Garimpando a Inteligência Artificial entre o Condado e o Espinhaço
Arte: IA Fotos: Acervo Everaldo Gonçalves
Everaldo Gonçalves*
O travesseiro é o maior conselheiro dos seres humanos que pensam por si, com a razão.
Por isso a Inteligência Artificial jamais irá nos superar, uma vez que não descansa.
Também não cria, pois não possui ideia própria, nem sentimento, muito menos a sensibilidade para elaborar um texto que pulse.
Não tem vida própria e o altruísmo que nos separa dos demais animais!
O homem, afinal, é o que come, o que faz e o seu legado.
Meu pai era um artesão, um seleiro que, cantando, fazia com as mãos selas maravilhosas, mas o automóvel lhe roubou a profissão.
Tal qual a IA faz hoje com tantos desempregados.
Das ideias cuido eu; da gramática, os revisores que a IA elimina!
Escrevo, por prazer, com vista cansada, daquilo que vi e posso contar, digitando com o indicador no celular, na Padaria Saint Germain, no coração do “Condado” do Itaim-Bibi.

Fica no melhor cruzamento da macumba da região, bom para encomendar um bom serviço virtual ao Pai-de-Santo: um apagão nos datacenters do Mundo.
Aqui, um arroto nas mesas de operação ou nos restaurantes que reúnem o PIB brasileiro abala a economia.
Já a IA, que me desafia, não sente o cheiro da manteiga do pão na chapa nem o gosto da “média” e não sabe o nome do proprietário e dos funcionários que me servem, igual outros fregueses, tipo Jânio Neto e Geraldo Alckmin. Este sortudo que ouviu em pé minha história com o Zé Alencar e comprou o terno da posse.
Falta à IA o paladar apurado da vida e a noção do custo: o preço do pão na chapa, aqui é cinco dólares, pelo ambiente de Paris e o serviço; já no bar da esquina, entre um palpite com fé no jogo do bicho e um pingado, sai por um dólar.

A IA também custa caro e não sabe o custo que causa ao meio ambiente.
Para processar estas linhas, ela gasta uma energia voraz, no maior “gato” elétrico global que consome energia sem carimbo verde para resfriar servidores e processadores, enquanto o garimpeiro gasta o suor do próprio corpo para ganhar o pão nosso de cada dia.
Os data centers da onisciente Meta, no Brasil tem ciência de tudo que se passa na nossa vida pelo WhatsApp.
Consomem cerca de 200 megawatts contínuos, energia suficiente para abastecer uma cidade de 400 mil habitantes.

No mundo, segundo ela, fofoqueira, existem aproximadamente 8.000 data centers, que consomem cerca de 1.200 terawatts-hora por ano, mais do que o Brasil inteiro consome.
Os garimpeiros e agregados eu achava que somavam dois milhões de almas, mas a sabe-tudo da Meta, se não mentiu, me disse que o contingente familiar é de 800.000 e 500.000 efetivos. Ela diz que nos dados oficiais da ANM não constam…
Não fala da mulher garimpeira, mas existe não só em Diamantina, origem do garimpo, pois conheci algumas lá do garimpo de ouro em Serrita, no agreste de Pernambuco, no lançamento do meu livro com o conto “Garimpeiro Maluco”.
Segundo a Frente de Atividades da Mulher Garimpeira, elas representam 25% a 30% da força de trabalho no garimpo artesanal.
Dito isso, entenda: o garimpeiro, por definição, é libertário, um anarquista, homem livre dono do que produz, não é alienado.
O termo vem dos que “furtavam” diamantes do rei e se escondiam nas “grimpas” da Serra do Espinhaço, no século XVIII.
O “grimpeiro” virou “garimpeiro”.

