Itabira, a cidade assassinada pela extração de minério

No destaque, página do JB com reportagem publicada em 16 de abril de 1979

Acervo: Hemeroteca da BN-Rio
Pesquisa: Cristina Silveira

Nairo Alméri

Os habitantes da terra natal de Carlos Drummond de Andrade assistem à lenta demolição de um centro histórico do país e se perguntam: Para onde ir e o que fazer quando o ferro acabar?

Itabira – Desde sua fundação pelos irmãos Faria de Albernaz, bandeirantes paulistas, em 1720, até hoje, a velha Itabira do Matto Dentro, que também já se chamou Presidente Vargas, preservou costumes e tradições que hoje parecem seguir lentamente, mas sem parar, em direção ao Atlantico, nos vagões da Companhia Vale do Rio Doce, que levam para longe o que todos chamam de “o melhor minério de ferro do mundo”.

Também de lá saiu o poeta Carlos Drummond de Andrade, que os antigos moradores chamam de Carlito, mas que, apesar dos convites, jamais voltou à sua terra.

Relegada ao esquecimento pelas autoridades, os itabiranos veem a cada ano sua história morrer juntamente com o falecimento de um cidadão mais velho, a derrubada de um casarão colonial para dar passagem a novas ruas, a retirada do chão de pedras de hematita, depositadas ali há mais de um século, “para urbanização”, segundo explica a Prefeitura.

Acervo: Hemeroteca da BN-Rio

Para os habitantes de Itabira, o juízo final acontecerá no dia em que a outrora montanha do Cauê atingir a profundidade limite de sua composição mineral e os trilhos da estrada de ferro forem desativadas para outra direção. Nesse dia a sorte dos itabiranos estará selada – para onde ir e o que fazer, quando o ferro acabar?

Com a chegada da Vale do Rio Doce, todas as demais atividades econômicas foram engolidas pela mineração de ferro. Alguns fazendeiros fizeram fortuna com as mulas que carregavam minério. Quando o trem substituiu as mulas, a Vale enfrentou um problema sério: o que fazer com os animais que estavam incorporados ao seu patrimônio?

O município chegou a ser o maior parque têxtil do país, mas hoje só restam ruinas ou pontas de chaminés nas represas que a Vale criou. A cidade foi entristecendo, conta o fazendeiro e ex-presidente do Sindicato Rural, sr. Caio Martins da Costa, ao comentar que “o passado de Itabira era muito mais glorioso”.

Entre os poucos itabiranos que um dia retornaram à terra estava Domingos Martins Guerra, que se formou em medicina em São Paulo e defendeu tese em Portugal. Foi ele quem sugeriu às autoridades a demolição do Morro do Castelo, no Rio, para ajudar na erradicação da febre amarela.

De volta a Itabira, fundou as fábricas de tecidos Gabiroba e Pedreira e por conta própria construiu o Instituto Agronômico e trouxe professores da Alemanha e da Bélgica. Em 1889 doou o estabelecimento ao Estado, que não chegou a formar a primeira turma por falta de verba.

Um século mais tarde o Estado entregou parte da fazenda do Instituto a uma irmandade para a construção de orfanato. Outro notável nascido em Itabira foi o Barão de Drummond, a quem se atribui a invenção do jogo do bicho.

As joias de Itabira tornaram-se conhecidas no exterior através do trabalho de Antonino Quatorze. Natural de Sabará, ele foi o criador das joias de hematita. Quando ganhou a medalha de prata na Exposição Internacional de Joias de Torino, em 1911, sua oficina ficava na Rua Água Santa, n. 140.

Hoje seu trabalho é continuado pelos filhos, Geraldo e dona Alboni, que procuram transmitir à terceira geração a arte aprendida com o pai. Quatorze fazia joias sob encomenda da Vale, com ouro que ela própria extraia.

Entre elas dona Alboni menciona miniaturas de prego de linha de estrada, martelo e ferramenta de extrair minério. “Ao presidente Getúlio Vargas” – conta – “foi dado um prego”. A última encomenda importante da Vale foi uma placa em ouro doada ao Papa Paulo VI.

De Itabira saiu um dos grandes nomes da diplomacia nacional, o embaixador Antonio Camilo de Oliveira, delegado do Brasil à Conferência de São Francisco, que elaborou a Carta da Organização das Nações Unidas.

O embaixador completa 90 anos de idade no dia 28 de maio, vem duas vezes ao ano visitar a cidade natal. Mas, segundo diz um sobrinho, não gosta de receber visitas no sobrado da Rua Tiradentes e nem se deixa fotografar.

“Nós o chamávamos (Carlos Drummond de Andrade) de Carlito. Fomos contemporâneos, lá no Mestre Emílio, com que estudávamos francês. Durante o dia, ele era caixeiro no armazém de Randolfo Martins da Costa”.

Essa é a lembrança mais viva que o sr. Caio Martins tem de Drummond, quando garoto em Itabira. Conta que mais tarde ele foi estudar em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, de onde foi expulso com o irmão, Zé Andrade. De lá seguiu para Belo Horizonte, onde fez o preparatório no Colégio Arnaldo para, depois, formar-se em farmácia.

