Da Divina Comédia ao Cauê: Wisnik mostra que a máquina do mundo de Drummond passa inevitavelmente por Itabira
Reportagem/ Fotos: Carlos Cruz
Conferência musical que encerrou a noite de sábado da sexta edição do Flitabira aproximou Dante, Camões, Goethe, Fausto e Drummond para refletir sobre progresso, mineração, memória e destino da cidade natal do poeta
Na noite deste sábado (31), data em que Carlos Drummond de Andrade completaria 124 anos, o ensaísta, músico e professor José Miguel Wisnik apresentou, ao lado do compositor e cantor Kristoff Silva, uma das reflexões mais densas já promovidas pelo Flitabira sobre a relação entre o poeta, a mineração e Itabira.
Na última atividade da programação da noite do 6º Festival Literário Internacional de Itabira, o autor de Maquinação do Mundo: Drummond e a Mineração conduziu o público por uma conferência musical que percorreu séculos de literatura ocidental, da Divina Comédia, de Dante Alighieri, aos Lusíadas, de Camões, passando pelo Fausto, de Goethe.
Tudo isso para mostrar como a experiência histórica da mineração ajuda a compreender uma dimensão central da obra drummondiana e da própria transformação da cidade natal do poeta pela mineração em larga escala.
Mais do que uma palestra sobre literatura, Wisnik compartilhou com o público o percurso intelectual que o levou a escrever aquele que se tornou o mais abrangente estudo sobre a presença da mineração na obra de Drummond.
Ao recordar suas primeiras visitas a Itabira, revelou que foi justamente o contato direto com a cidade, sua paisagem e sua história que alterou profundamente sua leitura do poeta. “Foi algumas horas em Itabira que mudaram o meu modo de ver”, afirmou.
Pouco depois, faria uma observação ainda mais reveladora: “Nem eu, nem toda a bibliografia de Drummond tratava disso. Isso ficava como uma coisa absolutamente silenciada.”
O “isso” a que se referia era justamente a relação profunda entre a experiência histórica da mineração e a formação da sensibilidade poética de Drummond, uma conexão que, segundo ele, permaneceu durante muito tempo à margem da crítica literária dedicada ao escritor itabirano.
É o que ainda continua silenciada em Itabira, onde se venera o Menino Antigo na Cidadezinha Qualquer, com as casas entre bananeiras, um lugar bucólico, sem conflitos, lá bem do interior.
E pouco se discute sobre a obra, poemas e crônicas do poeta atento ao seu tempo, à vida presente, crítico contumaz da mineração predatória sem dar o retorno devido à sua terra natal.
Mineração, memória e destino mineral
Ao reconstruir a trajetória da ideia de “máquina do mundo”, de Dante a Drummond, Wisnik recolocou no centro do debate uma questão presente tanto na obra do poeta quanto na história de Itabira: as marcas deixadas pela mineração sobre a paisagem, a memória e o destino da cidade.
Talvez por isso sua conferência-show tenha despertado tamanho interesse entre os participantes do festival.
Embora o tema proposto, A Máquina do Mundo em Nós, sugerisse inicialmente uma abordagem mais subjetiva e filosófica do poema drummondiano, Wisnik foi além desse recorte.
E mostrou como a reflexão existencial presente na obra do poeta dialoga diretamente com processos históricos vividos por Itabira.
Logo no início da apresentação, o ensaísta ofereceu ao público uma espécie de chave para compreender o percurso que desenvolveria ao longo de sua apresentação.
“Quero declarar de saída que para mim é uma emoção profunda estar em Itabira. Toda vez, desde a primeira vez que vim, isso produziu grandes alterações e transformações na minha vida.”
A frase poderia soar apenas como uma gentileza dirigida à cidade que o recebia. Não foi.
Ao explicar a origem de Maquinação do Mundo: Drummond e a Mineração, Wisnik contou que sua passagem por Itabira mudou profundamente a forma como compreendia a obra do poeta.

Antes de Drummond: Dante, Camões, Fausto e Mefistófeles
A conferência começou muito antes de chegar a Itabira e aos efeitos de uma atividade minerária que, em nome do progresso, transformou profundamente a paisagem e a vida econômica e social da cidade.
Para explicar a origem da ideia de “máquina do mundo”, Wisnik levou o público ao século XIV para revisitar a Divina Comédia, de Dante Alighieri.
Explicou a travessia pelos círculos do Inferno, a passagem pelo Purgatório e a ascensão aos céus, primeiro conduzida por Virgílio e depois por Beatriz, personagem que guia Dante pelo Paraíso.
