Mais um plano para Itabira: consultoria da Vale apresenta Masterplan de Turismo. Será mesmo para valer?
Fotos: Masterplan/ Arcadis/Reprodução
De teleférico mirabolante à reabilitação do centro histórico descaracterizado, construção de um novo hospital, a cidade já viu planos grandiosos se repetirem sem sair do papel. Que este não seja mais um capítulo da mesma história repetida como farsa
Carlos Cruz
Itabira volta a ser brindada com mais um plano grandioso. Desta vez, é o Masterplan de Turismo, produto da consultoria internacional contratada pela Vale, a Arcadis.
Foi apresentado em reunião on-line realizada no dia 4 de fevereiro deste ano, conduzida pela Arcadis, empresa de consultoria internacional contratada pela Vale no âmbito do projeto Itabira Sustentável.
No papel, é uma vitrine de sonhos: teleférico no Pico do Amor, centro de convenções, hotel-escola, observatório astronômico, revitalização do centro histórico, incluindo a restauração do casarão do antigo hospital Nossa Senhora das Dores.
Mas será mesmo para valer? Ou será mais um plano para o itabirano ver, acreditar e depois esquecer de cobrar?
A tradição de planos que não se cumprem
O itabirano é, sobretudo, um crédulo, como se observa em outros tempos – e ainda continua sem adotar a lição de São Tomé de ver para crer.
Acreditou no projeto Itabira 2025, lançado em 1992 pela Associação Comercial de Itabira, com apoio da Vale, que prometia diversificação econômica para o município não mais depender da mineraração quando o minério se exaurisse.
Pois até mesmo aquela projeção do fatídico ano de 2025, quando se anunciava a exaustão mineral em Itabira, felizmente não se concretizou. O minério continua sendo extraído, ainda que em ritmo decrescente.
Mas, se por um lado a catástrofe da interrupção abrupta da mineração não aconteceu, por outro também não se realizaram os projetos de desenvolvimento que deveriam preparar a cidade para o pós-minério.
As iniciativas de diversificação econômica, tantas vezes prometidas, seguem adiadas indefinidamente, relegadas às calendas gregas – expressão que bem traduz o costume de empurrar para um futuro incerto aquilo que deveria ter sido feito há muito tempo. “A vida passa devagar em Itabira do Mato Dentro”, já advertia Drummond em Vila de Utopia.
Acreditou na usina de pelotização que se instalaria no município, anunciada na gestão do então poderoso superintendente Ricardo Dequech, da Vale. Foram todas para o Espírito Santo e necas para Itabira.
Acreditou nos planos da Fundação Israel Pinheiro, contratados pela Vale, que poderiam ter feito da cidade uma nova Manchester Mineira, como assim Juiz de Fora foi chamada no passado.
Acreditou até nos estudos da Fundação Christiano Ottoni para captação de água, apresentados como condicionante da LOC 2000, mas sem recursos para execução.
Só agora, por força de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), assinado em agosto de 2020 com o Ministério Público de Minas Gerais, por ter a Vale deixado a cidade sem água, a respectiva condicionante será integralmente cumprida.
Durante todo esse tempo, mais de um quarto de século, Itabira continuou sem água, pelo fato de as principais fontes superficiais e subterrâneas estarem a serviço da mineração.
E só agora, por força desse TAC, repita-se à exaustão, o projeto Rio Tanque está em andamento, com previsão de conclusão apenas em 2027.
Isso para para garantir o básico, que é o suprimento de água à população, e em volume suficiente para atrair novas indústrias que demandam esse insumo em grande volume.
Os projetos do Masterplan
O Masterplan de Turismo de Itabira, um documento volumoso, apresenta uma série de propostas que misturam velhos anseios da cidade com ideias mirabolantes embaladas em cifras milionárias e metodologias de avaliação importadas de experiências em outras localidades.
Entre os projetos, destaca-se a revitalização do centro histórico, orçada em R$ 56 milhões, incluindo a restauração do antigo prédio do hospital Nossa Senhora das Dores, com parte dos recursos prometidos pela Vale e potenciais financiamentos do BNDES, Banco Mundial e Novo PAC.

A ironia é inevitável: foi a própria mineradora quem ajudou a descaracterizar o centro histórico ao levar a hematita que calçava suas ruas como pagamento de dívida da Prefeitura, na gestão do ex-prefeito Daniel Grisolia. Na verdade, quem tem dívida histórica com a cidade é a Vale.
Outro velho sonho reaparece: o teleférico no Pico do Amor, estimado em R$ 21 milhões, com expectativa de execução por meio de parcerias público-privadas (PPPs). Um projeto que já figura há décadas no rol das intenções, mas que não sai do papel por falta de recursos – e também por não haver consenso sobre sua real importância.
O plano também prevê a construção de um centro de convenções, orçado em R$ 50 milhões, com parte dos recursos vindos da Vale, complementados por aportes do governo federal e outras parcerias privadas.

A proposta é apresentada como um equipamento capaz de dinamizar o turismo de negócios e fortalecer a economia local, mas, como tantos outros projetos, depende de fontes externas e de uma articulação política e financeira que historicamente não tem acontecido em Itabira.
Outro projeto é o hotel-escola, que seria implantado no imóvel do antigo Hotel Pousada do Pinheiro, em parceria com o Sistema Sesc/Senac e outras fontes privadas.
Aqui cabe uma observação e reparo. Diferentemente do que está no plano, que chama o antigo hotal de Pousada dos Pinheiros, assim como repetem em Itabira, o nome do espaço é uma homenagem a Israel Pinheiro, ex-presidente da Vale. Nunca houve pinheiros por lá, pois trata-se de um terreno rupestre, onde essa espécie exótica sequer se adaptaria.

