Calor e aumento de consumo reduzem níveis dos reservatórios e já colocam abastecimento de Itabira em estado de atenção
Foto: Carlos Cruz
Após discurso otimista, Saae admite estado de atenção no abastecimento; estiagem agravada pelo El Niño vai se repetir na cidade ampliando a crise hídrica até que ocorra a transposição de água do rio Tanque
O otimismo do Saae para o próximo período de estiagem, manifestado em nota à imprensa divulgada na semana passada, durou pouco e não passou de miragem extemporânea. O período de estiagem ainda nem teve início e esse otimismo já se desmancha no ar nada liquefeito do verão que ainda virá.
Segundo atualização do Boletim Operacional do Período de Estiagem do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), divulgado nesta segunda-feira (10), o abastecimento de água em Itabira já entrou em nível de atenção.
A autarquia atribui essa situacao à elevação das temperaturas nos últimos quatro dias, o que fez o consumo aumentar, enquanto a vazão de captação da Estação de Tratamento de Água (ETA) Pureza e os níveis dos reservatórios apresentaram redução.
Mas não se deve atribuir apenas ao aumento do consumo da população, isso é simplificação de uma realidade que compromete a qualidade de vida da população há mais de três décadas.
Como já foi registrado reiteradas vezes neste site, em Itabira só haverá alguma segurança hídrica– e olhe lá – quando forem concluídas as obras de transposição do rio Tanque, necessária diante do quase monopólio das outorgas na cidade, e atrasadas pelo fato de a mesma mineradora não cumprir condicionantes da Licença de Operação Corretiva (LOC) de 2000.
Diante desse cenário, foi intensificado o monitoramento e as ações operacionais para recuperar os níveis dos reservatórios, para que seja garantido o funcionamento dos sistemas de abastecimento.
“Estamos acompanhando o comportamento dos mananciais e dos sistemas de abastecimento de forma permanente. Neste momento, nosso trabalho está concentrado na recuperação dos níveis dos reservatórios e na manutenção das condições operacionais do sistema. A contribuição da população, com o uso consciente, é muito importante para atravessarmos este período”, conta a gerente de Produção e Tratamento do Saae, Grazielle Cristina Assis Carneiro.
Segundo a autarquia, os mananciais estão operando com 70% da capacidade total para a captação de água, o que tem afetado a produção média de 400 litros por segundo.
Daí que podem ocorrer intermitências no abastecimento em diferentes regiões da cidade, especialmente se as altas temperaturas, assim como o aumento de consumo persistirem nos próximos dias, mas não por culpa da população, repita-se à exaustão.

Temperaturas elevadas e agravamento pelo El Niño
Itabira registrou altas temperaturas no fim de semana, com mínima de 15ºC e máxima de 31ºC, segundo dados do Climatempo.
A combinação de calor, baixa umidade do ar, queda na captação e aumento do consumo já provoca instabilidade no fornecimento de água na cidade, recurso que tem se mostrado escasso mesmo durante o período chuvoso.
Esse cenário de escassez hídrica confirma os alertas feitos anteriormente neste site sobre os impactos do El Niño, fenômeno que intensifica as estiagens no Sudeste e agrava a pressão sobre os mananciais locais.
Mas mesmo antes, nos últimos anos, o município tem enfrentado secas cada vez mais severas, com reservatórios como o da Pureza chegando a níveis críticos, praticamente secando em 2025.
A tendência é que o fenômeno climático agrave esse quadro, tornando o abastecimento ainda mais vulnerável e exigindo medidas mais drásticas.
Além disso, pode ser necessário antecipar o reforço de 160 litros por segundo que a Vale é obrigada a fornecer à cidade durante o período de estiagem, por força de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público de Minas Gerais, diante da queda antecipada já verificada nos mananciais que abastecem a cidade, especialmente Pureza e Gatos.
A previsão é que as temperaturas continuem elevadas nos próximos dias, reforçando a necessidade de atenção ao consumo de água.
Daí que cabe à população também fazer a sua parte, com uso racional, evitando desperdícios como lavagem de calçadas e banhos prolongados, priorizando o consumo essencial desse recurso imprescindível, cuja prioridade deve ser da população — e não da mineração.









