Itabira prepara dois atos na Independência, entre cidadania nas escolas e ato cívico religioso do Conselho de Pastores no 7 de Setembro
Fotos: Carlos Cruz
Ato no Areão deve reviver velhas palavras de ordem da TFP e da Marcha da Família com Deus no pré golpe de 1964, enquanto a Prefeitura promove o Mês da Pátria com foco na cidadania e na formação democrática nas escolas
Itabira entra na semana da Independência dividida entre duas leituras sobre o significado do 7 de Setembro. De um lado, a Prefeitura dedica o mês inteiro à formação cidadã nas escolas municipais.
De outro, o Conselho de Pastores convoca para o próprio dia 7 um ato cívico religioso na praça do Areão, sob o tema “Uma Pátria aos Pés da Cruz”, retomando símbolos que historicamente se associam ao nacionalismo cristão e a movimentos conservadores.
A coexistência desses dois discursos revela como a disputa ideológica que o país vive neste período de campanha se manifesta no cotidiano itabirano, refletindo a mesma polarização, entre cidadania nas escolas e ato cívico religioso do Conselho de Pastores no 7 de Setembro
Prefeitura celebra a cidadania e reforça valores democráticos no Mês da Pátria

A programação oficial da Prefeitura, divulgada pela assessoria de imprensa, não inclui nenhum evento público no dia 7 de setembro. As atividades acontecem ao longo de todo o mês, dentro das escolas municipais, com propostas que discutem história do Brasil, soberania, democracia, diversidade, respeito e participação social.
A Secretaria Municipal de Educação afirma que o objetivo é aproximar o conceito de cidadania da vida cotidiana dos estudantes, valorizando atitudes como o cuidado com os espaços públicos, o respeito às diferenças, a convivência comunitária e a responsabilidade social.
O Mês da Pátria, segundo a divulgação oficial, foi estruturado para estimular o protagonismo estudantil, com projetos que envolvem leitura crítica, produção de textos, debates sobre direitos e deveres, atividades de preservação ambiental, rodas de conversa sobre convivência e ações voltadas para o fortalecimento da cultura de paz.
A proposta pedagógica enfatiza que a cidadania não se limita a datas comemorativas, mas deve ser vivida diariamente, em práticas que consolidem valores democráticos e o respeito à pluralidade.
O discurso institucional se alinha ao campo democrático progressista, o mesmo que orienta a posição política do prefeito Marco Antônio Lage (PSB), que apoia a reeleição do presidente Lula. A abordagem reforça a ideia de Estado laico, de formação cidadã plural e de educação como instrumento de emancipação social.
Ao priorizar atividades escolares e evitar atos públicos no dia 7, a Prefeitura sinaliza que a Independência deve ser celebrada com reflexão crítica, participação comunitária, ênfase na soberania nacioal e compromisso com a democracia — e não com manifestações de caráter religioso ou moralizante.
Conselho de Pastores convoca ato com forte simbologia religiosa e nacionalista no feriado da Independência

Enquanto a Prefeitura trabalha o Mês da Pátria dentro das escolas, o Conselho de Pastores prepara um ato público para o próprio 7 de setembro, na Praça do Areão, nesta segunda feira.
O tema escolhido, “Uma Pátria aos Pés da Cruz”, mistura símbolos nacionais e religiosos, evocando uma visão de Brasil submetido a valores cristãos conservadores. A própria formulação do tema remete a discursos de moralização da política e à ideia de que a nação deve se orientar por princípios religiosos, deslocando o sentido cívico da data para um campo de disputa ideológica.
Historicamente, atos organizados pelo Conselho atraem políticos do campo conservador, da extrema direita, mobilizando fiéis das igrejas neopentecostais da cidade.
Em anos anteriores, eventos semelhantes, como a “Marcha com Jesus, pela Família e pelo Brasil”, contaram com a presença de candidatos alinhados à direita e à extrema direita, que buscam nesse segmento religioso uma base eleitoral mobilizada e disciplinada.
Embora o Conselho não cite nomes de candidatos e seus dirigentes afirmem não se tratar de evento político, o viés do ato, por si só, já denota um encaminhamento político claro.
A pauta moralizante, o apelo à “família tradicional” e a fusão entre fé e patriotismo se alinham ao discurso da extrema direita nacional, hoje representada pela candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.
A escolha do 7 de Setembro, data historicamente apropriada por movimentos conservadores, reforça esse enquadramento e alinhamento claro à candidatura bolsonarista.