Com o auxílio de imagens projetadas no telão, mostrou como a cosmologia medieval organizava o universo em esferas concêntricas, tendo a Terra ao centro e os céus distribuídos em círculos sucessivos.
Segundo o ensaísta, embora Dante não utilizasse a expressão “máquina do mundo”, a ideia já estava presente como representação da totalidade do universo e da tentativa humana de compreender sua ordem e funcionamento.
Da Florença medieval, a apresentação avançou para Os Lusíadas. Em Camões, observou Wisnik, a máquina do mundo reaparece transformada.
Já não está voltada apenas para uma ascensão espiritual, mas para a Terra, os territórios conquistados e a expansão marítima portuguesa que ajudaria a moldar a modernidade.
Num dos momentos da conferência, comparou a visão oferecida por Camões a uma espécie de “Google Earth do século XVI”, provocando risos da plateia e tornando mais acessível uma formulação complexa da literatura clássica.
Foi nesse percurso que surgiu a figura de Fausto e seu pacto com Mefistófoles.
A ideia moderna de progresso
Na interpretação apresentada por Wisnik, Fausto é uma das mais poderosas representações da modernidade.
Ao firmar um pacto com Mefistófeles em troca de conhecimento ilimitado, poder e capacidade de agir sem restrições, o personagem passa a simbolizar uma humanidade convencida de que pode transformar tudo à sua volta. “O Fausto é por excelência a figuração do moderno”, afirmou.
Ao comentar a obra de Goethe, Wisnik mostrou como esse personagem encarna a crença de que a natureza, os territórios, os rios, as montanhas e até o destino humano podem ser submetidos à lógica do desenvolvimento e do progresso, vale dizer, do capitalismo.
Em certa medida, a analogia ajuda a compreender processos históricos como os vividos por Itabira sob a influência da poderosa Companhia Vale do Rio Doce, hoje Vale S.A., cuja atuação remodelou profundamente a paisagem, a economia e a história do município.
Nesse contexto, destacou um episódio decisivo do quinto ato de Fausto. Um casal de idosos, Filemon e Baucis, resiste às transformações promovidas pelo grande projeto idealizado pelo personagem.
A pequena propriedade onde viveram toda a vida, carregada de memórias, vínculos afetivos e significados, passa a ser vista como obstáculo para a realização de uma obra considerada necessária ao progresso.
A resistência é eliminada, a casa desaparece e a paisagem é transformada.
A esse episódio, guardadas as diferenças de contexto histórico, podem ser associadas as sucessivas desapropriações ocorridas em Itabira com o avanço da mineração sobre antigos bairros como Explosivo, Rio de Peixe, Camarinha, Vila Paciência e Cento e Cinco.
Mais recentemente, moradores dos bairros Bela Vista e Nova Vista também estão sendo deslocados para a implantação de uma estrutura de contenção a jusante da barragem do Pontal.
Em diferentes momentos, a expansão da atividade minerária remodelou não apenas a paisagem da Serra do Esmeril, mas também os espaços de convivência e a memória coletiva da cidade.
Mais do que um episódio literário, Wisnik apresentou essa passagem de Fausto como uma reflexão sobre os custos humanos, sociais e simbólicos da modernidade, quando modos de vida, referências históricas e laços afetivos são sacrificados para viabilizar empreendimentos considerados indispensáveis ao desenvolvimento.
É assim que as conexões vão surgindo naturalmente e sendo compreendidas pelo público presente.
A máquina do mundo chega a Itabira
A cidade, a atividade minerária e as transformações impostas ao território de Itabira aproximam-se cada vez mais da discussão que, até então, percorria séculos de literatura e filosofia antes de chegar à cidade natal de Drummond.
Foi justamente nesse ponto que a apresentação começou a se aproximar da experiência drummondiana e da relação do poeta com Itabira e a mineração, realidade que acompanhou à distância ao longo de grande parte de sua vida, mas que jamais deixou de ocupar espaço central em sua obra.
Ao comentar a crônica Antigo, escrita em 1948, Wisnik lembrou uma viagem de avião feita por Drummond de Belo Horizonte para Itabira.
Na narrativa, o poeta descreve a paisagem mineira observada do alto: as montanhas, os rios, as áreas de cultivo, a pecuária e a vastidão do território.
Segundo o ensaísta, trata-se de uma visão quase epifânica, reveladora da totalidade do mundo, uma experiência que dialoga diretamente com a tradição literária da “máquina do mundo” que vinha discutindo desde Dante e Camões.
Mas a mesma viagem reserva outra revelação.
É que, ao se aproximar de Itabira, Drummond vê os caminhões carregados de minério subindo e descendo as encostas, enquanto o Pico do Cauê começava a ser desmantelado pela exploração mineral em larga escala.