Em 1924, Drummond voltou a Itabira para lecionar geografia no Colégio Sul-Americano. Não se adaptou e retornou a Belo Horizonte, “onde dos contatos com Capanema” – Secretario do Interior de Olegário Maciel, entrou para a política”.

“Quando eu entrei para o Grupo Carvalho Brito, hoje Grupo Coronel José Batista, ele já estava saindo. Era de família grande, e a gente tinha receio de chegar aos Drummond”, conta dona Cecy, esposa de Mestre Ninico, o músico Antônio Lisboa Ferreira, filho de Metre Zeca Amâncio.

Ele, por sua vez, justifica uma falta de convívio com Drummond dizendo que “o lugar onde a gente morava era muito distante. Intimidade com ele, nunca”.

Mas dona Zorayde, de 86 anos, irmã de dona Cecy, se lembra da infância de Carlito. “Ele lia revistas velhas que nos enviava uma prima portuguesa que morava no Rio. Ele gostava muito de ler Careta e Fonfon”. Ela conta que ainda tem guardado um bilhete que uma amiga (a Ninita-Castilho – filha do padrinho de batismo de Drummond) que diz o seguinte: “Zorayda, o Carlito, em confiança, levou as suas Caretas”.

Mas os primeiros contatos de Drummond com a literatura foram com o Mestre Alfredo Duval, “de quem ele pegava romances”. Dona Zorayda, com muita lucidez, conta: “Ele (o Alfredo) era muito subversivo, muito avançado para a época. E o Carlito gostava muito dele”. Alfredo Duval era pintor e escultor.

Depois da curta passagem pelo Sul-Americano, “Drummond abandonou Itabira”. No dia em que foi inaugurada uma avenida com seu nome, não apareceu. Dona Zorayda acha que, naquele dia “ele não foi porque derrubaram dois sobrados do Luís Camillo, para abrir a rua”. Enquanto ela lamenta pelos casarões, Mestre Nico comenta que eles “já estavam muito estragados. Justiça seja feita”.

Mas a verdade é que os itabiranos estão magoados pelo “pouco caso” que Drummond faz de seus convites. Quando a Fazenda do Pontal, onde ele residiu, foi totalmente desmontada pela Vale do Rio Doce, recusou ir escolher o lugar onde gostaria de vê-la reconstruída. A fazenda, totalmente desmontada e “cuidadosamente numerada todas as suas peças” está à mercê do IPHAN.

Um ginasiano, Wagner Fraga, 16 anos, após comentar que a cidade “fez papel de bobo saudando Drummond com faixas no aniversário de seu nascimento”, comenta que o poeta deve fazer seus versos “com raiva de Itabira”.

O sr. Caio Martins vê uma razão muito simples “e até justa – poeta é uma pessoa sensível”, para que Drummond não retorne a Itabira. “O Carlos Drummond é um homem muito tímido. Um homem, vamos dizer, muito amável, afastado de certo convívio. Ele não gosta de aparecer; de estar na roda. Então, afastou-se de Itabira”.

A razão maior, segundo o sr. Caio Martins, é que todos os seus familiares morreram. “Então para que voltar aqui, se vai lhe doer muito?” Já dona Zorayda afirma que “ele gosta da Itabira antiga. Não gosta de ver buracos – minas de ferro. Dou a ele toda a razão; não conhece mais ninguém. Ele gosta das coisas antigas, do tempo dele”.

Itabira de hoje, é uma cidade feia, com ruas mal calçadas e sem árvores

Itabira de hoje, em tudo, contrasta com a de ontem. É uma cidade feia, com ruas mal calçadas e sem árvores. É uma construção moderna misturada com prédios do início do século e alguns casarões, que sobrevivem à fúria do tempo. Mas sua gente ignora o aspecto triste das ruas e a falta de opção num fim de semana.

Na semana que antecede o 9 de outubro, a cidade vive a Semana da Comunidade. Nos bairros, as associações de moradores levantam problemas e enviam pedidos de solução aos órgãos públicos. Na noite véspera do aniversário da cidade, os grupos de seresta, após uma semana de saídas, se reúnem num ponto central e fazem sua homenagem.

Antigamente, era hábito comum as famílias andarem em direção às montanhas para coletar areia e pó de minério para fazer os presépios de Natal. Ao pouco que resta das festas tradicionais, incorpora-se, agora, a Festa da Rainha do Minério, realizada normalmente no mês de novembro.

Mas enquanto as autoridades não decidem socorrer a arte e a cultura itabiranas, seus jovens fizeram passeata numa tarde de domingo, carregando faixas e cantando o hino da cidade, clamando por um olhar mais consciente.

“Nós, estudantes universitários, filhos de Itabira, residentes em Belo Horizonte, manifestamos nossos protestos, em virtude dos desrespeitos já antigos, com relação ao inexistente Patrimônio Histórico, que se não respira em nossos arquivos, está vivo em nossos corações”, dizia a carta aberta dos jovens.

No olhar do povo itabirano se sente que ele quer dizer que há mais poema nas ruas de Itabira do que Drummond possa imaginar.

[Jornal do Brasil, Rio, 16.4.1979. Hemeroteca da BN-Rio – Pesquisa: Cristina Silveira]

 

 

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