Palavras de ordem da TFP de 1964 reaparecem neste 7 de Setembro

Repita-se: o tema escolhido pelo Conselho, “Uma Pátria aos Pés da Cruz”, não é apenas uma expressão devocional. Ele se insere em uma tradição política específica que remonta aos anos 1960, quando setores conservadores, empresariais e religiosos mobilizaram multidões contra o governo João Goulart.
A mais emblemática dessas mobilizações foi a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, realizada em março de 1964, que se tornou um dos pilares simbólicos do ambiente que antecedeu o golpe militar. A marcha difundia a ideia de que o Brasil estava sob ameaça de forças “anticristãs” e “subversivas”, e que somente a defesa da moral tradicional poderia salvar a nação.
Nesse mesmo período, a TFP (Tradição, Família e Propriedade), liderada pelo ultraconservador Plinio Corrêa de Oliveira, atuava intensamente na disseminação de uma visão de país baseada na preservação da família cristã e na rejeição de reformas sociais.
A organização construía a figura de um inimigo interno, o comunismo, apresentado como ameaça existencial à moral, à ordem e à própria sobrevivência da nação. Essa estrutura discursiva, centrada na fabricação de um inimigo difuso e moralizado, é hoje reciclada pela extrema direita e por setores neopentecostais como base de sua mobilização política.
A TFP operava com forte apelo emocional, mobilizando o medo, a moral religiosa e a ideia de decadência nacional para justificar a necessidade de intervenção militar na política. Trata-se de um repertório discursivo que, embora pareça datado, retorna com surpreendente vitalidade no Brasil contemporâneo.
A reciclagem contemporânea do discurso moralizante
A retórica da extrema direita atual que orbita em torno do bolsonarismo reproduz esses mesmos elementos: a defesa da “família tradicional”, a denúncia de um suposto complô contra valores cristãos, a construção de inimigos difusos (comunistas, globalistas, chineses, feministas, defensores da diversidade) – e a ideia de que o país está à beira de um colapso moral.
A diferença está na roupagem, não na ideologia. Se antes o fantasma era o comunismo que “vai invadir o país e comer as criancinhas”, hoje o inimigo é a pauta de direitos humanos, a diversidade, a laicidade do Estado, as políticas sociais progressistas e qualquer movimento que questione hierarquias tradicionais.
É nesse contexto que o ato convocado pelo Conselho de Pastores para o 7 de Setembro deve ser entendido. Ao propor “Uma Pátria aos Pés da Cruz”, o Conselho não apenas mistura símbolos nacionais e religiosos, como reinscreve o feriado da Independência em uma narrativa que busca submeter o Estado à moral cristã, contrariando frontalmente o princípio constitucional da laicidade.
A data cívica, que deveria celebrar a soberania nacional e a formação cidadã, é apropriada para reforçar uma visão de Brasil cristão, moralizado e avesso a transformações sociais profundas. É puro fundamentalismo religioso e político, juntos, misturados.
Por mais que seus dirigentes afirmem que a mobilização é neutra, a declaração não resiste à análise factual. O ato opera como instrumento político, mesmo quando seus organizadores negam intenção eleitoral.
A fé é utilizada como legitimadora de um projeto de poder, e a religião é apresentada como guardiã da nação, exatamente como ocorreu no pré golpe de 1964. É assim que a lógica permanece a mesma, com a construção de um inimigo, a mobilização pelo medo, a apresentação da moral religiosa como solução, deslocando o debate público para o terreno da salvação espiritual.
O 7 de Setembro, portanto, volta a ser palco de uma disputa simbólica que atravessa décadas da história brasileira. O que se propõe para o feriado no Areão não é apenas um ato religioso.
É a reativação de um repertório político que já foi decisivo no passado para legitimar o golpe militar de 1964 – e que agora retorna com força na política nacional, estadual e municipal.
Guerra de posição x Gerra de Movimento
A convocação do ato “Uma Pátria aos Pés da Cruz” se insere em um histórico contínuo de mobilizações religiosas com forte conteúdo político em Itabira, promovidas pelo Conselho de Pastores.
O discurso e as palavras de ordem foram os mesmos da “Marcha da Inocência”, liderada por pastores evangélicos e vereadores conservadores, todos unidos na “defesa da família”, “proteção das crianças” e “valores cristãos”, com forte carga moralizante, o mesmo repertório simbólico que reaparece agora.
No 7 de Setembro de 2024, por exemplo, o desfile cívico oficial seguiu o mesmo ritual e narrativas da “Marcha pela Família e pelo Brasil”, também repetindo as mesmas palavras de ordem dos anos 1960: Deus, Família, Brasil.
