O que Wilhelm Reich explica sobre o comportamento da extrema direita conservadora e o desfile em homenagem a Lula

 

Entre repressão sexual, moralismo cristão e manipulação midiática, a catarse da extrema direita diante do rebaixamento da Acadêmicos de Niterói revela como o fascismo cotidiano ainda se infiltra na vida brasileira e no mundo

Por Valdecir Diniz Oliveira*

O carnaval carioca de 2026 não terminou com o desfile das escolas de samba no Sambódromo. Arrastou-se para o campo da política e da ideologia.

O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, escola que ousou homenagear Lula no carnaval carioca de 2026, transformou-se em combustível para a extrema direita bolsonarista, que tem celebrado o episódio como se fosse uma vitória eleitoral antecipada.

A reação que se seguiu não tem sido apenas folclórica, mas sintoma de algo mais profundo. Como sentindo prazer da vingança, parlamentares da oposição chegaram a ironizar o episódio como “a primeira derrota de Lula em 2026”.

Wilhelm Reich (1897-1957), psiquiatra e psicanalista austríaco, marxista e discípulo de Freud, para quem a repressão sexual e o moralismo familiar não apenas moldam indivíduos, mas produzem massas ansiosas, prontas para descarregar sua agressividade em espetáculos de punição, já havia explicado em Psicologia de Massas do Fascismo como a repressão sexual não apenas molda indivíduos, mas gera massas ansiosas, prontas para descarregar sua agressividade em catarse coletiva.

É assim que o prazer da punição vira espetáculo da repressão. O que se observa na comemoração conservadora pelo rebaixamento Acadêmicos de Niterói, previsível no resultado do júri, certamente pressionado para que assim ocorresse, tem sido exatamente esse prazer da vingança convertido em catarse coletiva, um ritual que só confirma a teoria de Reich acerca de como se dá o controle controle social.

Carro 5 – ‘Vale uma nação, vale um grande enredo’ – Lula na avenida causou o furor dos conservadores e dos pastores neopentecostais (Foto: Ricardo Stuckert/Reprodução;Instagram)
A família idealizada que nunca existiu

O moralismo cristão insiste em uma “família tradicional” que nunca existiu. Nem na Bíblia. Abraão teve mais de uma esposa, Jacó casou-se com duas irmãs e ainda manteve concubinas, Davi colecionou mulheres e Salomão chegou a 700 esposas e 300 concubinas.

Maria, mãe de Jesus, só não se tornou mãe solo porque José, o marceneiro bondoso, acreditou na versão da gravidez pelo Espírito Santo.

Não se trata de atacar a fé, mas de mostrar como o conservadorismo distorce a tradição para impor um modelo rígido.

Essa família em conserva, ultraprocessada, enlatada, é fruto da mesma ideologia que Reich descreveu: um laboratório de obediência, onde se formam adultos violentos contra mulheres que ousam escapar do papel de “rainhas do lar”.

Reich e o fascismo cotidiano

Reich mostrou como a família patriarcal funciona como microcosmo de submissão. A repressão sexual, internalizada desde cedo, prepara o indivíduo para aceitar hierarquias políticas e sociais.

O desfile da Acadêmicos de Niterói mexeu com esses valores. Ao homenagear Lula, o retirante nordestino que ascendeu à presidência, a escola tocou na ferida, intolerada pela elite dominante e pela massa ignara qeu a segue cegamente, que vem a ser a ascensão de sujeitos historicamente marginalizados.

Como não poderia deixar de ser, porque previsível, a reação conservadora foi imediata, como se a alegoria fosse uma ameaça ao sistema de controle.

Essa manipulação da “massa ignara” utiliza-se dos mesmos mecanismos de controle e mobilização como o que se viu em março de 1964, com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, levou às ruas mais de um milhão de pessoas em São Paulo, convocadas por elites conservadoras e setores da Igreja, para derrubar João Goulart e suas Reformas de Base.

