Programa considerado estratégico prevê investimentos no Centro Histórico, novo distrito industrial, mas apenas parte dos recursos está assegurada
Foto: Carlos Cruz
Coordenador do Itabira Sustentável rebate críticas sobre risco de repetir fracasso do Itabira 2025 e detalha projetos em fase de estudos e tratativas, destacando que se trata de um plano estratégico para além do atual governo. Mas admite que financiamento depende de pleitos futuros e compromissos ainda não formalizados
O programa Itabira Sustentável foi lançado oficialmente em 30 de novembro de 2023, em solenidade realizada no auditório do UniFuncesi, seguida de apresentação pública no Centro Cultural Carlos Drummond de Andrade, quando Prefeitura de Itabira e Vale assinaram acordo de cooperação com a consultoria Arcadis.
Reúne 61 projetos estruturados em 15 eixos estratégicos, abrangendo educação, saúde, mobilidade, meio ambiente, economia criativa, saneamento e diversificação econômica.
Foi apresentado como a principal estratégia para preparar a cidade para o futuro pós‑mineração.
Entretanto, apesar do anúncio com toda pompa e circunstância, a maioria das iniciativas ainda se encontra em fase de estudos, licenciamento e tratativas, sem obras iniciadas, embora alguns projetos já estejam em fase de implantação.
Revitalização do Centro Histórico
Entre os projetos destacados está a revitalização urbanística do Centro Histórico, que prevê cabeamento subterrâneo, nova iluminação pública, reforma das redes de esgoto e drenagem, além de melhorias na mobilidade e acessibilidade.
O investimento estimado é de R$ 56 milhões. Segundo o coordenador do programa, engenheiro José Maciel Duarte Paiva, há previsão de que parte dos recursos possa vir da Vale entre 2026 e 2029, mas esse aporte ainda não está assegurado. “A contratação do projeto básico está sendo finalizada e o início das intervenções deve ocorrer em 2026.”
Outro projeto é a restauração do casarão histórico onde inicialmente funcionou o Hospital Nossa Senhora das Dores, cuja requalificação está ainda em fase de projeto básico.
De acordo com Maciel Paiva, os recursos estão sendo equacionados dentro do programa Itabira Sustentável, mas não há cronograma definido para o início das obras de restauro. Ele acrescenta que os valores exatos dos custos serão definidos após o término do projeto básico.
Novo Condomínio Industrial de Itabira e Central de Resíduos
O novo Condomínio Industrial de Itabira, previsto para a antiga fazenda Palestina, é apontado como um dos projetos mais avançados, com investimento estimado em R$ 131 milhões.
O projeto básico está quase concluído, com os Estudos de Impacto Ambiental e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA‑Rima) em andamento, enquanto as tratativas finais para a doação do terreno também estão sendo finalizadas.
Importante destacar que, até o momento, a Vale se comprometeu apenas com a doação do terreno. Ou seja, não há confirmação de aporte financeiro da mineradora para a sua instalação.
Dessa forma, o valor total previsto para a sua instalação, para que enfim vire realidade, uma vez que desde a administração do ex-prefeito Damon de Sena, é promessa ainda não realizada, depende de outras fontes.
Já a Central de Resíduos, orçada em R$ 12 milhões, está com o projeto básico em elaboração. Paiva assegura que o projeto básico dessa central, também prometida pela Vale desde a LOC 2000, e posteriormente como condicionante do emprestimo obtido junto ao BNDES para a readequação das usinas para concentrar itabiritos duros, também está sendo finalizado.
A central é considerada fundamental para consolidar um polo microrregional de serviços em resíduos sólidos urbanos e industriais na região, mas até aqui não passa de promessa, sem sair do papel.
Duplicação das rodovias MG‑434 e MG‑129
Outro projeto considerado estratégico é a duplicação do trecho da rodovia (MG‑434 e MG‑129), que liga Itabira ao trevo da BR‑381/262.
O investimento estimado é de R$ 360 milhões, envolvendo Estado, Município e Vale.
