Desafios da inclusão social e da IA ampliam importância do professor

Foto: Sumaia Vilela/
Agência Brasil
Artur Marques*

O Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro, é uma oportunidade para reconhecer uma profissão diretamente ligada ao futuro do Brasil. Mais do que transmitir conhecimentos, os mestres participam da formação de cidadãos, estimulam o pensamento crítico, despertam vocações e preparam crianças e jovens para um mundo em permanente transformação.

Por isso, discutir a valorização da carreira docente está na base do próprio projeto de desenvolvimento do País.

Tal tarefa, porém, tornou-se ainda mais complexa. A inteligência artificial, a expansão das redes sociais e o surgimento de novas metodologias de ensino transformaram a maneira como as pessoas acessam, produzem e compartilham informações.

Hoje, o papel do professor, além de lecionar as disciplinas básicas, é também ensinar a selecionar informações, identificar conteúdos confiáveis, fazer perguntas, interpretar diferentes pontos de vista e utilizar a tecnologia de maneira responsável e produtiva; além de desenvolver o senso crítico dos alunos.

A inteligência artificial oferece possibilidades extraordinárias para a educação, mas também impõe desafios. Ferramentas capazes de produzir textos, imagens, códigos e respostas em segundos podem ampliar o aprendizado, desde que sejam utilizadas com orientação pedagógica.

O professor precisa estar preparado para incorporar esses recursos à sala de aula, sem renunciar àquilo que nenhuma tecnologia substitui: a capacidade de compreender o contexto de cada aluno, estabelecer vínculos, perceber dificuldades e estimular a curiosidade e a autonomia.

O mesmo vale para as redes sociais. Elas fazem parte da vida cotidiana de milhões de estudantes e influenciam comportamentos, opiniões e formas de comunicação. Ignorar essa realidade não ajuda a escola.

É preciso preparar os educadores para lidar com ela, inclusive ensinando os jovens a reconhecer desinformação, compreender os mecanismos de circulação de conteúdos e desenvolver uma relação mais consciente com o ambiente digital.

Tudo isso exige investimento permanente na formação dos professores. Não basta oferecer uma capacitação pontual sempre que surge uma nova tecnologia ou metodologia. A formação continuada precisa fazer parte da carreira, acompanhando as transformações da sociedade e dando aos profissionais condições para aperfeiçoar seus conhecimentos e suas práticas.

No entanto, apenas a capacitação não resolve o problema, em especial na rede pública, na qual estuda a grande maioria dos estudantes brasileiros da Educação Básica. É necessário valorizar a carreira docente, melhorar as condições de trabalho, oferecer remuneração compatível com a responsabilidade exercida e criar perspectivas de desenvolvimento profissional.

Um País que pretende melhorar seu ensino precisa tornar a profissão mais atrativa e reconhecer que a qualidade das escolas começa pelas condições oferecidas a quem ensina.

Essa é uma questão especialmente importante na educação pública, que tem o desafio de garantir oportunidades de aprendizagem a milhões de estudantes, muitos deles em contextos de vulnerabilidade. Nesse cenário, o professor é presença decisiva. Não há política educacional consistente que possa prescindir de profissionais preparados, motivados e respeitados.

Os resultados desse investimento, entretanto, não aparecem apenas dentro das salas de aula. Uma educação de qualidade amplia a produtividade, favorece a inovação, reduz desigualdades e prepara profissionais capazes de responder às transformações do mercado de trabalho.

Engenheiros, médicos, pesquisadores, empreendedores, técnicos e tantos outros profissionais começam sua trajetória com um professor. Investir nesse profissional é, portanto, potencializar a capacidade do Brasil de produzir conhecimento, gerar riqueza e construir uma sociedade mais desenvolvida.

O futuro do País será construído por pessoas que ainda estão hoje nas escolas. E sua formação depende em grande medida da capacidade que tivermos de preparar e valorizar quem está à frente desse processo.

No Dia do Professor, portanto, mais do que homenagear uma profissão, precisamos reafirmar uma escolha estratégica: colocar a carreira docente entre as prioridades nacionais.

*Artur Marques é o presidente da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo (AFPESP).

 

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