O discurso era o mesmo de sempre, que ora se repete como farsa: defesa da moralidade contra o “perigo comunista”. O resultado foi o golpe militar e duas décadas de ditadura. Mas para os negacionistas terraplanistas, a ditadura militar não aconteceu, é mais uma invenção dos comunistas.

Paralelos internacionais

Nos Estados Unidos, Donald Trump mobilizou milhões também com os mesmos discursos de “família”, “Deus” e “nação”, enquanto é acusado de acobertar documentos sobre os crimes sexuais cometidos por Jeffrey Epstein.

A hipocrisia do conservadorismo reacionário é evidente lá como aqui: condenam corpos livres no carnaval ou no reggaeton, mas fecha os olhos para luxúrias criminosas das elites.

Na Europa dos anos 1930, o nazifascismo se consolidou com base na mesma repressão. Hoje, vemos ecos disso em governos autoritários como o de Viktor Orbán na Hungria e em movimentos neofascistas que crescem na Polônia.

Carro 4: O Brasil mudou de cara; Bozo preso (Foto: Reprodução/Instagram)
A violência de gênero como sintoma

No Brasil, a violência de gênero tornou-se um dos espelhos mais cruéis da repressão social e sexual. Os números de feminicídio não são apenas estatísticas. Eles revelam uma cultura que ainda insiste em punir mulheres por sua autonomia.

Em 2025, foram 1.518 feminicídios, uma média de quatro por dia, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Esse dado não pode ser lido isoladamente. Ele se conecta a uma longa tradição patriarcal que naturaliza o controle sobre o corpo feminino e legitima a violência como resposta à liberdade.

Mulheres que ousam escapar do papel de “rainhas do lar”, seja pela independência econômica, pela escolha de parceiros, pela recusa ao casamento ou pela afirmação de sua sexualidade, tornam-se alvo de agressões que vão do cotidiano doméstico ao assassinato brutal.

Wilhelm Reich já havia diagnosticado que a repressão sexual não apenas molda indivíduos, mas fabrica adultos incapazes de lidar com a liberdade alheia.

No Brasil contemporâneo, essa incapacidade se traduz em violência contra mulheres, em discursos que culpabilizam vítimas, e em o que é tanto quanto grave, em políticas públicas insuficientes para conter a barbárie.

O feminicídio, portanto, não é apenas crime, mas sintoma de um sistema que ainda se alimenta da repressão e da desigualdade. E que precisa ser enfrentado como questão estrutural de democracia e direitos humanos.

Cultura como resistência

Se o fascismo cotidiano se alimenta da repressão, a cultura popular é o antídoto. O carnaval, o manguebeat e o axé na Bahia são atos de resistência simbólica. Cada batida, cada corpo que dança, cada alegoria é um desafio ao falso moralismo.

Em 8 de fevereiro de 2026, o porto-riquenho Bad Bunny fez história no Super Bowl LX, no Levi’s Stadium, Califórnia.

Foi o primeiro artista latino a protagonizar o intervalo dessa maior competição esportiva norte-americana com um show quase inteiramente em espanhol, acompanhado por Ricky Martin e Lady Gaga.

Sua performance exaltou raízes latinas e expôs a violência da política antimigratória de Trump. Mais do que música, foi um manifesto cultural transmitido para milhões, fortalecendo um internacionalismo cultural que ecoa no Brasil e em toda a América Latina.

Como era esperado, Trump irritou-se profundamente. É preciso repetir à exaustão: o mesmo presidente que se diz guardião da moralidade é acusado de acobertar documentos sobre Epstein, bilionário envolvido em tráfico de mulheres e pedofilia.

A voz da Acadêmicos de Niterói
Acadêmicos de Niterói: “A arte não é para os covardes” (Reprodução/Instagram)

Diante das polêmicas, a própria escola divulgou uma nota pública, reafirmando a anterior já prevendo o rebaixamento que já tinha claro sinais de ser programado.

O texto é incisivo, expõe o peso da perseguição sofrida e confirma o vaticínio da Acadêmicos de Niterói.

