Distrito industrial na Palestina já tem projeto e será apresentado a Itabira nos próximos dias, diz José Maciel

Área da Fazenda Palestina destinada ao futuro Distrito Industrial previsto no programa Itabira Sustentável

Fotos: Carlos Cruz

Plano estratégico Itabira Sustentável tem como prioridade o novo distrito industrial, seguido da revitalização do centro histórico e da duplicação da rodovia até a BR-381. Mas sem aportes efetivos da Vale, há risco de repetir o fracasso do Itabira 2025

“Itabira pode ser um caso de sucesso ou de fracasso para a Vale”, afirma o engenheiro José Maciel Duarte Paiva, secretário executivo do programa Itabira Sustentável, em entrevista a este site Vila de Utopia.

Ele adianta que nos próximos dias será apresentado à sociedade o projeto do novo Distrito Industrial na área da antiga fazenda Palestina, considerado a principal aposta para diversificar a economia do município.

“Eu não estou preocupado se o distrito vai sair nesta ou em outra administração. Eu quero que o projeto saia e vire realidade. E nós temos que lutar para que saia ainda nesta gestão”, reforça Paiva.

Aposta na diversificação industrial com controle ambiental
José Maciel Paiva afirma que o plano Itabira Sustentável deve ter continuidade em futuras administrações e adianta que pretende discutir sua importância com todos os candidatos a prefeito em 2028

Segundo ele, o novo distrito ocupará área doada pela Vale, evitando desapropriações e custos adicionais ao município. Com quase 100 hectares de área, inseridos em uma área total de 300 hectares, o projeto será mais que o dobro maior que o atual distrito existente em Itabira, o que abre espaço para lotes de médio de um hectares e de grande porte de três hectares, mas com possibilidade de desmembramento para receber empresas menores.

“O distrito está sendo pensado com lotes maiores, mas que podem ser subdivididos. Isso dá flexibilidade para atrair tanto indústrias de porte quanto empreendimentos menores, sem perder o caráter estruturante”, explica Paiva.

Mesmo com a dimensão ampliada, o projeto prevê a preservação de extensas áreas de vegetação nativa, reforçando o conceito de ecoparque industrial. “Não é apenas ocupar o espaço com galpões. É preservar, integrar e mostrar que desenvolvimento pode caminhar junto com sustentabilidade”, acrescenta.

A infraestrutura será compartilhada, com restaurante, coworking, auditórios, segurança do trabalho e patrimonial, portaria, salas de treinamento e tratamento de efluentes, compondo o conceito de um distrito moderno e sustentável. Essa estrutura comum deve baratear custos para a implantação de novas indústrias, principalmente no controle ambiental, o que pode ser um importante diferencial na atração de empresas.

O custo estimado é de R$ 150 milhões, que deve ser alocado em três fases, sendo a primeira de cerca de R$ 80 milhões. A conclusão do licenciamento ambiental é apontada como o principal passo necessário para dar início à implantação. “Sem projetos básicos e executivos bem feitos, e sem os licenciamentos ambientais, o projeto nada anda. É um processo demorado, mas obrigatório”, afirma Paiva.

Central de resíduos: transformar lixo em riqueza

Entre os projetos em andamento está também a Central de Tratamento de Resíduos da cidade. “Hoje você vê caminhão jogando entulho em qualquer canto, nas margens das rodovias. É absurdo. Precisamos de um lugar organizado para receber todo esse material e reprocessá-lo”, afirma Paiva.

O projeto é de interesse da Vale, que por diversas vezes o incluiu como proposta, primeiro como compensação ambiental da LOC 2000, e depois como compensação social do empréstimo que fez junto ao BNDES para os projetos Itabiritos, que adequaram as plantas de Conceição e Cauê para concentrar minérios mais pobres e duros em ferro.

Prevê também o tratamento de resíduos orgânicos, recicláveis, poda e construção civil, com potencial de gerar riqueza a partir dos resíduos gerados na cidade – e também na região. “O resíduo hoje pode virar riqueza, podendo gerar energia, insumos, atrair empresas”, explica.

Centro histórico, uma readequação complexa e cara, mas necessária e urgente
Centro histórico de Itabira deve ser requalificado com obras de infraestrutura e restauração, como projejto do Itabira Sustentável

Outro projeto importante do Itabira Sustentável é a revitalização do centro histórico, com orçamento superior a R$ 50 milhões. De acordo com Paiva, a obra é bastante complexa e envolve praticamente refazer toda a infraestrutura urbana da área central. “A revitalização do centro histórico é um projeto muito complexo, mas precisa ser feito. É um legado que não pode ser adiado”, afirma o secretário executivo.

