Com treinamento e prevenção, Itabira avança na atualização do Plano Municipal de Redução de Riscos

Foto: Divulgação/PMI
Acervo Vila de Utopia

Município inicia capacitação para ampliar ações preventivas, atualizar o PMRR e fortalecer a preparação diante dos impactos do El Niño

Todos os anos, com a chegada do período chuvoso, Minas Gerais revive um cenário já conhecido, com encostas que cedem, canais transbordam, árvores caem e bairros inteiros enfrentam alagamentos.

Em cidades montanhosas e íngremes, como Itabira, a combinação entre solo encharcado, ocupações irregulares e ausência histórica de planejamento torna os desastres praticamente inevitáveis – e, como sempre, é a população mais vulnerável quem sofre as consequências.

Diante desse quadro, especialistas reforçam que a prevenção é o único caminho capaz de reduzir danos e salvar vidas. Vistorias antecipadas, remoção de famílias de áreas de risco e respostas rápidas em situações emergenciais são medidas essenciais para evitar tragédias anunciadas.

Plano atualizado orientará ações pelos próximos dez anos

Com esse objetivo, a Prefeitura de Itabira e a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) avançam na atualização do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR), documento que vai orientar, pelos próximos dez anos, as ações de prevenção, mitigação e resposta a desastres no município.

A nova etapa do trabalho começa nesta quinta-feira (10), com um treinamento que reúne servidores públicos e representantes da sociedade civil no auditório do Paço Municipal Juscelino Kubitschek de Oliveira, com atividades que seguem até sexta-feira (11).

A atualização é coordenada pela Defesa Civil de Itabira e conta com apoio do Ministério das Cidades, por meio do programa Periferia Sem Risco. A UFOP é responsável pelos levantamentos de campo, estudos geotécnicos e consolidação do diagnóstico, em parceria com a Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec), e sob coordenação do Ministério das Cidades.

Participação comunitária fortalece o diagnóstico

Antes da capacitação, moradores dos bairros Clóvis Alvim II, Madre Maria, Gabiroba e Pedreira participaram de oficinas comunitárias realizadas em julho.

Os encontros reuniram relatos sobre ocorrências históricas, identificação de pontos críticos e percepções de quem convive diariamente com situações de risco.

Além de contribuir para o diagnóstico, a participação da comunidade tem caráter educativo, estimulando moradores a reconhecer sinais de perigo e atuar como agentes multiplicadores.

“O PMRR é uma ferramenta estratégica para que Itabira conheça com mais precisão suas áreas de risco e possa planejar ações antes que os desastres aconteçam. As oficinas mostraram a importância de ouvir quem vive diariamente nesses locais, porque são os moradores que conhecem a realidade de cada bairro”, afirma a coordenadora da Defesa Civil, Nilma Macieira.

Mapeamento aponta 77 setores de risco

O levantamento preliminar identificou 77 setores de risco em Itabira, classificados entre médio, alto e muito alto. A estimativa é de que 186 edificações e cerca de 774 pessoas estejam expostas a processos geo-hidrológicos. Os bairros Pedreira e Gabiroba concentram o maior número de áreas mapeadas, seguidos por Clóvis Alvim II e Nossa Senhora das Oliveiras.

A atualização ocorre doze anos após a elaboração do último PMRR, concluído em 2014. A articulação da Prefeitura junto ao Ministério das Cidades garantiu apoio técnico especializado, evitando um investimento estimado em R$ 2 milhões para contratação de consultoria externa.

Capacitação aproxima técnica da prática

O treinamento desta semana apresenta aos participantes a metodologia utilizada na elaboração do PMRR e sua aplicação na gestão de riscos. A formação busca aproximar o conhecimento técnico da atuação cotidiana dos servidores e representantes da sociedade civil, ampliando a capacidade de prevenção e preparação do município.

Após o curso, as contribuições dos moradores serão incorporadas aos estudos conduzidos pela UFOP. A etapa final será uma audiência pública aberta à população, quando o diagnóstico e as propostas do novo PMRR serão apresentados antes da conclusão do documento.

Com a atualização, Itabira passa a contar com um instrumento técnico mais atual e preciso para orientar decisões, priorizar investimentos e planejar ações diante de eventos climáticos extremos.

As pessoas interessadas em participar do curso podem realizar a inscrição por meio do formulário disponível neste link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScca3gWsMC82Hw6PUjaTvsVnIE4TPK_GGaKbAVCiyxdL1JX-g/viewform

Comitê prepara ações diante dos impactos do El Niño

Paralelamente à atualização do PMRR, a Prefeitura estruturou o Comitê Municipal de Enfrentamento aos Impactos do El Niño, reunindo diferentes secretarias e órgãos públicos para integrar ações de prevenção, resposta e planejamento.

O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas superficiais do Pacífico Equatorial, altera padrões atmosféricos e influencia diretamente o regime de chuvas e temperaturas em várias regiões do Brasil, incluindo Minas Gerais.

Segundo análises do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), episódios de El Niño tendem a provocar chuvas irregulares e mal distribuídas no estado, com períodos de estiagem intercalados por eventos de precipitação intensa.

Para o interior de Minas, especialmente áreas montanhosas como Itabira, o cenário exige atenção redobrada. Isso porque, a combinação entre veranicos prolongados e pancadas fortes pode favorecer encharcamento repentino do solo, aumento do risco de deslizamentos de encostas, além de alagamentos em áreas urbanas com drenagem limitada.

Modelos climáticos do CPTEC/Inpe indicam que, durante a atuação do El Niño, há maior probabilidade de chuvas concentradas em curtos períodos na região Central de Minas, o que inclui Itabira. Esse padrão aumenta a chance de eventos extremos, como enxurradas e movimentos de massa, sobretudo em áreas já mapeadas como vulneráveis pelo PMRR.

A Defesa Civil Nacional também alerta que o fenômeno costuma elevar as temperaturas médias, o que acelera o ressecamento superficial do solo – e, paradoxalmente, torna o terreno mais suscetível a escorregamentos quando a chuva retorna com intensidade.

Diante desse cenário, o Comitê Municipal tem a função de articular ações preventivas, revisar protocolos de emergência, reforçar a comunicação com a população e integrar informações meteorológicas em tempo real às estratégias de resposta.

A preparação antecipada é considerada essencial para reduzir impactos, proteger áreas sensíveis e garantir maior segurança às comunidades que vivem em regiões de risco.

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