Cornélio Penna – o que desejou ser um pintor famoso

O grande romancista em seu gabinete de trabalho, cercado de livros e telas

Foto: Reprodução/
Revista da Semana/
hemeroteca da BN-Rio

Infância melancólica em que aparecem Juquinha e Chiquinho de O Tico-TicoA Menina Morta já foi esquecida – a deusa do seu primeiro amor está internada num convento.

A Menina Morta é o quarto livro de Cornélio Penna. Livro premiado. Livro que fala de uma menina que morreu cedo na fazenda de seu pai, há mais de cem anos.

Depois de morta foi pintada. Deitada, de branco, parece dormir. Esse quadro está na casa de Cornélio Penna.

Olhando-o a gente encontra logo a paz que da poesia e beleza que existem no livro, desde a sua história, diríamos, singela, até ao título.

Cornélio Penna vive uma vida retirada, sem ambições, sempre que possível mergulhando em silêncios enormes. Nada espera da vida. Adora a pintura e não pode mais pintar.

Escreve devagar. Passa às vezes seis meses sem escrever. Não sabe se nos dará outro livro.

Sente-se nele, quando fala vagarosamente, o homem triste. Mas de maneira nenhuma se mostra triste.

E é profundamente lírico quando conta porque escreveu A Menina Morta, considerado pela crítica um dos mais belos livros escritos por um brasileiro.

O prêmio, Carmen Dolores Barbosa, para ele não passou de um acaso.

Entrevista com o escritor, por Maria Natália Rodrigues

Ping – Onde nasceu?

Pong – Em Petrópolis, mas não sei o nome da rua, pois ninguém pôde me dizer, nem me lembro de ver suas placas, se é que existem.

Ping – Que recordações lhe deixou a casa paterna?

Pong – Essa pergunta me faz mergulhar em funda melancolia. Quando meu pai morreu, eu não tinha ainda dois anos, e depois vivi seguindo minha família em fuga diante do desgosto e da incerteza.

Ping – A infância terá sido a melhor parte da sua vida?

Pong – Tudo que me vem à lembrança é amargo, cheio de dúvidas, diante da tristeza de minha mãe, que me parecia um incompreensível mistério e a vida estuante de meus irmãos, mais velhos do que eu.

Ping – Levado, quando menino?

Pong – Refugiei-me em mim mesmo, e passava horas calado, brincando com alguns navios quebrados, com dois bonecos alemães, em jardins que se sucedia em rápidas mudanças, e meus brinquedos tornavam-se vivos porque eu “pensava”.

Apenas recordo uma cena que não esquecerei: no Clube Campineiro realizava-se o concerto de certo pianista famoso. Eu estreava, naquela noite numa roupa à marinheira, branca, de feitio igual à do Juquinha do “Tico-Tico”, e encontrei-me sentado ao lado de Diogo Nogueira, vestido de Chiquinho.

Conversamos animadamente e senti de repente um estranho silêncio na sala toda. Olhei espantado em torno e vi que todos nos fitavam, enquanto o professor, com as mãos paradas sobre o teclado, nos fulminava com os olhos iracundos. Calei-me, sentindo toda a hostilidade do mundo e da vida contra mim.

Ping – Foi um menino de talento?

Pong – O primeiro a não acreditar em meu talento era eu mesmo, e não era costume de minha família o elogio sem razão de ser. Assim passei a infância mais obscura possível.

Pong – O que houve de mais triste na sua infância?

Pong – Aos dez anos armei um canhão com as correntes de rede da sala de almoço uma cadeira virara e a arbaleta que ganhara. Sonhava guerras sem vitória, quando as pesadas correntes caíram e a arbaleta disparou. Fui atingido na vista direita, que perdi.

Ping – Você pensou em ser um escritor notável?

Pong – Se minha vida não fosse já tão longa, não sei o que responderia. Mas agora posso confessar que desde menino desejei ser grande pintor, e tenho restos dessa aspiração. Que hoje estão em meu “necrotério”.