Ele explica que a intervenção exige refazer drenagem, redes de água e energia, cabeamento subterrâneo, pavimentação, iluminação e sinalização, além da restauração do antigo Hospital Nossa Senhora das Dores, na rua Major Paulo, além da revitalização de seu entorno. O projeto prevê ainda a valorização dos espaços públicos do centro histórico, integrando patrimônio cultural e funcionalidade urbana.

Para isso, Maciel Paiva informa que a Vale já adiantou R$ 5,5 milhões, suficientes para fazer a elaboração do projeto básico da requalificação do centro histórico. Com esse recurso, já estão sendo contratados os projetos urbanístico, paisagístico, luminotécnico, drenagem superficial, esgotamento sanitário, abastecimento de água, cabeamento subterrâneo e sinalização.

A execução das obras será por etapas, justamente pela complexidade e pelo custo elevado. Trata-se, portanto, de um processo longo, que certamente não será concluído no governo de Marco Antônio Lage, mas que precisa ser iniciado já, para que não se torne mais uma promessa que não sai do papel.

Parque linear na avenida CDA

Outro projeto que consta do Itabira Sustentável é o Parque Linear da avenida Carlos Drummond de Andrade, pensado como boulevard sobre o córrego da Penha. “Não é projeto faraônico. É simples. Prevê a instalação de passarelas sobre o canal, deixando espaços abertos, sem fechar o canal, o que a legislação ambiental não permite. É um projeto bacana”, defende Paiva.

O plano inclui também a revitalização dos Caminhos Drummondianos, com melhorias na infraestrutura turística do município. “Itabira tem potencial literário, ecológico e religioso. Mas precisa de organização para transformar isso em renda para a população”, observa.

Duplicação da rodovia estadual até a BR-381 está emperrada pela política
Rodovia estadual que liga Itabira ao trevo sofre com tráfego intenso e com a sobrecarga de veículos, demandando a urgência da duplicação até a BR-381

Outro projeto considerado imprescindível para Itabira diversificar sua economia e assegurar sua sustentabilidade após a exaustão de suas minas de ferro é a duplicação da rodovia que liga Itabira à BR-381, mas que esbarra na má vontade política do governo estadual. A proposta de dividir custos entre Vale, Itabira, e possivelmente com participação de São Gonçalo, além do governo estadual, não avançou apesar de atender também aos interesses de toda região, beneficiando cidades do nordeste mineiro.

Maciel admite que há uma má vontade política do governo, pelo fato de o prefeito de Itabira não ter apoiado a reeleição de Romeu Zema. O risco é que a obra permaneça em banho-maria até que se tenha um novo governo.

Enquanto isso, o tráfego intenso na rodovia estadual, com muitos veículos que seguem em direção ao Vale do Aço para fugir das praças de pedágio, além do fluxo constante a serviço da mineradora Vale, acelera a deterioração da via, que se encontra cada vez mais comprometida pela sobrecarga de circulação.

Entraves e dívida histórica da Vale com Itabira

Como se observa, os projetos dependem não apenas de licenciamento ambiental, mas também da aprovação em diferentes instâncias da Vale, que exige ritos internos para liberar recursos. “A Vale tem uma dívida com Itabira. Se ela não assumir parte significativa dos recursos necessários, no futuro com a exaustão mineral, sua imagem fica muito prejudicada”, observa Paiva.

Isso significa que, sem aportes efetivos e substanciais da mineradora, o plano Itabira Sustentável corre o risco de se tornar mais um documento sofisticado sem execução. Se o plano fracassar, será a repetição do fiasco do Itabira 2025, quando se esperava contar com apoio da mineradora e isso não aconteceu.

“Se Itabira ficar como uma fratura aberta, pode se tornar um caso como os desastres de Brumadinho e Mariana, arranhando irremediavelmente a imagem da empresa”, alerta Paiva. Ainda segundo ele, a empresa não ficará em boa situação, colocando em dúvida seus compromissos com ESG. Só o compromisso efetivo com aportes de recursos pode evitar que tudo isso se torne mais um caso de greenwashing.

Por fim, Maciel Paiva reforça que o Itabira Sustentável não é programa de governo, mas estratégico. Deve atravessar administrações e durar até além do fim da mineração, incluindo a etapa de descomissionamento das minas. Ele acrescenta que pretende levar o plano ao debate eleitoral em 2028, conversando com todos os candidatos a prefeito para garantir que o programa seja abraçado e tenha continuidade pelos próximos governos.

 

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