Livro do Clima de Greta Thunberg é para ler aos poucos
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InstagramCom mais de 100 especialistas e uma estrutura de consulta, “O Livro do Clima” (The Climate Book: The Facts and the Solutions), livro organizado por Greta, é informativo e exigente, e pede um ritmo próprio de leitura.
Alguns livros a gente devora de uma vez. Outros a gente abre, lê, fecha, relê e retoma inúmeras vezes. “O Livro do Clima” pertence ao segundo grupo
Henrique Cortez *
Um livro pensado para consulta, não para leitura rápida
EcoDebate – São mais de quatrocentas páginas, repletas de gráficos e fotografias coloridas. À primeira vista, parece um livro didático, e é um pouco isso mesmo. A ideia de Greta Thunberg não era de uma obra que o leitor termina, aplaude e devolve à estante, mas montar uma espécie de biblioteca portátil sobre a crise climática, à qual se possa voltar sempre.
A organização ajuda. O livro tem cinco partes: como o clima funciona, como o planeta está mudando, como isso nos afeta, o que já foi feito e o que ainda precisa ser feito. Cada parte abre com um texto curto de Greta, seguido por dezenas de capítulos assinados por especialistas.
Cada capítulo ocupa poucas páginas e trata de um assunto específico. Há geofísicos, oceanógrafos, economistas, historiadores, filósofos e lideranças indígenas. Entre os nomes mais conhecidos estão Margaret Atwood, Naomi Klein, Elizabeth Kolbert e o brasileiro Carlos Nobre.
Textos que se sustentam sozinhos
A vantagem desse formato é a liberdade. Dá para abrir em qualquer página sem a sensação de ter perdido o fio, porque cada capítulo explica seu ponto, apresenta os dados e termina.
Muitas das escolhas de autores são acertadas. O texto de Peter Brannen sobre o ciclo do carbono trata a geoquímica como uma tragédia épica, e quando terminei fiquei um bom tempo olhando pela janela.
O capítulo de Kate Marvel sobre secas e enchentes também ficou comigo. Ela escreve com contenção, e é justamente essa frieza que deixa a gravidade da situação mais nítida.
O que cansa: muitas vozes
O mesmo formato tem um custo. Mais de cem autores significam estilos muito diferentes: há quem escreva com rigor técnico, quem escreva com raiva, quem seja acadêmico e quem seja poético.
Em alguns momentos tive a impressão de estar num congresso interminável. Ora me emocionava, ora me dispersava, ora sentia que era informação demais.
Há também um efeito acumulado. Ler vários capítulos seguidos sobre ondas de calor, incêndios, enchentes e extinções cria uma pressão que nem todo leitor suporta.
Para mim, o livro oscila entre inspirar e paralisar, dependendo do dia e do capítulo.
A voz de Greta e o peso do momento
Os textos da própria Greta aparecem nas transições entre as partes. São diretos e sem rodeios, com a franqueza de quem não está ali para agradar ninguém. Esse tom puxa o leitor para fora dos gráficos e lembra que o assunto não é acadêmico, está acontecendo agora.
O momento da publicação também pesa. O livro saiu às vésperas da COP27 e a leitura me levou de volta a conversas de muito tempo atrás. Greta nasceu em 2003, e eu me lembro de como o assunto era tratado naquela época: mudança climática ainda soava distante, quase entre aspas.
Para mim, o livro funciona como uma conta que chegou atrasada, listando página por página o que foi ignorado, minimizado ou deliberadamente embaralhado nas últimas décadas.
E agora, o que e como mudar?
O livro defende que são necessárias mudanças sistêmicas, que a atitude individual não basta e que é preciso mexer na engrenagem econômica. Concordo. Mas, na minha leitura, ele desenvolve muito mais o diagnóstico do que o caminho.
As alternativas apontadas são mais direções do que propostas práticas. E o livro se detém pouco no que fazer, com as mudanças que já são inevitáveis. É um limite que não anula o valor da obra, mas que ela deixa em aberto.
Como ler O Livro do Clima sem se esgotar
Minha dica é não tratar o livro como uma leitura superficial. Deixe-o por perto, leia um ou dois capítulos por vez, demore-se nos temas que mais interessam.
E feche quando sentir que chegou ao limite. Ele foi feito para isso.
Se o livro “serve” para alguma coisa, acho que depende do que o leitor faz depois. Ele não oferece consolo nem empurra para o desespero.
Coloca os fatos na mesa e espera, em silêncio, que cada um decida o que fazer com eles.
Enfim, recomendo, recomendo e com certeza recomendo.
* Henrique Cortez, jornalista e ambientalista.

The Climate Book: The Facts and the Solutions
Compilado e editado por Greta Thunberg
Editora: Penguin Press / Companhia das Letras
Data da publicação: 14 fevereiro 2023
Idioma: Inglês
Número de páginas: 464 páginas.