Ping – Acha bom ser escritor?

Pong – Permita que ria um pouco. Um riso já de outros tempos.

Ping – Seu prato predileto?

Pong – Vivo sob rigoroso regime, e sem esperanças…

Ping – Você suporta gente vazia?

Pong – Não sei o que significa a expressão, mas posso garantir-lhe que desteto “gente cheia”, quer seja de inteligência, talentos, erudição, de tudo enfim que seja ornamento de aparato.

Ping – Você escreve em qualquer ambiente?

Pong – Vivemos muito isolado em nossa casa e não tenho gosto nem oportunidade de fazer boemia.

Ping – Como se sentiu quando A Menina Morta começou a fazer um sucesso enorme?

Pong – Até hoje não senti que tenha feito sucesso enorme…

Ping – Acha que o tempo cura tudo?

Pong – Quando não consigo dormir todas as minhas horas amargas voltam intactas ao meu espírito e creio que em nada diminuem.

Ping – Considera o amor a coisa mais bela da vida?

Pong – Considero o amor de Deus, o amor materno, o amor conjugal, as coisas mais belas da vida.

Ping – É dado a sonhos quando está acordado?

Pong – Se não pudesse sonhar, não teria vivido.

Ping – O que liquida realmente um homem: andar mal vestido, a falta de dinheiro ou a mulher?

Pong – Vou lhe dar sorrindo uma resposta séria. O que lhe liquida um homem é viver sem Deus.

Ping – Que espécie de sensação lhe deixou o primeiro amor?

Pong – Durante a minha tumultuada instrução primária, estive um ano na Escola Modelo, e Terezinha apareceu-me com suas tranças muito longas e muito negras, emoldurando o seu rosto pálido.

Senti que havia em mim qualquer coisa de novo e de sagrado. Hoje ela é freira e eu conheci o verdadeiro e único amor de minha vida.

Ping – Supersticioso?

Pong – Como todos os brasileiros.

Ping – Gosta de andar só?

Pong – Gosto de caminhar ao lado de minha mulher, sem destino certo, e então pensamos juntos, sem nos falarmos.

Ping – Qual a pior coisa do mundo para você?

Pong – É sair do meu retiro.

Ping – Tem sonhos a realizar?

Pong – Desejo apenas sonhar.

Ping – As desilusões deixaram você amargo por algum tempo?

Pong – Não havia ilusões…

Ping – O que faz você completamente feliz?

Pong – Um momento de serenidade.

Ping – Ser inteligente não será uma dificuldade para ser feliz?

Pong – Não sei. Não tenho elementos para julgar.

Ping – Se pudesse recomeçar sua vida queria ser igualzinho?

Pong – Não sou igual a mim mesmo.

Ping – Pretende ainda escrever muitos livros?

Pong – Se tiver alguma coisa a dizer, escreverei.

Ping – Fora escrever, você faz mais o que?

Pong – Leio.

Ping – Se pudesse largava tudo, o Rio, tudo enfim e ia sonhar por esse mundo de Deus?

Pong – Se pudesse ia viver numa fazenda. Uma casa enorme e muito pouca terra em torno, no meio do silêncio e da paz.

Ping – Ou você é sossegado por natureza?

Pong – Sempre procurei a monotonia e a rotina.

Ping – A Menina Morta, o livro mais belo do ano, agradou todo a você?

Pong – Já me esqueci dele, e nada faço que me agrade.

Ping – Sua maior distração?

Pong – O concerto e a reparação das coisas antigas.

Ping – Acha que uma mulher, para ser fabulosa, tem que ser ótima cozinheira?

Pong – No meu caso particular seria um grave defeito.

Ping – Acha que o amor aperfeiçoa o homem?

Pong – O amor-sacramento é a própria perfeição.

[Revista da Semana (RJ), 11/6/1955, hemeroteca da BN-Rio – Pesquisa: Cristina Silveira]

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