No mesmo 7 de Setembro ocorreu também a “Marcha dos Excluídos”, promovida pela Igreja Católica, com viés progressista. Em publicação neste site, essa disputa entre católicos e evangélicos foi comparada a uma “guerra de posição” x “guerra de movimento”, nos termos de Gramsci.
Ambos se encaixam na lógica da mobilização permanente, ocupando ruas e datas simbólicas com suas bandeiras, progressistas de um lado, alinhadas à Teologia da Libertação, de outro, as pautas conservadoras e reacionárias, alinhadas à Teologia do Domínio.
É assim que o Brasil se transforma em laboratório da extrema direita global, com forte participação de igrejas evangélicas na difusão de pautas moralistas e nacionalistas – fenômeno que se reflete em Itabira.
Durante a pandemia, grupos religiosos conservadores difundem negacionismo e promessas de cura milagrosa, agravando a crise sanitária. Inclusive, pastores foram vistos em Itabira adquirindo grande volume de remédios placebos receitados pelo ex-presidente contra a Coovid-19 e distribuindo como panaceia ao grande mal sanitário entre seus fiéis, mesmo sabendo não haver eficácias cientificamente comprovadas.
Mulheres contra, pastores a favor de Bolsonaro em 2018

Na eleição de 2018, pastores, vereadores e deputados, em marcha pela avenida João Pinheiro, em campanha pró Bolsonaro, fizeram arminhas com as mãos, todos unidos pela “família e Deus”, manifestando o alinhamento ao bolsonarismo. Fizeram arminhas pela “família e Deus”, manifestando o alinhamento ao bolsonarismo.
No mesmo dia, o coletivo “Mulheres Itabiranas Unidas contra Bolsonaro” realizou sua passeata, denunciando o autoritarismo, o machismo e a violência política. O ato, organizado de forma autônoma por mulheres da cidade, sem vinculação partidária, reuniu jovens, trabalhadoras, mães e lideranças comunitárias em defesa da democracia e dos direitos civis.
A manifestação ocupou a avenida João Pinheiro e subiu trecho da rua Água Santa com faixas, cartazes e palavras de ordem, tornando-se um marco da resistência local ao bolsonarismo e um contraponto direto à “Marcha da Inocência”, que acontecia simultaneamente.
A passeata das mulheres expressou a citada “guerra de posição” descrita por Gramsci, com mobilização crítica, plural e democrática, enquanto a marcha pró-Bolsonaro representava a “guerra de movimento”, baseada em moralismo religioso, disciplinamento e apelos à ordem.
A coexistência desses dois atos, no mesmo dia e na mesma cidade, evidenciou que a disputa simbólica que hoje se intensifica em Itabira já estava presente na campanha de 2018, quando a extrema direita avançava com narrativas autoritárias e setores progressistas buscavam defender a soberania popular e os direitos fundamentais.
Palavras de ordem da TFP de 1964 reaparecem neste 7 de Setembro
O tema escolhido pelo Conselho, “Uma Pátria aos Pés da Cruz”, não é apenas uma expressão devocional. Ele se insere em uma tradição política específica que remonta aos anos 1960, quando setores conservadores, empresariais e religiosos mobilizaram multidões contra o governo João Goulart.
A mais emblemática dessas mobilizações foi a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, realizada em março de 1964, que se tornou um dos pilares simbólicos do ambiente que antecedeu o golpe militar. A marcha difundia a ideia de que o Brasil estava sob ameaça de forças “anticristãs” e “subversivas”, e que somente a defesa da moral tradicional poderia salvar a nação.
Nesse mesmo período, a TFP (Tradição, Família e Propriedade), liderada pelo ultraconservador Plinio Corrêa de Oliveira, atuava intensamente na disseminação de uma visão de país baseada na preservação da família cristã e na rejeição de reformas sociais.
A organização construía a figura de um inimigo interno, o comunismo, apresentado como ameaça existencial à moral, à ordem e à própria sobrevivência da nação. Essa estrutura discursiva, centrada na fabricação de um inimigo difuso e moralizado, é hoje reciclada pela extrema direita e por setores neopentecostais como base de sua mobilização política.
A TFP operava com forte apelo emocional, mobilizando o medo, a moral religiosa e a ideia de decadência nacional para justificar a necessidade de intervenção militar na política. Trata-se de um repertório discursivo que, embora pareça datado, retorna com surpreendente vitalidade no Brasil contemporâneo.
