Itabira enfrenta tempestade perfeita de queimadas e incêndios florestais neste fim de semana

Poeira da Vale e queimada recorrente na região do bairro Gabiroba

Foto: Reprodução/
OHGB

Campanha de conscientização ainda tímida e fiscalização em curso não tem impedido a proliferação de focos

Mesmo diante da campanha de conscientização e da fiscalização com previsão de multas, ambas ainda incipientes, desenvolvidas pela Prefeitura por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente,  Itabira viveu neste fim de semana uma verdadeira “tempestade perfeita”, com diversos focos de queimadas e incêndios florestais proliferando tanto na área urbana quanto na zona rural.

Tudo indica que essa situação de grande impacto sobre o meio ambiente e a saúde da população tende a se repetir nos próximos dias, seja pela incúria de proprietários que insistem em práticas ilegais, seja pela ação dos piromaníacos, aqueles que, por impulso irresistível, sentem prazer em atear fogo em mato seco, permitindo que as chamas se espalhem rapidamente.

Sem causa ainda esclarecida, mas seguramente criminosa, uma ocorrência de grandes proporções teve início no domingo (9), ao anoitecer, em área da mineradora Vale, nas imediações do aterro sanitário do Borrachudo.

Pelo volume de fuligem da vegetação queimada que chegou até a cidade, e pelo fato de não se dar combate noturno às chamas, é bem possível que o incêndio tenha se alastrado até a manhã desta segunda-feira (10).

Espera-se que o fogo tenha sido controlado pelos brigadistas da mineradora, mas o episódio reforça a vulnerabilidade da região e a urgência de medidas mais efetivas de prevenção e combate.

Incêndio florestal na região do Borrachudo, em área da mineradora Vale, espalha fumaça e fuligem até a cidade (Foto: Carlos Cruz)
Brigadistas em ação

Também estão mobilizados os brigadistas do Instituto Bromélia, contratados pela Prefeitura para dar combate às queimadas e incêndios florestais, tanto na área urbana como na zona rural.

Como já registrado em reportagens anteriores publicadas na Vila de Utopia, o Instituto tem atuado em treinamentos e na abertura de aceiros para conter o avanço das chamas.

Mas a intensidade dos focos neste fim de semana mostrou que os esforços ainda não são suficientes diante da dimensão do problema.

Brigadistas do Instituto Bromélia combatem focos de incêndio, realizando o rescaldo em área já devastada pelo fogo em Itabira (Foto: Reprodução/Instituto Bromélia)
Danos ambientais e agravamento da saúde

As queimadas em Itabira não configuram apenas infrações ambientais como uma ameaça direta ao equilíbrio ecológico e à saúde da população.

Ao atingir a vegetação urbana e os remanescentes da Mata Atlântica em regeneração, comprometem a biodiversidade e fragilizam áreas já pressionadas pela expansão urbana e pela mineração.

Como já alertado em publicações anteriores da Vila de Utopia, a fumaça das queimadas se soma à poeira carregada de finos de minério, criando uma atmosfera tóxica que agrava doenças respiratórias e cardiovasculares.

Resultado de incêndio florestal na região do Pontal, da mineradora Vale, uma ocorrência recorrente que expõe a fragilidade da vigilância patrimonial e ambiental,  em área que deveria ser mais protegida para preservar o pouco que resta biodiversidade local (Foto: Carlos Cruz)

Crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios crônicos são os mais afetados, sobrecarregando o sistema de saúde local.

Além disso, a fuligem e as chamadas cinzas volantes, resultantes da combustão incompleta, espalham-se pelo ar e acabam sendo depositadas no solo e nos cursos d’água.

Esse processo contamina mananciais, aumenta o risco de assoreamento e erosão e reduz a fertilidade dos terrenos.

Isso porque, ao formar uma camada sobre a superfície, esses resíduos bloqueiam a entrada de luz e dificultam a troca de gases e nutrientes, provocando a morte de microrganismos essenciais para a saúde do solo.

Sem esses organismos, que são responsáveis pela decomposição da matéria orgânica, pela ciclagem de nutrientes e pela manutenção da estrutura física da terra, o solo se torna menos fértil e perde capacidade de regeneração natural.

É por isso que práticas como as queimadas em coivaras, historicamente usadas para “limpar” terrenos, não devem ser autorizadas.

Elas comprometem a biodiversidade subterrânea, matando os microorganismos, empobrecem o solo e perpetuam um ciclo de degradação ambiental que já foi denunciado em publicações anteriores da Vila de Utopia.

Fiscalização e campanha precisam ser mais efetivas
Com a estiagem, a poeira da Vale já sufoca Itabira

Embora a Prefeitura tenha publicado edital autorizando autuações imediatas e multas sem necessidade de notificação prévia, os múltiplos focos registrados neste fim de semana revelam que a medida, por si só, não basta.

É necessário ampliar a divulgação dos canais de denúncia, garantir resposta rápida às chamadas e intensificar a presença ostensiva da fiscalização nos bairros historicamente mais afetados, como a região do bairro Gabiroba, João XXIII, Pedreira – e também na zona rural.

A campanha de conscientização, ainda tímida, precisa ganhar força com ações educativas contínuas, mobilização comunitária e envolvimento das escolas.

Como também já destacado em reportagens anteriores, a população deve assumir o papel de fiscal da natureza, denunciando práticas ilegais e colaborando para reduzir os impactos das queimadas.

Sem a combinação de fiscalização rigorosa, engajamento social efetivo e, sobretudo, uma cobrança mais firme, sobretudo das autoridades municipais, em relação à poeira gerada pela Vale, Itabira continuará vivendo uma “tempestade perfeita”, com muita fumaça das queimadas, fuligem e poeira de minério em suspensão, que mesmo dentro dos parâmetros aceitáveis pela legislação, com índices apurados pelo automonitoramento, vão continuar assolando a saúde da população itabirana.

 

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