Como se confirmou, não se tratava apenas de julgamento técnico, mas de uma tentativa de silenciamento político e cultural.

Leia a íntegra da nota

A Acadêmicos de Niterói começa essa mensagem agradecendo, de coração aberto, à sua comunidade. O que vivemos na Avenida só foi possível graças à força do povo, à união dos nossos componentes e ao amor de quem nunca deixou essa escola caminhar sozinha.

Mas é preciso dizer a verdade.

Durante todo o processo carnavalesco, a nossa agremiação foi perseguida. Sofremos ataques políticos, enfrentamos setores conservadores e, de forma ainda mais grave, lidamos com perseguições vindas de gestores do próprio Carnaval Carioca.

Houve tentativas de interferência direta na nossa autonomia artística, com pedidos de mudança de enredo, questionamentos sobre a letra do samba e outras ações que buscaram nos enquadrar e nos silenciar.

Não conseguiram.

Mesmo pressionada, a Acadêmicos de Niterói não se curvou. Nos posicionamos, resistimos e levamos para a Avenida um desfile verdadeiro, potente e coerente com a nossa identidade.

A força da nossa comunidade foi o nosso pilar. A aclamação popular foi a nossa resposta. O carinho do público foi o nosso maior prêmio.

Também não ignoramos o histórico conhecido no Carnaval: a narrativa injusta de que ‘quem sobe, desce’.

Por isso, reafirmamos com firmeza que esperamos um julgamento justo, técnico e transparente, que respeite o que foi apresentado na Avenida e não reproduza perseguições, interesses ou pré-julgamentos.

Esse posicionamento sintetiza o que Reich já havia diagnosticado: a repressão e o controle não se sustentam sem resistência.

A escola, mesmo rebaixada, reafirma sua autonomia e denuncia a tentativa de silenciamento. A nota é, por si só, um manifesto contra o fascismo cotidiano que se infiltra até nos bastidores do carnaval.

Carro 3: “Feito metal: de operárion a presidente” – a grandiosidade de um desfile que a Globo não mostrou (Foto: Ricardo Stuckert/Reprodução)

A distopia possível se não houver resistência

O perigo é real. A massa de manobra já demonstrou sua força ao eleger presidentes no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países, transformando ressentimento em poder político.

A repressão sexual, o moralismo cristão e a manipulação midiática seguem como armas poderosas, capazes de moldar consciências e legitimar projetos autoritários.

Se não houver resistência cultural, política e social, a distopia pode deixar de ser ameaça e se tornar rotina, como já acontece em diferentes partes do mundo onde governos conservadores avançam sobre direitos e liberdades.

Felizmente, a história também mostra que a liberdade nunca se rende por completo. O carnaval, o manguebeat, o axé, Bad Bunny, todas essas manifestações artísticas e populares são sinais de que a cultura insiste em nascer e resistir, mesmo quando está sob ataque.

São trincheiras simbólicas que lembram que a vida não cabe nos limites impostos pelo falso moralismo.

Como Reich ensinou, a repressão pode moldar massas, mas jamais consegue sufocar totalmente o desejo de emancipação.

É assim que a cultura é o espaço onde a liberdade encontra voz, rompe barreiras e segue em frente com “a história que nega indiferente todos aqueles que a negam”.

Fontes
  1. Wilhelm Reich, Psicologia de Massas do Fascismo, 1933.
  2. Bíblia Hebraica: Gênesis 29; 2 Samuel 5; 1 Reis 11.
  3. Evangelho de Mateus 1:18-25.
  4. Skidmore, Thomas. Brasil: De Getúlio a Castelo, Paz e Terra, 1982.
  5. The Guardian, “Trump and Epstein connections”, 2019.
  6. Paxton, Robert. A Anatomia do Fascismo, 2004; Mudde, Cas. The Far Right Today, 2019.
  7. Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Relatório Anual 2025.
  8. New York Times, cobertura do Super Bowl LX, fevereiro de 2026.

*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.

 

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