A reciclagem contemporânea do discurso moralizante
A retórica da extrema direita atual que orbita em torno do bolsonarismo reproduz esses mesmos elementos: a defesa da “família tradicional”, a denúncia de um suposto complô contra valores cristãos, a construção de inimigos difusos (comunistas, globalistas, chineses, feministas, defensores da diversidade) – e a ideia de que o país está à beira de um colapso moral.
A diferença está na roupagem, não na ideologia. Se antes o fantasma era o comunismo que “vai invadir o país e comer as criancinhas”, hoje o inimigo é a pauta de direitos humanos, a diversidade, a laicidade do Estado, as políticas sociais progressistas e qualquer movimento que questione hierarquias tradicionais.
É nesse contexto que o ato convocado pelo Conselho de Pastores para o 7 de Setembro deve ser entendido. Ao propor “Uma Pátria aos Pés da Cruz”, o Conselho não apenas mistura símbolos nacionais e religiosos, como reinscreve o feriado da Independência em uma narrativa que busca submeter o Estado à moral cristã, contrariando frontalmente o princípio constitucional da laicidade.
A data cívica, que deveria celebrar a soberania nacional e a formação cidadã, é apropriada para reforçar uma visão de Brasil cristão, moralizado e avesso a transformações sociais profundas. É puro fundamentalismo religioso e político, juntos, misturados.
Por mais que seus dirigentes afirmem que a mobilização é neutra, a declaração não resiste à análise factual. O ato opera como instrumento político, mesmo quando seus organizadores negam intenção eleitoral. A fé é utilizada como legitimadora de um projeto de poder, e a religião é apresentada como guardiã da nação, exatamente como ocorreu no pré golpe de 1964.
É assim que a lógica permanece a mesma, com a construção de um inimigo, a mobilização pelo medo, a apresentação da moral religiosa como solução, deslocando o debate público para o terreno da salvação espiritual.
A mobilização do conservadorismo religioso em Itabira e no Brasil
No 7 de Setembro de 2024, por exemplo, o desfile cívico oficial seguiu o mesmo ritual e narrativas da “Marcha pela Família e pelo Brasil”, também repetindo as mesmas palavras de ordem dos anos 1960: Deus, Família, Brasil.
No mesmo 7 de Setembro ocorreu também a “Marcha dos Excluídos”, promovida pela Igreja Católica, com viés progressista. Em publicação neste site, essa disputa entre católicos e evangélicos foi comparada a uma “guerra de posição” x “guerra de movimento”, nos termos de Gramsci.
Ambos se encaixam na lógica da mobilização permanente, ocupando ruas e datas simbólicas com suas bandeiras, progressistas de um lado, alinhadas à Teologia da Libertação, de outro, as pautas conservadoras e reacionárias, alinhadas à Teologia do Domínio.
É assim que o Brasil se transforma em laboratório da extrema direita global, com forte participação de igrejas evangélicas na difusão de pautas moralistas e nacionalistas – fenômeno que se reflete em Itabira.
Durante a pandemia, grupos religiosos conservadores difundem negacionismo e promessas de cura milagrosa, agravando a crise sanitária. Inclusive, pastores foram vistos em Itabira adquirindo em farmácias grande volume de remédios placebos receitados pelo presidente e distribuindo como panaceia ao grande mal sanitário entre seus fiéis, mesmo sabendo não haver eficácias cientificamente comprovadas.
Agora, em 2026, a extrema direita nacional volta a convocar atos para o 7 de Setembro, apresentando o feriado como “última chance de salvar o Brasil” e conclamando fiéis a trocar Jesus por Jair ou Flávio como salvadores da pátria.
A narrativa é a mesma: o país estaria à beira da destruição moral, supostamente ameaçado pelo Mefisto – metáfora usada para representar a esquerda liderada por Lula –, e somente uma mobilização religiosa e patriótica poderia impedir o avanço do mal.
Essa convocação nacional reforça que o ato dos pastores em Itabira não é isolado, mas parte de uma estratégia articulada da extrema direita para ocupar o 7 de Setembro com símbolos religiosos, nacionalistas e messiânicos.
A disputa religiosa e ideológica é, portanto, histórica, contínua e estruturada, um reflexo da luta de classes, embora os oprimidos, os proletários tenham sido em grande parte cooptados pelos seus algozes – e o Conselho de Pastores, em Itabira, é um dos seus principais agentes.
Como não poderia deixar de ser, em Itabira, as celebrações da Independência se transformam em palco de uma disputa simbólica que espelha a polarização nacional: de um lado, o projeto democrático progressista; de outro, o projeto conservador religioso, reacionário.
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