O encantamento com a paisagem convive, naquele instante, com a percepção de uma destruição que avançava diante de seus olhos.
Wisnik chamou a atenção para a força dessa passagem. Em sua leitura, a crônica registra simultaneamente duas experiências fundamentais da modernidade: a contemplação da totalidade do mundo e a percepção das forças econômicas e tecnológicas que o transformam.
Foi aí que ele identificou um dos momentos decisivos da trajetória intelectual de Drummond.
De um lado, a experiência poética da paisagem mineira; de outro, a experiência histórica da mineração, a memória afetiva da cidade e a transformação irreversível de sua geografia, de seu território e de sua cultura.
Segundo o ensaísta, é desse encontro entre fascínio e devastação, entre pertencimento e perda, que nasce uma das chaves para compreender a presença persistente de Itabira na obra do poeta.
E mais ainda: refletem nas muitas das reflexões e preocupações que mais tarde desembocariam em poemas como A Máquina do Mundo, A Montanha Pulverizada, Lira Itabirana e O Maior Trem do Mundo.
Itabira no centro do mundo
A frase mais forte da noite surgiu quando José Miguel Wisnik procurou situar Carlos Drummond de Andrade não apenas no contexto da literatura brasileira, mas no centro de um dos processos econômicos e políticos que ajudaram a moldar o Brasil do século XX.
“O mais poderoso poeta brasileiro cresceu num casarão cujas janelas e varandas estavam abertas de frente para o crime.”
A provocação serviu para mostrar que a mineração não aparece na obra drummondiana como um tema abstrato ou uma preocupação tardia.
Ela estava presente desde a infância do poeta, incorporada à paisagem cotidiana, à memória afetiva e à experiência visual de quem assistiu, mesmo que à distância, a transformação progressiva de sua cidade.
Segundo Wisnik, muito antes da criação da Companhia Vale do Rio Doce, em 1942, Itabira já havia ingressado no centro das discussões sobre os rumos do desenvolvimento brasileiro.
A importância de suas jazidas colocou a cidade no epicentro de uma disputa que mobilizou empresários, políticos, geólogos e formuladores de políticas públicas desde o início do século XX.
Um dos marcos desse processo ocorreu em 1910, durante o XI Congresso Internacional de Geologia, realizado em Estocolmo, quando estudos sobre as extraordinárias reservas de minério de ferro de Minas Gerais projetaram internacionalmente a riqueza mineral de Itabira e do Cauê.
Imediatamente a revelação despertou o interesse de grupos econômicos estrangeiros, desencadeando uma corrida pela aquisição de jazidas na região, episódio posteriormente rememorado por Drummond em seus escritos sobre a cidade.
A partir daquele momento, observou Wisnik, Itabira deixou de ser apenas uma cidade do interior mineiro para se tornar um dos pontos centrais do debate sobre a exploração das riquezas minerais brasileiras.
De um lado estavam os defensores da simples exportação do minério bruto para abastecer a indústria internacional.
De outro, os que defendiam sua vinculação a um projeto nacional de industrialização e siderurgia, posição da qual Drummond se aproximava ao entender que a riqueza mineral brasileira deveria contribuir para o desenvolvimento do país, e não apenas para a exportação de matéria-prima.
Mais de um século depois, a discussão retorna à pauta sob novas formas.
Se no início do século XX o debate girava em torno do ferro e da siderurgia, hoje ele se desloca para os chamados minerais críticos e estratégicos, especialmente as terras raras, indispensáveis à fabricação de baterias, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos, tecnologias digitais e sistemas de defesa.
O dilema, entretanto, continua surpreendentemente semelhante: exportar recursos minerais em estado bruto ou transformar essa riqueza em cadeia produtiva, conhecimento, inovação tecnológica e desenvolvimento industrial dentro do próprio país.
Estudos recentes produzidos para a Estratégia Nacional de Terras Raras, do Governo Federal, defendem justamente a ampliação da agregação de valor e da capacidade industrial brasileira, evitando que o país permaneça restrito ao papel histórico de simples fornecedor de matéria-prima para economias mais avançadas, perpetuando o modelo neocolonial de mero produtor e exportador de commodities.
Visto por esse ângulo, o debate que colocou Itabira no centro das discussões nacionais e internacionais nas primeiras décadas do século passado permanece atual.
Mudaram os minerais, as tecnologias e a geopolítica global, mas continua em aberto a mesma questão que mobilizou Drummond e sua geração: o destino que o Brasil pretende dar às riquezas extraídas de seu subsolo.
A observação também ajuda a compreender por que a cidade atravessa de forma tão persistente a obra do escritor.
