Genin Guerra abre “Querelas” no Festival de Inverno e expõe em aquarelas as veias abertas de Itabira
Fotos: Divulgação/ Ascom/PMI
Exposição inédita inaugura nova fase do artista itabirano, homenageado na 52ª edição do festival, um dos mais longevos de Minas Gerais. E provoca reflexão sobre memória
A noite desta quinta-feira (17) entrou para a história cultural de Itabira. A galeria da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade abriu as portas para a exposição Querelas, do artista plástico Luiz Eugênio “Genin” Quintão Guerra, um dos homenageados do 52º Festival de Inverno.
O evento reuniu autoridades, familiares, amigos e admiradores em um momento de celebração, mas também de profunda reflexão sobre o destino mineral da cidade.
Visivelmente emocionado, Genin agradeceu a homenagem e explicou a inspiração de suas aquarelas.
“É um depoimento visual que eu queria fazer há muito tempo da paisagem itabirana. Essa paisagem dilacerada, de destino mineral, é um coração sofrido. Um coração de pedra, de minério, que explode e fica um buraco.”
A nova fase artística: da charge à aquarela

Genin Guerra, conhecido por sua trajetória como cartunista, chargista e escultor, um dos fundadores do tabloide alternativo O Cometa Itabirano, inaugura com Querelas uma nova etapa de sua carreira.

Após quatro anos de estudos com o mestre aquarelista Mário Zavagli, o artista encontrou na técnica a delicadeza e a transparência necessárias para dar forma às imagens que carregava consigo há décadas.
“Eu vivenciei toda a transformação da cidade desde que nasci. Agora, com a aquarela, pude dar forma a essas memórias e questionamentos. É uma homenagem à Itabira, mas também uma crítica à degradação ambiental e à perda do patrimônio histórico. Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia, e a minha aldeia é Itabira”, afirmou, citando Tolstói.
Memória e afeto na curadoria

A superintendente da FCCDA, Vanessa Faria, destacou a importância da mostra e lembrou os primeiros passos de Genin na aquarela.
“Eu lembro quando você me mandou uma das primeiras telas, pedindo para não mostrar a ninguém. Hoje, ver essa exposição aqui é uma grande alegria e uma honra. É uma mostra que nos convida a muitas reflexões, que nos faz encontrar nossas ruas e montanhas em cada tela”, disse.
Vanessa ressaltou ainda o papel da Fundação e do Museu de Itabira na realização da exposição. E convidou o público a visitar a galeria nas próximas semanas. “Genin é múltiplo artista, cartunista, escultor, aquarelista, e sua obra é parte da identidade cultural de Itabira.”
O legado do Cometa e a militância cultural

Ao relembrar sua militância cultural, Genin citou o papel do jornal O Cometa, criado em 1979, como espaço de resistência à ditadura militar – e de diálogo com Carlos Drummond de Andrade. Ele recordou também as feiras de arte, os cartazes voluntários para grupos amadores de teatro da cidade, a militância estudantil contra a ditadura militar e a criação do Cineclube Lima Barreto.
O prefeito e jornalista Marco Antônio Lage (PSB) retomou essa memória em seu pronunciamento na abertura da exposição e homenagem ao artista itabirano. “Conversando com um antigo integrante do Cometa, ficou a dúvida se Genin é produto do jornal ou se o jornal é produto de Genin. Concordamos que são as duas coisas. Esse círculo virtuoso mostra a potência da cultura itabirana.”

O prefeito ressaltou a força da exposição e a necessidade de mais investimentos em cultura. “É uma exposição belíssima, e politizada. Genin abre as veias de Itabira, mostra o coração doente da cidade, marcado pela mineração. É uma sensibilidade que só um artista como ele poderia trazer. Por isso, defendo que 100% das crianças das nossas escolas visitem essa mostra, para entender a dimensão da mineração e refletir sobre o futuro.”
Na entrevista concedida após o evento, Lage reforçou: “Se eu tivesse que resumir essa exposição em uma palavra, seria consciência política. Genin mostra uma Itabira dilacerada pela mineração, como Drummond já revelava em suas crônicas. É uma dívida histórica e moral que precisamos enfrentar.”
O prefeito voltou a criticar o baixo investimento da Vale em cultura e defendeu a criação de uma galeria de arte profissional em Itabira.
“Se a Vale investisse proporcionalmente ao que retira daqui, seriam pelo menos 12 milhões por ano em cultura. Hoje, investe pouco mais de 2 milhões no Flitabira. Precisamos cobrar mais, porque Itabira merece. Essa identidade cultural que produziu Genin e tantos outros precisa ser fortalecida.”
Homenagens e reconhecimento

Durante a cerimônia, Genin recebeu a Comenda Personalidade de Ferro, honraria criada pela Prefeitura de Itabira para reconhecer figuras que moldam e enaltecem o município.
“Genin é força, resistência e arte. Viva Genin, viva o Festival de Inverno, viva Itabira!”, declarou o prefeito ao entregar a homenagem.
O artista dedicou a exposição à memória de sua mãe, Adelípia Quintão Guerra, a “dona Delícia”, de sua sogra, dona Dilma, e da amiga dona Elza Lage, além de familiares próximos que faleceram recentemente. “São pessoas que marcaram minha vida e que levo comigo em cada obra”, disse emocionado.
Querelas: arte como reflexão e denúncia

Mais que uma exposição, Querelas é um convite à contemplação e à reflexão.
As aquarelas de Genin dialogam com a memória, a paisagem, o patrimônio e as transformações provocadas pela mineração, estabelecendo uma potente conexão entre a história de Itabira e questões universais que atravessam o nosso tempo.
Ao transformar a dor das perdas incomparáveis em arte, Genin Guerra reafirma o papel da cultura como patrimônio vivo e como consciência política.
Querelas é um testemunho visual das veias abertas de Itabira. Mais do que uma exposição, trata-se de uma obra que atravessa memórias pessoais e coletivas, transformando a dor em arte e projetando a cidade para além de Minas Gerais.
Como Drummond, que universalizou sua aldeia em versos, e como o minério que parte diariamente no maior trem do mundo, Genin Guerra leva Itabira para o universo da consciência global, entre beleza, cores, crítica e reflexão.
Serviço
52º Festival de Inverno de Itabira – Travessias
Data: 15 a 26 de julho de 2026
Locais: Diversos espaços culturais e públicos de Itabira (MG)
Programação: 52º Festival de Inverno de Itabira
Confira também: CADERNO DE OFICINAS 52º FESTIVAL DE INVERNO DE ITABIRA
Realização e apoio
O 52º Festival de Inverno de Itabira – Travessias é uma realização da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA) e da Prefeitura de Itabira.










Genin: grande gênio.