadêmica na formação docente, interrompida há décadas, inclusive, quem sabe, é preciso insistir, retornando com o curso de Letras na terra de Drummond.
Permanência estudantil como política pública
Além da construção de residências estudantis, Parentoni também apresentou outras medidas de assistência aos universitários, como bolsas, apoio psicológico e a reformulação do restaurante universitário.
Segundo ele, o preço da refeição caiu para R$ 6,25, com gratuidade para os mais vulneráveis e subsídio de metade do valor para os demais. “O consumo triplicou desde a mudança, sinalizando maior permanência dos estudantes no campus.”
A construção das futuras residências estudantis, juntamente com a política de valores subsidiados no restaurante universitário são apontadas como instrumentos decisivos para diminuir a evasão e garantir que os alunos consigam permanecer até o final da graduação em Itabira.
Experiências de outras universidades federais mostram que alojamentos e refeições acessíveis são fatores centrais para manter estudantes de baixa renda. Em Ouro Preto e Diamantina, por exemplo, a oferta de moradia subsidiada permitiu fixar milhares de jovens vindos de outras regiões.
Isso é fundamental para o campus da Unifei de Itabira, uma cidade ainda com poucos atrativos para o estudante que vem de fora, para que passe a contar com essas condições imprescindíveis para assegurar qualidade de vida e permanência acadêmica.
Expectativa e crítica necessária
Instalada com grande expectativa em 2008, a Unifei chegou com a meta de alcançar 10 mil alunos em dez anos, mas hoje mantém pouco mais de 2 mil.
A evasão escolar por razões conhecidas, como a falta de moradia estudantil, ausência de restaurante subsidiado e escassez de cursos diversificados, travou o seu crescimento.
Espera-se que os novos convênios e as políticas de permanência revertam esse quadro, criando condições para que a universidade finalmente entregue o que foi prometido desde o início de sua instalação em Itabira, ocupando com mais estudantes o campus em expansao após a conclusão da construção dos três novos prédios.
Mas há outro ponto crucial, que ainda precisa ser equacionado: o parque tecnológico, previsto desde a criação do campus e ainda não implantado.
Tanto o reitor Marcel Parentoni quanto o prefeito Marco Antônio Lage destacaram que a Unifei pode e deve contribuir para a diversificação econômica de Itabira, o que teria sido o seu objetivo ainda não realizado desde a sua implantação para diminuir a dependência da mineração.
O parque tecnológico, conforme foi concebido pelo então reitor Renato Aquino, foi concebido como espaço de inovação e empreendedorismo, capaz de atrair empresas de base tecnológica, incubar startups e gerar empregos qualificados.
Essa justificativa esteve na origem da parceria público-privada tripartite que viabilizou a Unifei em Itabira, envolvendo a Vale, a Prefeitura e o Governo Federal.
A ideia era que a universidade funcionasse como motor de transformação econômica, formando profissionais em áreas estratégicas e estimulando novos arranjos produtivos locais.
Até agora, esse papel transformador não se concretizou plenamente. A ausência do parque tecnológico e a concentração em cursos de exatas limitaram o impacto da Unifei na economia da cidade.
Agora, com a repactuação de recursos da Vale para a conclusão das obras dos novos prédios, além da abertura de novos cursos, inclusive de licenciaturas, abre-se a oportunidade de retomar esse projeto original.
Universidade ampla, humanista e plural
Com isso, espera-se ter em Itabira não apenas um campus avançado da Unifei, mas um vetor de inovação, capaz de formar profissionais em áreas estratégicas e, ao mesmo tempo, recuperar a tradição acadêmica humanística perdida com o fechamento da Fachi e com o encerramento dos cursos de licenciatura pela Funcesi.
A Unifei pode contribuir objetivamente para a diversificação econômica de Itabira, inclusive foi essa a justificativa para a sua instalacao no município.
O parque tecnológico, ainda não implantado, é peça-chave nesse processo. Ele foi concebido para atrair empresas de base tecnológica, incubar startups e gerar empregos qualificados, criando alternativas à dependência da mineração.
Tanto o reitor Marcel Parentoni quanto o prefeito Marco Antônio Lage destacaram que a Unifei tem papel decisivo nesse projeto, ao articular ciência, inovação e empreendedorismo com as vocações locais.
Mas a diversificação não pode se limitar às engenharias e ciências aplicadas. É preciso que a Unifei também abra espaço para cursos de humanas, como já faz a Ufop em Ouro Preto, consolidando uma formação integral e crítica.
Retornar com os cursos de História, Sociologia, Geografia e, sobretudo, Letras são indispensáveis para que Itabira recupere sua identidade acadêmica e cultural.
Afinal, uma cidade que se orgulha de ser a terra de Drummond não pode continuar sem Letras. E uma cidade que depende tanto da mineração não pode projetar seu futuro sem inovação e diversificação econômica.
A Unifei tem agora, mais uma vez, a oportunidade de ser a ponte entre esses dois mundos, o da cultura e o da ciência, o da memória e o da transformação, formando não apenas engenheiros, mas também professores e pesquisadores em diferentes áreas do conhecimento.
Se conseguir unir inovação tecnológica com formação humanística, poderá cumprir plenamente o papel para o qual foi concebida: ser motor de diversificação econômica e, ao mesmo tempo, propulsora da identidade cultural de Itabira, por meio do campus avançado instalado no Distrito Industrial Maria Cassemira Andrade.









