Na abertura do Festival de Inverno de Itabira, Vanessa Faria se emociona ao recordar homenagem a Rosinha de Valença em sua terra natal
Fotos: Carlos Cruz
Prefeito Marco Antônio Lage disse que irá encaminhar à Vale projeto para ampliar o festival e cobra mais investimentos culturais da mineradora na cidade onde nasceu e expandiu para o mundo
O 52º Festival de Inverno de Itabira – Travessias foi aberto oficialmente nesta quarta-feira (15), no Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA).
Antes do pronunciamento do prefeito Marco Antônio Lage (PSB), a superintendente da FCCDA, Vanessa Faria, ao apresentar o tema e a proposta da edição, emocionou-se ao lembrar a cidade de sua infância, Valença, no interior do Rio de Janeiro, onde recentemente foi reinaugurado um centro cultural que homenageia a violonista e compositora Rosinha de Valença (1941-2004), sua conterrênea.
“Ao longo desses dias, eu lembrei daquela menina pequena lá do interior do estado do Rio de Janeiro, de uma cidade com um teatro que hoje foi reformado em homenagem à Rosinha de Valença, uma das grandes musicistas do nosso país. E como eu sonhava um dia poder estar em um palco de cultura, vivendo e celebrando a arte”, revelou, para completar depois uma breve pausa.
“Hoje, ao abrir novamente este festival, realmente me sinto muito emocionada”, disse.
Rosinha de Valença foi uma das grandes artistas brasileiras, violonista de talento singular, autora de composições sofisticadas que se tornaram referência na música popular, interpretadas por nomes como Maria Bethânia e Ney Matogrosso.
Apesar de sua obra refinada, o “biscoito fino” da música brasileira, Rosinha não chegou à grande massa, permanecendo como uma joia cultuada por músicos e apreciadores.
A lembrança de Vanessa trouxe para o palco de Itabira a força simbólica da travessia entre memória pessoal e identidade cultural, tema deste festival.
Homenagens e diversidade cultural
Vanessa destacou ainda que esta edição presta homenagem a duas trajetórias fundamentais da cultura mineira: a atriz Teuda Bara (1941–2025), fundadora do Grupo Galpão e referência nacional do teatro, e o artista plástico itabirano Luiz Eugênio “Genin” Guerra, cuja obra eternizou a memória de Carlos Drummond de Andrade e projetou a produção artística da cidade para além de Minas Gerais.
Genin estará presente na abertura de sua exposição Querelas, na Galeria da FCCDA, nesta quinta-feira (16). A mostra reúne trabalhos que marcam sua transição para a aquarela, técnica que ele vem estudando há cinco anos sob orientação do mestre mineiro Mário Zavagli.

Em Querelas, o artista utiliza a transparência e luminosidade da aquarela para retratar as paisagens e memórias afetivas de Itabira, mas também para denunciar as contradições das cidades mineradas: a sobrevivência econômica, a degradação ambiental e a perda do patrimônio histórico.
A exposição traz telas inéditas que dialogam com a poesia de Drummond e com a realidade mineral de Minas Gerais, evocando tanto o lirismo quanto a crítica social.
Com a mostra, Genin inaugura uma nova fase artística, em que a delicadeza da aquarela se torna instrumento de reflexão sobre o destino mineral de sua terra natal e de tantas outras cidades mineiras mineradas até quase à exaustão.
Enquanto a exposição, reforça o elo entre arte e identidade local, a Ocupação Teuda Bara, com figurinos e cenários cedidos pelo Grupo Galpão, celebra a ousadia e a força criativa da atriz.
“Genin dialoga profundamente com a identidade, a memória e a sensibilidade do povo mineiro, deixando uma contribuição permanente para as artes visuais e plásticas no nosso país”, afirmou a superintendente, para quem a carreira artística de Teuda Bara “inspira gerações pela ousadia e pelo compromisso com o teatro vivo e transformador.”
A programação do festival, que se estende até 26 de julho. Inclui música, teatro, dança, literatura, documentário, artes visuais, circo, patrimônio, cultura popular e oficinas formativas.
São dezenas de atrações gratuitas que ocuparão diferentes espaços da cidade, reafirmando o compromisso da FCCDA e da Prefeitura de Itabira com a democratização do acesso à cultura.
Prefeito cobra mais investimentos culturais da Vale e anuncia encaminhamento de projeto

Na sequência, o prefeito Marco Antônio Lage (PSB) reforçou a importância histórica do festival e revelou que está em negociação com a Vale para ampliar o evento.
“Estamos formatando um projeto para que esse produto de Itabira, esse valor da cultura itabirana, possa ser um festival mais amplo, de dois meses de duração, junho e julho, abrindo o aniversário da Vale no início de junho. É legítimo para quem vai fazer um grande patrocínio”, contemporizou.
O prefeito aproveitou para cobrar mais investimentos culturais da mineradora. “A Vale investe muito pouco na cultura de Itabira. É uma empresa importante para o nosso município, mas precisa investir mais. O Festival Internacional Literário é excelente, mas precisamos ampliar. A cultura é o que molda gerações e transforma a cidade”, disse.
A cobrança é oportuna e pertinente. É que, recentemente, a Vale anunciou que vai alocar R$ 62,1 milhões em investimentos culturais em Minas Gerais para 2026, contemplando 33 projetos.
É, portanto, oportuno que Itabira apresente propostas consistentes, já que no passado se dizia que a mineradora não investia no município por falta de projetos estruturados e exequíveis.
O desafio da sustentabilidade cultural

O prefeito destacou ainda a necessidade de maior participação da iniciativa privada e de autonomia da FCCDA para captar recursos.
Até hoje, o grande mecenas cultural tem sido a Prefeitura, mas com a queda sucessiva da produção mineral e a consequente redução da receita tributária, é urgente buscar novos parceiros.
A proposta de ampliar o festival e restaurar o centro histórico para transformá-lo em um grande espaço cultural aberto segue o exemplo de outras cidades históricas que souberam valorizar seu patrimônio em benefício do turismo cultural.
“A arte tem esse poder de alcançar a alma das pessoas. O Festival de Inverno cumpre esse papel extraordinário, além da conexão com a educação e a formação artística”, disse Maro Antônio Lage.
Daí que Itabira precisa reinventar sua economia cultural, ampliando o festival como atrativo turístico e de identidade, garantindo que a cultura seja vista como investimento estratégico, não apenas como despesa para prefeitura e setor privado.
Sobre o espetáculo de abertura, Aurora

A noite cultural foi encerrada com o espetáculo Aurora, uma homenagem à obra de Paulo Mendes Campos, escritor admirado por Carlos Drummond de Andrade.
“Drummond dizia que Paulo Mendes fazia da crônica um gênero da poesia. É uma beleza trazer Paulo Mendes a Itabira”, afirmou o prefeito.
Com direção da Rubim Produções, o espetáculo abriu o festival com poesia e intensidade, traduzindo o espírito de Travessias que orienta esta edição.
A peça trouxe ao palco a delicadeza da crônica transformada em arte cênica, reforçando o elo entre literatura e teatro que marca a tradição cultural de Itabira.
Serviço
52º Festival de Inverno de Itabira – Travessias
Data: 15 a 26 de julho de 2026
Locais: Diversos espaços culturais e públicos de Itabira (MG)
Programação: 52º Festival de Inverno de Itabira
Confira também: CADERNO DE OFICINAS 52º FESTIVAL DE INVERNO DE ITABIRA
Realização e apoio
O 52º Festival de Inverno de Itabira – Travessias é uma realização da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA) e da Prefeitura de Itabira.








