Festival literário abre sexta edição e pode, pela primeira vez, inserir a mineração no debate sobre Drummond e Itabira
Visita do jornal O Cometa Itabirano durante encontro a Carlos Drummond de Andrade, em fevereiro de 1981, no apartamento do poeta, no Rio de Janeiro. Da conversa surgiram reflexões sobre mineração, desenvolvimento e o futuro de Itabira, além de uma relação que se prolongaria nos anos seguintes com a publicação de textos e poemas inéditos, entre eles Lira Itabirana e O Maior Trem do Mundo
Foto: Humberto Martins/ Acervo O Cometa Itabirano
Presença de José Miguel Wisnik, autor de Maquinação do Mundo, reacende reflexões deixadas pelo poeta sobre a mineração, o futuro da cidade e as perguntas que permanecem abertas desde a exaustão do Cauê e com o fim inexorável de suas reservas minerais
Carlos Cruz
Embora Itabira e a mineração ocupe lugar de destaque na obra madura de Carlos Drummond de Andrade e apareça de forma recorrente em seus poemas, crônicas e entrevistas, esse tema até aqui raramente esteve presente nas discussões promovidas pelo Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira) ao longo de suas cinco primeiras edições.
A escolha de Claro Enigma como obra homenageada e a presença do jornalista, escritor, professor, músico e ensaísta José Miguel Wisnik, autor de Maquinação do Mundo: Drummond e a Mineração, criam pela primeira vez uma oportunidade rara de aproximar a reflexão literária proposta pelo festival de uma das questões centrais da maturidade intelectual de Carlos Drummond de Andrade.
Esse tema da mineração e as transformações impostas à cidade jamais deixou de habitar sua obra, sua memória, simbolizada na célebre fotografia que permaneceu na parede, povoando suas retinas tão fatigadas.
Antecedentes históricos
Quando Claro Enigma foi publicado, em 1951, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) já operava em Itabira havia quase uma década.
Criada em 1942, no contexto dos Acordos de Washington firmados durante a Segunda Guerra Mundial, a empresa rapidamente alteraria a paisagem da Serra do Esmeril, a economia e o futuro da cidade.
O Pico do Cauê, uma das principais referências geográficas e afetivas da infância do poeta, começava a desaparecer. Foi nesse contexto de intensa exploração em larga escala, que esse processo se transformaria em matéria literária.

É justamente com essa perspectiva que se tem a expectativa em torno da participação de José Miguel Wisnik no sábado (31), data em que Carlos Drummond de Andrade completaria 124 anos. Ao lado do cantor e compositor Kristoff Silva, o ensaísta participa da mesa A Máquina do Mundo em Nós.
Em seus livros e palestras, Wisnik frequentemente aproxima a máquina metafísica imaginada por Drummond da máquina econômica que transformou a paisagem de Itabira ao longo do século XX.
Por isso, sua presença é vista como uma oportunidade singular para ampliar o debate proposto por esta edição do festival. E, assim, aproximar a reflexão filosófica de Claro Enigma da experiência histórica da mineração em larga escala que transformou Itabira ao longo do século XX.
Trata-se de uma realidade muito diferente da extração ainda rudimentar de minério e da garimpagem de ouro de aluvião que Drummond conheceu na infância, na então “Cidadezinha Qualquer” que mais tarde se converteria em matéria-prima de sua poesia e de suas inquietações sobre o destino da terra natal.
O poeta e o Cometa Itabirano

A relação entre Drummond e a reflexão crítica sobre Itabira ganhou novo capítulo com o lançamento do jornal O Cometa Itabirano, em 1979, mas em especial, em 14 de fevereiro de 1981, quando visitamos o visitaram o poeta em seu apartamento, no Rio de Janeiro.
A conversa durou cerca de duas horas e resultou numa aproximação que prosseguiria pelos anos seguintes. Mais do que autorizar reproduções de textos já publicados no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil, Drummond passou a acompanhar o trabalho do jornal e a colaborar diretamente com ele.
Na ocasião, demonstrou preocupação com os rumos da cidade e com aquilo que considerava uma postura excessivamente resignada dos itabiranos diante de seus próprios desafios. “Até hoje eu não sei se a Vale foi um bem ou um mal para Itabira, mais precisamente para o itabirano”, afirmou.
Na mesma conversa, acrescentou: “Antigamente, o itabirano era mais irreverente, mordaz, crítico. Não via com bons olhos as coisas do governo. Se conduzia por meio de uma consciência crítica, lúcida. Protestava, gritava quando achava de direito. Hoje o itabirano me parece resignado, como se nada pudesse ser feito. Ele precisa acordar para os seus problemas.”
