Moradores denunciam impactos da descaracterização do Sistema Pontal; Vale estende prazo das obras até 2033

Fotos: Tatiana Linhares/
Ascom/ATI/FIP

Comunidades relatam problemas de infiltração, esgoto, poeira e saúde mental; mineradora diz garantir segurança e monitoramento

Em uma reunião realizada na quinta-feira (18) com a mineradora Vale, moradores dos bairros Bela Vista, Nova Vista, Jardim das Oliveiras e Praia, acompanhados pela Assessoria Técnica Independente da Fundação Israel Pinheiro (ATI/FIP), denunciaram, mais uma vez, os impactos das obras de descaracterização dos diques Minervino e Cordão Nova Vista, que integram o Sistema Pontal.

Carlos Estevão cobra atenção à saúde mental dos atingidos

“Nós não estamos tendo sossego. Está em um ponto em que não estamos aguentando!”, desabafou Norma Rodrigues, moradora do bairro Bela Vista, ao relatar os inúmeros impactos decorrentes e que não estão sendo devidamente mitigados pela mineradora.

A preocupação com a segurança foi reforçada pela moradora Márcia Barbosa, da Comissão de Atingidos do Sistema Pontal. A nossa preocupação é sobre a segurança quando vocês forem drenar essa água. Senão, pode acontecer um desmoronamento, alguma coisa que possa colocar a gente em perigo”.

 

Do bairro Jardim das Oliveiras, Carlos Estevão cobrou atenção à saúde mental. “Eu quero saber se há um monitoramento em relação à saúde mental das pessoas atingidas. Vocês estão acompanhando a situação emocional dos atingidos?”, perguntou, repercutindo uma preocupação que é de muitas famílias.

Irani Alve disse que moradores estão vivendo em um “canteiro de obras”

Já Irani Alves, moradora do Bela Vista há mais de 30 anos, criticou o prolongamento das obras: “Vocês deveriam pensar um pouco na gente. Não é só fazer essa planilha bonita. Nós vamos ficar dentro de um canteiro de obras?”, quis saber, questionando a extensão do prazo de conclusão das obras de descaracterização da estrutura de contenção de rejeitos de minério.

Posição da Vale

A Vale informou que os diques Minervino e Cordão Nova Vista concentram os maiores volumes de rejeitos e são as últimas estruturas pendentes de descaracterização no Sistema Pontal.

Segundo foi informado, as obras incluem abertura de canais para direcionar a água à Barragem do Pontal e remoção gradual de material. O prazo de conclusão foi estendido de 2030 para 2033, devido à complexidade técnica.

Segundo a empresa, o processo não altera o lençol freático e medidas de controle de poeira, ruído e vibração são monitoradas em parceria com a auditora independente Aecom, que assessora a curadoria do Meio Ambiente, do Ministério Público em Itabira.

A Vale também informou que já concluiu a descaracterização de seis estruturas em Itabira, incluindo o Dique 2, no Pontal. E que desde 2019 investiu cerca de R$ 6,2 bilhões no Programa de Descaracterização, que prevê eliminar 30 barragens a montante no Brasil.

Destinação dos rejeitos

A destinação dos rejeitos foi um dos pontos mais polêmicos da reunião. Inicialmente, representantes da Vale informaram que o material seria espalhado em diferentes pontos da área da barragem.

Em seguida, mencionaram a possibilidade de reaproveitamento por meio de um projeto de reaproveitamento com a concentração do ferro existente junto a esse material, que já recebeu anuência do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema), mas ainda depende de licenciamento ambiental.

“Informações spobre o destino dos rejeitos não são claras”, diz Gieser Coelho

A mudança de discurso gerou forte reação entre os moradores. Gieser Coelho, morador da região, criticou a falta de clareza.As informações não são claras. Não são verdadeiras, às vezes, ou são paliativas para serem mudadas depois”.

Ele questionou por que a empresa não apresentou previamente à comunidade os detalhes dessa logística, já que transportar rejeitos para áreas de mineração pode causar impactos muito maiores do que simplesmente espalhá-los dentro da área da barragem.

Outros moradores reforçaram a preocupação com o aumento do tráfego de caminhões, o risco de acidentes, a intensificação da poeira e o barulho constante que poderiam resultar dessa nova etapa.

Também houve questionamentos sobre os impactos ambientais e sociais do reaproveitamento dos rejeitos nas plantas de concentração de minério de ferro, como a possibilidade de novas áreas serem impactadas.

Representantes da Vale responderam que os estudos técnicos e os processos de licenciamento ainda estão em andamento e que as definições serão divulgadas à medida que forem concluídas.

A empresa assegurou que o reaproveitamento de rejeitos só ocorrerá dentro das normas ambientais e com acompanhamento dos órgãos competentes.

Esgoto e remoções em pauta

Os moradores também relataram problemas relacionados ao esgotamento sanitário, mau cheiro, proliferação de animais peçonhentos e dificuldades para descansar e permanecer em suas residências.

A moradora Lorena Meireles, do bairro Bela Vista, foi incisiva ao apontar um dos impactos das obras de descaracterização e que não foi mitigado. “Falando especificamente da rua onde eu moro, tem mais de meses que o esgoto está jorrando e isso aconteceu após a construção do muro de contenção (ECJ2). Abrir a janela de casa incomoda, receber visita é constrangedor!”.

A inexistência de previsão de remoção de famílias no âmbito do processo de descaracterização também foi tema recorrente.

O morador do Bela Vista, Antônio Lage, questionou: “Para remover o minério é muito fácil, por que não remove os moradores? Nós estamos querendo é remoção. (…) A Vale fala que ninguém quer sair, mas o povo quer sair!”, disse ele, que não quer permanecer no bairro com as intervenções já realizadas e que impactam a qualidade de vida dos moradores.

Essas reivindicações não são novas e outras antigas permanecem ainda sem solução, como é o caso da rede de esgoto estourada pelo assoreamento do minério, e que há mais de três décadas os moradores cobram soluções, sem serem atendidos.

Impactos coletivos e difusos
Moradores denunciam e cobram medidas contra os impactos da descaracterização do Sistema Pontal pela Vale

Além das questões relacionadas às obras, os moradores também manifestaram preocupação com a segurança da região, diante da possibilidade de invasões nas áreas da barragem e das casas no entorno.

Também questionaram sobre a efetividade das estruturas de contenção, o risco de rompimento e transbordo, o que tem provocado desvalorização dos imóveis, o que pode até resultar em ações futuras de reparações e ou indenizações.

Ao final da reunião, representantes da Comissão de Atingidos entregaram à Vale uma série de questionamentos formais sobre o processo de descaracterização e seus impactos. A empresa prometeu responder pelos canais oficiais.

O encontro expôs a distância entre as preocupações cotidianas das comunidades e os argumentos técnicos da mineradora, que insiste em medidas de mitigação e monitoramento, mas que os moradores não observam seus efeitos práticos nesses bairros atingidos.

Para eles, a extensão do prazo até 2033 significa mais anos de convivência com obras, insegurança e danos à saúde e ao território.

 

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