Paiva reconhece a complexidade da obra, afirmando que esse é o projeto mais importante e mais complexo, uma vez que “depende de iniciativas do Estado, que é o dono da estrada”.
Ele acrescenta que estão trabalhando com afinco e colocando essa duplicação como projeto prioritário de Itabira para a cidade melhorar a sua logística e a sua competitividade na atração de novos empreendimentos industriais e escoamento da produção local.
Educação e Saúde
Embora não estejam diretamente vinculados ao Itabira Sustentável, alguns investimentos já realizados ou anunciados pela Vale em parceria com Prefeitura, e inciados em gestões anteriores, foram apresentados como parte do programa e da estratégia de transição para o período pós‑mineração.
Entre eles está o curso de Medicina do Centro Universitário da Fundação Comunitária do Ensino Superior de Itabira (Unifuncesi), que contou com aporte de recursos da mineradora para aquisição de laboratório e estrutura de ensino, fortalecendo a formação na área da saúde.
Também é relacionada a expansão do campus da Unifei Itabira, como meio de ampliar a oferta de cursos de engenharia e tecnologia, consolidando a cidade como polo de formação acadêmica, exclusivamente na área de Exatas, voltado para inovação e diversificação econômica, com a construção super atrasada de três novos prédios.
Planejamento orçamentário PPA 2026–2029

Conforme especificado no quadro acima, os recursos já assegurados são pequenos diante do montante pretendido para a execução do programa no período de 2026 a 2029.
Até o momento, estão garantidos apenas R$ 14,33 milhões da doação da Vale, destinados à revitalização do Centro Histórico, além de R$ 2,4 milhões do Fundesi em 2025 e R$ 3,59 milhões do Fumpeis em 2026, vinculados à Cfem, o que totaliza R$ 20,32 milhões.
Para os anos seguintes, o planejamento inclui valores que ainda dependem de aprovação ou negociação, como o pleito de doação da Vale em 2026 de R$ 50 milhões, a previsão de R$ 41,77 milhões no PPA municipal e o pleito de R$ 212,53 milhões também junto à mineradora, somando R$ 254,31 milhões.
Nesses números não estão contemplados aportes específicos para a duplicação das rodovias MG‑434 e MG‑129, que ainda depende de negociações com a mineradora e com o Governo de Minas Gerais, o que só deve avançar com o próximo governo.
É assim que o quadro evidencia que apenas uma parte pequena dos recursos está efetivamente assegurada: R$ 20,32 milhões já disponíveis, o que representa menos de 10% do total previsto.
A maior parte depende de acertos futuros, o que significa que o financiamento do programa está condicionado a negociações e compromissos ainda não formalizados.
Plano estratégico para além do atual governo
Ao responder às críticas sobre a lentidão da implementação dos projetos do programa Itabira Sustentável, assim como o risco de repetir o fracasso do Itabira 2025, lançado pela Acita na última década do ano passado e que resultou em quase nada, Paiva enfatizou que o programa não se restringe ao atual mandato.
Segundo ele, o Itabira Sustentável não é um programa para execução apenas neste governo, mas estratégico também para os próximos, porque alguns projetos, pela sua complexidade, não podem ser concluídos em quatro anos.
Rebateu ainda as críticas de que o programa poderia se tornar apenas mais um plano, sem se tornar realidade. Ele acredita piamente que não será mais um projeto incentivado pela Vale a não sair do papel, mas uma alternativa real.
Isso para que o município não sofra as consequências negativas, já em curso, vide queda na receita municipal, com a exaustão lenta, gradual e irreversível de suas reservas e recursos de minério de ferro, agora com horizonte de exaustão previsto para 2053.
Enquanto o município aguarda por resultados concretos, a expectativa é que os investimentos anunciados finalmente saiam do campo das intenções e se transformem em obras capazes de gerar empregos, renda e novas oportunidades para Itabira, para que a cidade não continue cismando com a derrota incomparável que certamente virá, caso a dependência econômica à mineração permaneça no patamar atual.
Que seja de fato, e não de ficção!
Saiba mais: Apresentação Itabira Sustentável