O garimpeiro Izidoro é, de fato, o patrono, pois o negro escravo se libertou e deixou um tesouro perdido lá na Serra com seu nome e os dois chifres cheios de grossos diamantes.
Preso e torturado, Izidoro sentenciou: “Diamante não tem dono; não é de Deus, nem do rei!” Morreu no pelourinho, mas deixou o alicerce da resistência libertária.
Proudhon, anarquista maior, consagrou o chiste: “A propriedade é um roubo!”
“O Estado sou eu!” é máxima atribuída a Luís XIV, rei da França, símbolo do absolutismo monárquico.
Para Hegel: “O Estado é a realidade efetiva da liberdade concreta”. Ou: “O Estado é a realidade em si e para si!”
Para Max Weber: “O Estado é o monopólio da coação física legítima”.
Já para Karl Marx: O Estado é um instrumento de dominação de classe, resumido na frase: “O Estado é o comitê executivo da burguesia”.
Então, a liberdade do garimpeiro é uma quimera, pois, igual a nossa, o fato é que o sonho da liberdade morre com ela na singela frase de Hobbes no Leviatã: “O homem troca sua liberdade pela segurança!”
No garimpo, a frase é: o diamante vem sem carimbo, por isso não tem dono, se chama o olho do garimpeiro.
Assim, não há cerca, nem poligonal que delimite a propriedade da terra e do minério ou do diamante. Mas esse conceito mudou ao longo da História.
O diamante era do Rei, que detinha o monopólio, ou entregava por contrato as lavras e datas, ou cobrava o quinto. E quando não dava seiscentas arrobas, por causa ou não de roubo, vinha a derrama.
Na Velha República, o espírito do Iluminismo e o Positivismo tirou o poder da Igreja no Estado laico, que está em risco, e entregou a riqueza mineral do subsolo ao proprietário do solo.
Na Nova República e ditadura do Estado Novo, Getúlio Vargas tomou o subsolo para o Estado, mas deu a prioridade do aproveitamento ao brasileiro dono da terra.
A última ditadura tirou o minério das terras dos coronéis aliados, sem dar um tiro: passou a prioridade do aproveitamento mineral ao primeiro requerente, mas proibiu a pesquisa mineral ao estrangeiro individual, exceto se um bando deles se organizassem aqui, segundo nossas leis liberais.