A preocupação do poeta dialogava diretamente com reflexões presentes na crônica Vila de Utopia, texto que acabaria inspirando o nome deste portal e no qual Drummond manifesta sua inquietação diante de uma cidade que parecia acreditar na eternidade de suas riquezas minerais.
“A cidade não avança nem recua. A cidade é paralítica. Mas, de sua paralisia provêm a sua força e a sua permanência. Os membros de ferro resistem à decomposição. Parece que um poder superior tocou esses membros, encantando-os. Tudo aqui é inerte, indestrutível e silencioso. A cidade parece encantada. E de fato o é. Acordará algum dia? Os itabiranos afirmam peremptoriamente que sim. Enquanto isso, cruzam os braços e deixam a vida passar. A vida passa devagar em Itabira do Mato Dentro”, escreveu Drummond.
Foi assim que a relação construída a partir daquele encontro também extrapolou as páginas do jornal. Entre os frutos dessa aproximação esteve a homenagem prestada a Carlos de Paula Andrade, pai do poeta, cujo nome passou a denominar um pequeno trecho desmembrado da então avenida Carlos Drummond de Andrade, em frente à Prefeitura de Itabira.
A iniciativa foi aprovada pela Câmara Municipal e sancionada, em 1984, pelo então prefeito José Maurício Silva. Mais do que uma homenagem familiar, o gesto simbolizou a parceria que se consolidava entre o escritor, sua cidade natal e o jornal O Cometa Itabirano.
A crítica que virou poesia

Nos anos seguintes, a reflexão crítica de Drummond sobre a mineração ganhou forma poética nas páginas do jornal O Cometa Itabirano.
Em dezembro de 1983, o Cometa Itabirano publicou pela primeira vez Lira Itabirana, poema que décadas mais tarde se tornaria um dos textos mais conhecidos e citados da literatura produzida sobre a mineração brasileira, especialmente após os rompimentos das barragens de Fundão, em Mariana, em 2015, e da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, em 2019.
Considerados entre os mais graves desastres socioambientais da história do país, os dois episódios provocaram a morte de 291 pessoas, devastaram comunidades inteiras, contaminaram rios, destruíram meios de subsistência e reacenderam debates sobre os custos humanos, ambientais e econômicos da atividade minerária, temas que Drummond já antecipava em sua poesia muito antes dessas tragédias.
“O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.”
Mais adiante, perguntava:
“Quantas toneladas exportamos de ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos sem berro?”
Em agosto de 1984, foi a vez de O Maior Trem do Mundo chegar às paginas de O Cometa, com ilustração do artista plástico Márcio Sampaio.
“O maior trem do mundo leva minha terra para a Alemanha, leva minha terra para o Canadá, leva minha terra para o Japão…”
E concluía:
“Vai serpenteando, vai sumindo e um dia, eu sei, não mais voltará, pois nem terra nem coração existem mais.”
É nesse mesmo conjunto de reflexões que se encontra também A Montanha Pulverizada, uma das representações mais contundentes da transformação do Cauê em minério e símbolo da relação entre memória, paisagem e desenvolvimento presente em grande parte da obra madura do poeta.
Longe de significarem uma ruptura com a cidade, esses versos apontam para algo diferente. Confirmam que Drummond jamais deixou de escrever sobre Itabira.
Não abandonou a terra natal nem rompeu com seus conterrâneos, embora frequentemente criticasse o que considerava passividade, conformismo e excessiva confiança na prosperidade proporcionada pela mineração.
Suas inquietações dirigiam-se menos à cidade e mais ao modelo de exploração mineral que retirava riquezas do território sem oferecer retorno com base na fortuna que daqui era retirada, algo em torno de 1 bilhão de toneladas de hematita extraída do pico do Cauê, exportada praticamente sem gerar tributos e muito menos royalites ao município, um fato histórico incontestável.
Em linguagem contemporânea, pode-se dizer que se tratava de uma preocupação com a sustentabilidade econômica e social de uma cidade excessivamente dependente de um recurso finito.
Décadas antes de a exaustão mineral se tornar tema recorrente nos debates sobre o futuro de Itabira, o poeta já intuía essa situação inexorável em seus versos e crônicas.
Hoje, ela aparece nos próprios documentos da mineradora, reconhecendo, sem explicitar, a dívida histórica que tem com o município que permitiu a acumulação inicial de capital para torná-la a grande multinacional de mineração que é atualmente.
