Itabira para depois

Foto: Acervo Vila de Utopia

Por Alexandre Martins*

Itabira acaba de descobrir um pouco mais sobre o futuro que estão planejando para ela.

Um novo distrito industrial na Fazenda Palestina, com quase 100 hectares, lotes para grandes empresas, restaurante, coworking, auditórios, salas de treinamento, segurança, tratamento de efluentes e outras estruturas compartilhadas.

Custo estimado: R$ 150 milhões. A primeira fase, sozinha, consumiria cerca de R$ 80 milhões.

Um verdadeiro condomínio industrial do futuro.

A pergunta é: futuro de quem?

O secretário executivo do Itabira Sustentável, José Maciel Paiva, anunciou neste portal Vila de Utopia que o projeto será apresentado à sociedade. Ótimo. Mas apresentado para quê? Para a cidade conhecer ou para a cidade efetivamente decidir?

Porque, pela própria entrevista, muita coisa já está definida: localização, dimensão, conceito, tamanho dos lotes, estruturas compartilhadas, fases de implantação e até o custo estimado.

Quando a sociedade entra?

Não se trata de ser contra um novo distrito industrial. Muito menos contra planejamento. Uma cidade dependente da mineração e com horizonte de exaustão dessa atividade tem obrigação de pensar grande.

Mas pensar grande é diferente de pensar gigantesco.

E, principalmente, é diferente de pensar sozinho.

A Fazenda Palestina também não surgiu agora. A proposta de um novo distrito naquela região atravessa administrações. O próprio Plano de Metas 2021-2024 da Prefeitura já previa novo distrito industrial e, simultaneamente, a regularização do distrito existente.

Aliás, talvez esteja aí uma das perguntas mais importantes dessa história: o que aconteceu com o distrito que Itabira já tem?

Não faltou estudo.

Um plano de revitalização e modernização do atual Distrito Industrial identificou, depois de ouvir empresas e poder público, 31 necessidades e 40 ações, envolvendo infraestrutura, logística, competitividade, capacitação, tecnologia, governança e outros temas.

Quanto disso foi executado?

Quanto custaria executar?

Quantos terrenos podem ser recuperados, reorganizados ou disponibilizados?

Quantas empresas estão hoje esperando uma área industrial em Itabira?

E quantas já manifestaram interesse concreto em se instalar na Palestina?

Porque construir distrito industrial sem política agressiva de atração de empresas é construir endereço antes de saber quem pretende morar nele.

Nesse ponto, vale olhar para São Gonçalo do Rio Abaixo.

Não para copiar. Mas para comparar.

São Gonçalo adotou uma estratégia progressiva. Os Distritos Industriais 1 e 2 foram consolidados ao longo da MG-129. O Distrito 3 está sendo implantado às margens da BR-381. Outros espaços estão sendo estruturados à medida que novas oportunidades aparecem. E o município combina terrenos com incentivos, crédito, qualificação, apoio ao empreendedor e mecanismos de atração de investimentos.

Há uma lógica nisso: crescer conforme a demanda.

Implantar por etapas. Licenciar áreas menores. Investir à medida que empresas chegam. Evitar colocar uma montanha de dinheiro em infraestrutura para depois começar a procurar quem possa ocupá-la.

Em Itabira, estamos discutindo uma estrutura de R$ 150 milhões numa área que não possui a vantagem de estar imediatamente às margens de um grande corredor como a BR-381.

Pode haver excelentes razões técnicas para a escolha da Palestina.

Então mostrem.

Quais outras áreas foram consideradas? Houve comparação entre custos? Qual será o gasto com acessos, água, esgoto, energia, drenagem e demais estruturas? Qual será o impacto logístico para as empresas? Que setores se pretende atrair? Que incentivos serão oferecidos?

E, sobretudo: quem pagará os R$ 150 milhões?

Em junho, o custo divulgado para o empreendimento era de R$ 131 milhões e a informação era de que a Vale havia se comprometido, até então, com a doação do terreno, enquanto os demais recursos ainda dependeriam de outras fontes. Dois meses depois, a estimativa apresentada passou a R$ 150 milhões.

O Centro Histórico revela outra face do mesmo problema.

O projeto prevê cabeamento subterrâneo, drenagem, redes de água e esgoto, iluminação, pavimentação, acessibilidade e recuperação urbana. Em junho, o investimento era estimado em R$ 56 milhões e parte dos recursos ainda não estava assegurada. Agora sabemos também que a Vale adiantou R$ 5,5 milhões somente para a elaboração do projeto básico.

Cinco milhões e meio merecem mais que uma nota de rodapé.

Quem está sendo contratado? Para fazer exatamente o quê? Quanto custa cada projeto? Quanto já foi gasto no conjunto de estudos e consultorias do Itabira Sustentável?

A própria Prefeitura informa que a Vale custeou a consultoria da Arcadis na elaboração do plano. O Itabira Sustentável reúne 61 projetos e começou a ser estruturado em 2021.

Então seria saudável colocar tudo numa única página:

quem contratou, quem recebeu, quanto custou, o que entregou e quem pagou.

Isso é especialmente importante porque o próprio acordo do Itabira Sustentável promete transparência, participação social e ampla divulgação de suas ações. Houve grupos de trabalho e uma consulta pública que registrou 1.013 respostas.

Ninguém pode, portanto, dizer que não houve nenhuma participação.

A questão é outra: participar de uma consulta é o mesmo que participar das grandes escolhas?

A sociedade discutiu a localização do distrito? Comparou alternativas? Conheceu previamente os custos? Debateu prioridades? Teve acesso às diferentes opções antes de elas serem transformadas em projeto?

Ou será chamada agora para conhecer aquilo que os técnicos já decidiram?

Itabira precisa, sim, planejar 2040, 2050 e o pós-mineração.

Mas precisa sobreviver bem a 2026, 2027, 2028…

Keynes escreveu sua célebre provocação: “No longo prazo, estaremos todos mortos.” Não porque o futuro não importe, mas porque o longo prazo não pode servir de desculpa para abandonar os problemas do presente.

Essa talvez seja a reflexão que falta ao Itabira Sustentável.

Enquanto desenhamos o futuro, o minério continua saindo.

Enquanto elaboramos projetos, oportunidades continuam passando.

Enquanto contratamos estudos sobre o Centro Histórico, nosso patrimônio continua envelhecendo.

Enquanto imaginamos um condomínio industrial de R$ 150 milhões, o distrito que já existe continua esperando soluções.

O tempo não para para que Itabira fique pronta.

Planejar o amanhã é obrigação. Deixar para um impreciso amanhã aquilo de que precisamos hoje é uma maneira de matar o presente.

Chega de sustentabilidade conjugada apenas no futuro.

Sustentabilidade Já!

* Alexandre Martins é jornalista, sociólogo e novo Itabirano.

 

 

 

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