Para Wisnik, o menino criado numa cidade do interior mineiro cresceu num dos pontos mais sensíveis da discussão econômica brasileira, onde se cruzavam interesses internacionais, projetos industriais, disputas políticas e os primeiros sinais das transformações que alterariam para sempre a paisagem local.
“Não há um livro de Drummond em que Itabira não esteja”, observou. “Na verdade, ele nunca saiu daqui.”
Foi justamente essa percepção que levou o ensaísta, décadas depois, a revisitar a obra do poeta a partir da história da mineração.
Ao visitar Itabira, deparou-se com a distância entre a paisagem preservada na memória drummondiana e aquela moldada por décadas de exploração mineral.
O Cauê, transformado numa imensa cava após sucessivas etapas de extração, deixava de ser apenas uma referência geográfica da infância do poeta para se converter num símbolo das contradições entre progresso, desenvolvimento e devastação.
Foi desse choque entre memória e realidade que nasceu uma das intuições centrais de Maquinação do Mundo. A mineração deixava de ser um tema periférico para se revelar como uma das chaves de leitura da obra drummondiana, de sua reflexão sobre pertencimento, perda, modernidade e transformação da paisagem.
Em outras palavras, a história do Cauê e de Itabira mostrava-se inseparável da própria trajetória intelectual do poeta que nunca deixou, como observou Wisnik, de escrever sobre sua cidade.
Maquinação do mundo, um livro indispensável
Foi da percepção dessa relação e revelação que nasceu Maquinação do Mundo: Drummond e a Mineração.
O livro, lançado pela Companhia das Letras, investiga de que maneira a mineração está presente na obra do poeta e ajuda a explicar parte significativa de suas inquietações sobre a modernidade, o desenvolvimento econômico e o destino da própria cidade natal.
Embora o tema apareça de forma explícita em poemas tardios como A Montanha Pulverizada, Lira Itabirana e O Maior Trem do Mundo, Wisnik argumenta que a questão já estava presente muito antes, inclusive nos grandes poemas filosóficos de Claro Enigma.
Não por acaso, a primeira apresentação pública dessa interpretação em Itabira ocorreu em 2018, durante a Semana Drummondiana.
Naquela ocasião, também acompanhado por Kristoff Silva, Wisnik explicou como sua visita à casa do poeta em Itabira, à região da antiga Matriz do Rosário com o sino Elias, e aos espaços transformados pela mineração havia provocado uma verdadeira reviravolta em sua leitura da obra drummondiana.
O que o público ouviu agora no Flitabira foi, em certa medida, o amadurecimento daquela descoberta.
Já o aprofundamento dessa discussão sobre progresso, técnica, transformação da natureza e limites da modernidade, talvez fique para uma próxima edição do festival literário.
Isso para melhor compreender essa dimensão fundamental da obra drummondiana sem reduzir sua complexidade. Ainda há muito a ser dito sobre a relação entre Drummond, Itabira e a mineração no Flitabira.
Talvez por isso o retorno de José Miguel Wisnik em uma próxima edição, desta vez para uma conversa centrada especificamente nos temas desenvolvidos em Maquinação do Mundo, pareça não apenas desejável, mas natural e necessário.
Assista aqui:










Carlos Cruz, estou comovida pela análise que você fez da palestra-musical do professor, compositor, ensaísta José Miguel Wisnik em parceria com o músico, também compositor Kristoff Silva. Você fez uma inteligente articulação de ideias entre o dito, e o não-dito, mas latente sob os escombros de uma história sem fim. Estou postando seu texto para o grupo Mora na Filosofia do qual Wisnik faz parte.
Wisnik foi a apoteose de ontem, ou melhor dizendo, do Fli. Isso, não excluindo,é claro, outros momentos de finas abordagens e de tudo o mais que a gente precisa/gosta de ouvir.Essa análise de Carlos Cruz foi ao ponto do ponto que temática do Fli/26 “A Máquina do Mundo em Nós” procurou “dissimular”, ou melhor, desviar os olhos “do que fora está”, no caso, a atividade minerária, direcionando-os para o universo da subjetividade. Mas Wisnik não se limitou a isso. Foi muito além. É esse salto que o texto de Carlos Cruz consegue registrar, com reconhecida competência, ao unir pontas da obra A Maquinação do Mundo, do próprio Wisnik , com a performance desse 31 de outubro em tudo provocadora e prazerosa.
Na década de 40, Rachel de Queiroz e Carlos Drummond fundaram a Sociedade Inimiga do Progresso. Utopia.
… a conferência do Wisnik pode ser um céu de estrelas luas para o Carlos reportar, “A máquina do mundo” e a “derrota incomparável”.
Saudações caro amigo