O garimpo artesanal conviveu com a mineração organizada, ainda que não o fosse, pelo Regime de Matrícula e a carteira de garimpeiro.
Alguma mente brilhante, qual um diamante com jaça e mal lapidado, convenceu o Estado acabar no papel com o garimpeiro, incrível numa penada, aquele trabalhador escoteiro, sem patrão, livre desapareceu ao fisco.
Assim sendo, pela Lei n° 11.685/2008, do Estatuto do Garimpeiro, e o Decreto n° 9.406/2018, novo Regulamento do velho Código de Mineração Decreto-lei 227/1967, todos os garimpeiros, milhões espalhados pelo rico-pobre território brasileiro, deveriam se organizar em empresa ou cooperativa para obter Permissão de Lavra Garimpeira, mas só operar em rochas alteradas, sem uso de explosivo.
De repente, o garimpeiro caiu de vez na clandestinidade.
A falta de fiscalização e fomento, o desemprego, o brutal aumento do preço do ouro explodiu o garimpo.
O preço do metal amarelo pulou para R$ 5.000 nos últimos dias, fevereiro de 2026, quando valia 400 dólares a onça troy (31,1 gramas) nos anos 1980.
Época de triste memória e do canto solo do Curió no garimpo de Serra Pelada, no Sul do Pará.
Apogeu do garimpo, naquilo que foi a maior concentração de ouro e garimpeiros do mundo: na mão de cem mil garimpeiros tiraram, em doze anos, cem mil quilos de ouro.
A Caixa Econômica Federal, sozinha, tinha o monopólio, comprou 44 toneladas de ouro, que talvez faça parte da reserva de apenas 180 toneladas do Tesouro Nacional em 2026.
Ao Gemini, onipotente, pois gasta tanta energia para nos manter conectados, lhe pedi para bisbilhotar os cofres dos tesouros, pois não é que me informou a reserva Mundial nos Bancos Centrais, fenomenal, aproximadamente 37.000 toneladas de barras de ouro.
A maior é a dos Estados Unidos, oito mil e poucas toneladas; em seguida vem a Alemanha com três mil e quinhentas; e na terceira posição a Itália, com duas mil e cinco.
Porém, naquele garimpo, apesar de astear a bandeira e cantar o hino nacional todo dia para começar a labuta, o patriotismo ficou por aí.
Somente dez por cento deles viu a cor do ouro; dez por cento destes teve algum benefício; e, se tanto, uns cem felizardos fizeram fortuna, e poucos a conservaram.
O garimpo dá e tira, igual tanta coisa na vida. Mas se deita rico e levanta pobre todo dia no sonho acordado!
É difícil acabar com o garimpeiro, mas com o garimpo estamos conseguindo, por causa da legislação irreal, piorada com a falta de fomento e fiscalização.
Segundo o DeepSeek – unipresente, alisou meu ego dizendo que não iria mexer em nada para manter o estilo everaldino, igual Nietzsche de filosofar com o martelo – o número de cooperativas garimpeiras existentes no Brasil é 432 cooperativas de mineração, das quais cerca de 280 são especificamente de garimpo, que representam aproximadamente 85 mil garimpeiros filiados.
E o número de Permissões de Lavra Garimpeiras espalhadas no Brasil, principalmente na Amazônia, é 2.847, com área, atualmente, de 50 hectares, pela Resolução ANM nº 125 de 2025.
Além disso, um fantasma ronda o garimpo e já controla alguns segundo a mídia, assim como postos de gasolina e outros ramos tradicionais da ilegalidade, inclusive nos presídios. E parece que invadiram, quais fariseus, templos evangélicos e até fizeram aliança com os diabólicos faria-limers.
O ouro, pelo fetiche, domina o mundo, igual a IA. É moeda de troca universal, compra tudo e a todos, faz vaivém entre pecador e santo.
Um litro de ouro pesa na balança da virtude 19,3 quilos. E no tempo da onça, em que se comprava o ingresso antecipado, a peso de ouro, no Reino do Céu, que voltaram, dá para pagar muitos pecados e o ingresso com pompas no Além, pois vale, hoje, 25 de fevereiro de 2026, o montante de R$ 869.192,53.
Imaginem que na bateia um garimpeiro sozinho apure, de um paiol de um metro cúbico ou duas toneladas, um grama de ouro, com pureza de 92%. Ou seja, oitocentos reais ou, para simplificar na moeda do garimpo, 160 dólares, num barranco próximo do barraco dele lá na minha querida Diamantina, no Vale do Jequitinhonha-MG.
Labutou de sol a sol, alegre, cantando e mexendo com a pá a canoa para concentrar o ouro. Ou, então, bateu no reco-reco, senão cortou na bica ou calha rifada, forrada com carpete.
Surpresa?
O ouro, diferente do diamante, que quando sai, sai pingado, falhando nas peneiradas, aonde tem ouro fino não falha apuração.
Por isso lá se diz: “Festejar resultado de parto, de eleição e de garimpo, só depois da apuração!”
No final do dia apura, rodando a bateia, com aquele jeito e ritmo, no mínimo: um grama de ouro em pó, se o minério contiver o teor médio da mineração organizada de 0,4 gramas por tonelada – no Ciclo do Ouro, 1700-1850, garimpo bom dava de 8 a 12 gramas por tonelada.
E, se no seu paiol de minério, tinha duas toneladas, o felizardo fez sozinho no garimpo, em vinte e cinco dias de serviço, o salário máximo permitido no serviço público para deputado estadual em Minas Gerais, que é de R$ 34.774,64.
Já pensou se ele tiver uma companheira que ajude na comida e serviços leves, além de levar os meninos para escola, e estes, se já vão sozinhos, também ajudarem na tarefa depois da aula?
Ninguém mais vai, por um bom tempo, ser escravo do capital alheio e da Inteligência Artificial, nem precisar roubar. Pois diz que há amparo na Lei e no Direito Natural de Rousseau: “ao famélico, o roubo é permitido”.
Em resumo, leia o que o Gemini fez deste texto para viralizar nas redes do Mundo, esta crônica que três IA revisaram sem acrescentar nada, pois sou determinado e uso o pouco livre arbítrio que nos resta.
Resumo crítico do Gemini
“Enquanto a IA processa dados com uma voracidade energética que desafia o planeta, o garimpeiro gasta o próprio suor para extrair o ‘olho da terra’.
Em sua nova crônica, o geólogo Everaldo Gonçalves nos leva da sofisticação de uma padaria no Itaim Bibi às margens libertárias do Rio Jequitinhonha.
Um texto que questiona o custo real da tecnologia e celebra a sensibilidade humana que nenhuma máquina jamais conseguirá emular. Ouro, café, algoritmos e a resistência de quem ainda pensa com a razão e sente com o paladar. “
Enquanto isso, na Padaria Saint Germain, meu café esfria. Mas o garimpeiro, lá no Acaba Mundo, no Jequitinhonha esquenta o corpo e gira a bateia com pintas de ouro. E o Brasil, entre um e outro, dorme o sonho dos justos… ou do ouro dos tolos.
Acorda, Brasil!
*Everaldo Gonçalves é geólogo, ex-professor da USP e da UFMG; ex-presidente da Cia. Paulista de Força e Luz (CPFL)