Entre os projetos urbanísticos, figura também o de transformar a avenida Carlos Drummond de Andrade em um boulevard cultural e gastronômico, com orçamento superior a R$ 16 milhões. A proposta prevê áreas para pedestres, ciclistas, eventos e comércio criativo, integrando paisagem urbana e cultura.
No entanto, há um obstáculo ignorado pelos consultores internacionais: o órgão ambiental estadual não mais permite o fechamento de canais.
No caso específico do boulevard, isso implicaria em uma grande intervenção por onde corre o córrego da Penha. Trata-se de uma restrição legal e ambiental que inviabiliza a execução do projeto tal como foi apresentado.
Investimentos culturais e urbanísticos

Na área cultural, o plano inclui ainda a reconstrução da sede da fazenda do Cubango, demolida pela Vale, com a promessa de virar a Casa de Cultura Elke Maravilha, em Ipoema, com orçamento de R$ 3,1 milhões, a ser alocado pela mineradora e reerguida em terreno pertencente à Prefeitura.
Outra proposta é o museu geológico, orçado em R$ 50 milhões, também dependente de recursos alocados pela Vale, via Lei Rouanet, renúncia fiscal da União, que igualmente tem dívida histórica com Itabira.
Soma-se ainda um observatório astronômico de R$ 20 milhões, com recursos da mineradora, emendas parlamentares e parceria com a Unifei.

Há também projetos de menor porte, mas igualmente relevantes, caso sejam efetivamente realizados: as rotas cicloturísticas e religiosas, o turismo de base comunitária nos quilombos, além da revitalização do centro de educação ambiental na Mata do Intelecto, com valores que variam entre R$ 680 mil e R$ 2,3 milhões. A captação desses recursos também permanece incerta.
Todos esses projetos foram apresentados com pontuações técnicas e referências a experiências em outras cidades brasileiras. Mas, como sempre, dependem de “potenciais fontes de financiamento” e da boa vontade da mineradora.
E, no caso da Vale, a maior parte dos investimentos deve vir pela Lei Rouanet, ou seja, por renúncia fiscal da União.
Isso, no entanto, não deve ser visto como problema: afinal, a dívida histórica não é apenas da mineradora com Itabira. É também da União, que desde 1942 concedeu isenção de impostos à Vale, deixando Itabira sem nada receber pela quase totalidade da hematita extraída do Pico Cauê.
Somente com a instituição do Imposto Único sobre Minerais (IUM), em 1964, regulamentado anos mais tarde, o município passou a receber alguma compensação tributária, ainda assim uma merreca de apenas 20%, enquanto o Estado ficava com 70% e a União com 10%.
Que venham, portanto, esses recursos. Mas, como São Tomé, é preciso ver para crer. Que não seja esse plano apenas mais um para o itabirano acreditar e depois esquecer de cobrar sua realização.
PRFIMI: ficção para o itabirano não ver

Não é a primeira vez que Itabira recebe planos grandiosos embalados em relatórios técnicos. São muitos, conforme já relacionados.
Outro exemplo mirabolante é o Plano Regional de Fechamento Integrado das Minas de Itabira (PRFIMI), revelado por este site Vila de Utopia.
Esse documento, de 2013, também prevê iniciativas que, se realizadas, tornando-se de fato e não de ficção, poderiam transformar a cidade. Entre as propostas está o cultivo de plantas medicinais nas pilhas de estéril, aproveitando áreas exauridas para produção de insumos terapêuticos.
Inclui ainda a construção de um novo hospital regional e a criação do chamado Ecoparque Cauê, apresentado como “driver indutor” de uma nova economia voltada à saúde e à indústria farmacêutica.
No papel, parece ser uma maravilha. Mas, na prática, não passa de mais uma peça de ficção consultorial. A Vale reconhece a existência do plano, mas nunca explicou para que fim foi elaborado.
O documento foi assinado pela consultoria internacional Bureau, que tem entre seus responsáveis técnicos os mesmos profissionais da Tüv Süd, os engenheiros Makoto Namba e André Jum Yassuda, que atestaram a segurança da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho – e respondem criminalmente pelo rompimento da estrutura de contenção de rejeitos.
O PRFIMI repete o mesmo modus operandi da Vale que Itabira há muito já deveria conhecer bem. São planos contratados a peso de ouro, elaborados por consultorias internacionais, mas sem clareza sobre execução, financiamento ou compromisso real da mineradora – e que não saem do papel.
No caso desse PRFIMI, nem mesmo foi divulgado à população, como se bastasse existir em PDF para cumprir uma formalidade, sobre a qual nada se sabe. No fim, não serviu nem para o itabirano ver, acreditar e depois esquecer.
Assim como o Masterplan de Turismo, o PRFIMI é mais um capítulo dessa longa história de promessas que se acumulam em Itabira sem se materializar.
Ambos revelam uma estratégia recorrente que é de vender ilusões de diversificação econômica e reparação histórica, enquanto a dependência da mineração e a sua exaustão continua sendo um espectro a rondar a cidade.
São filmes reprisados historicamente em Itabira, com planos grandiosos, consultorias internacionais, cifras milionárias, promessas de diversificação nunca realizadas.
A dívida histórica é da Vale com a cidade, e também da União. Será paga algum dia? Os itabiranos, crédulos que são em boa parte, acreditam que sim, enquanto “cruzam os braços e veem a vida passar devagar em Itabira”.
Por isso, recomenda-se cautela. Torço para ser desmentido com o que virá, ou não.
Que a história não se repita como farsa. Que este plano não seja apenas mais um para o itabirano ver, acreditar e depois esquecer de cobrar.