O relatório anual Form 20-F, apresentado pela Vale à Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos, projeta a continuidade das operações de mineração em Itabira por mais algumas décadas, mas também confirma que se trata de uma atividade submetida aos limites físicos das reservas minerais.
Em outras palavras, o ciclo iniciado em larga escala na década de 1940 caminha para um processo de exaustão lento e gradual, mas irreversível, cuja discussão sobre os legados econômicos, sociais e ambientais permanece tão atual quanto as perguntas formuladas por Drummond ao longo de sua obra.

As perguntas que continuam atuais
Portanto, se o Flitabira celebra neste ano os 75 anos de Claro Enigma, a escolha da obra parece inevitavelmente recolocar em debate algumas das perguntas mais persistentes deixadas por Carlos Drummond de Andrade sobre sua cidade natal.
Não apenas as questões metafísicas e existenciais sugeridas pelo tema do festival A Máquina do Mundo em Nós, mas também aquelas dirigidas à história de uma cidade profundamente impactada pela mineração em larga escala, predatória e, não raro ameaçadora, pela sua proximidade com a cidade e pela falta de zelo para minimizar, historicamente, os impactos ambientais e de vizinhança, ainda persistentes.
Quarenta e cinco anos depois daquela conversa entre Drummond e o Cometa Itabirano, as inquietações do poeta permanecem atuais, ainda mais quando se aproxima o fim inexorável e a possível – e até aqui provável – derrota incomparável.
Talvez resida aí uma das maiores oportunidades desta edição do Flitabira: aproximar literatura, memória, cidade e futuro sem abrir mão da complexidade que sempre marcou a relação de Drummond com Itabira e com a mineração.
Se essa oportunidade será plenamente aproveitada nos próximos dias do festival ainda está por ser visto. Mas dificilmente haverá cenário mais apropriado para essa reflexão do que a cidade cuja fotografia continua na parede, enquanto seu futuro pós-mineração permanece cercado de incertezas.
Afinal, embora a exaustão das reservas não ocorra de forma abrupta, ela avança lenta, gradual e inexoravelmente, recolocando no presente perguntas que Drummond formulou há décadas sobre o destino de sua terra natal.
6º. FLITABIRA 2026 – Programação
A MÁQUINA DO MUNDO EM NÓS
75 anos do livro “Claro Enigma’, de Drummond
Patronas: Dona Tita e Dona Rosinha
Personalidades Homenageadas: Maria Mazzarelo, da Mazza Edições, Conceição Evaristo e Leda Maria Martins
SEXTA-FEIRA – 30 DE OUTUBRO
17h – Tema: Outros Mundos
Convidado: Geni Núñez
Mediação: Ale Santos
18h – Tema: A Palavra e o Mundo
Convidado: Geraldo Carneiro e Maria Esther Maciel
Mediação: Marcelino Freire
19h – Tema: Corpo e Palavra
Convidado: Ricardo Aleixo e Leda Maria Martins
Mediação: Natália Alves
20h – Tema: Claro Enigma e A Máquina do Mundo
Convidado: Pedro Bial e Pedro Drummond
Mediação: Calila das Mercês
21h– Tema: Homenagem a Dona Rosinha e Dona Tita
Convidada: Conceição Evaristo e representantes das famílias.
Mediação: Sérgio Abranches
22h – Espetáculo “Claro Enigma” em Libras
Convidado: Grupo de Dança Primeiro Ato
SÁBADO – 31 DE OUTUBRO
14h – Tema: Vidas Escritas
Convidado: Alexandre Porto Vidal
Mediação: Marcelino Freire
15h – Tema: Juventude Ferida
Convidado: Hugo Ferreira Monteiro
Mediação: Carlos Vinícius
16h – Tema: Vozes Jovens
Convidado: Pétala Souza e Isa Souza
Mediação: Goka Maciel
17h – Tema: Amazônia Ancestral
Convidado: Verenilde Pereira
Mediação: Calila das Mercês
18h – Tema: Outras Diferenças
Convidado: Roberto Parmeggiani
Mediação: Geni Núñez
19h – Tema: Literatura, Futurismo e Política
Convidado: Ale Santos e Sérgio Abranches
Mediação: Marcelino Freire
20h – Tema: Leitura, Antirracismo e os Novos Tempos
Convidadas: Conceição Evaristo, Maria Mazzarelo e Leda Maria Martins
Mediação: Afonso Borges
21h – Tema: A Máquina do Mundo em Nós
Convidado: José Miguel Wisnik e Kristoff Silva
Encerramento: Sérgio Abranches
Serviço
6º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026, quinta a domingo
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Entrada gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira
Informações: @flitabira









